A falta de recursos no Fies (Fundo de Financiamento Estudantil), o programa federal de crédito a alunos do ensino superior, deixou muitos estudantes sem alternativas para acessar faculdades privadas. Mas aos poucos, outros caminhos foram surgindo, como o financiamento por instituições privadas de crédito.

É o caso do PRAVALER, a maior instituição privada do país dedicada ao crédito estudantil. A empresa, fundada em 2006, já concedeu crédito para mais de 150 mil estudantes de mais de 500 faculdades ou universidades.

Nesse modelo, o aluno paga 50% do valor da mensalidade durante o curso, e os outros 50% são financiados após a formatura, com um acréscimo de juros.

Em entrevista ao 6 Minutos, Carlos Furlan, presidente do PRAVALER, comentou sobre os desafios desse mercado e as razões pelas quais a instituição tem conseguido crescer. “A evasão dos cursos de menor qualidade é alta. Se o estudante desiste do curso no meio do caminho, o dinheiro que ele investiu até ali é perdido”, diz.

Furlan conta que, no processo de análise de concessão de crédito, o critério fundamental para a aprovação do financiamento é a qualidade da formação do estudante e a chance de ele ser empregado no futuro. “Para nós, o ideal é que haja uma aderência maior aos cursos e às universidades de melhor qualidade. E não é à toa: o estudante que se forma nessas instituições tem mais chances de pagar pelo financiamento no futuro”, disse.

O valor médio das mensalidades financiadas pelo PRAVALER é de R$ 1.400: é um tíquete alto considerando o custo médio do estudo no Brasil. Parte disso é decorrente do perfil dos cursos mais financiados. Os alunos custeados pelo programa estão mais concentrados nos seguintes cursos: direito, enfermagem, psicologia, engenharia civil, fisioterapia e administração. “Quando o aluno tem o financiamento, ele escolhe o curso que quer, e não aquele que cabe no bolso”, conta Fulan. Veja abaixo a entrevista ao 6 Minutos:

Por que os bancos não oferecem mais linhas de crédito para o ensino superior?

O financiamento estudantil não é simples. Quando você vai ao banco pedir dinheiro emprestado, você diz: eu sou o fulano, quero R$ 2 mil emprestados e prometo pagar de volta em um ano. Aí o banco olha quem é você, olha sua renda, e decide se concede ou não. Pouco importa se você vai usar esse dinheiro para comprar um iPhone, uma mesa ou pagar um curso.

No crédito universitário, toda a diferença está no que você vai fazer com esse dinheiro. Quando concedemos crédito ao estudante, olhamos se ele vai fazer um curso que vai levá-lo a algum lugar ou se a chance de empregabilidade futura não é tão alta assim. Não é uma análise simples. Além disso, esse tipo de crédito não tem garantia real. Não dá para pedir algum bem, um imóvel ou uma casa, como garantia para os estudantes. Esse público, em geral, é jovem e não tem histórico de crédito. Por isso, fazemos uma análise olhando para a frente.

Como é a análise de aprovação de crédito?

Temos dois processos: o credit score e o behavior score. O credit score, que é a nota de crédito, é a porta de entrada: é um algoritmo com dezenas de variáveis, cujo objetivo é verificar a chance de o aluno pagar por aquele curso, naquela faculdade e naquela cidade. É por isso que o mesmo aluno pode ter chances diferentes de aprovação em cursos diferentes e em locais diferentes. É aqui que entra o critério de empregabilidade.

Já o behavior score, o comportamento de crédito, é uma análise semestral, que fazemos em toda renovação do contrato de financiamento do estudante. Esse outro algoritmo olha, também, como foi o perfil de pagamento do estudante nos últimos meses. Cada semestre tem critérios diferentes na análise. Uma coisa é você cortar o crédito de uma pessoa que cursou o primeiro semestre e parece não estar se dando bem com o curso e com as mensalidades. Outra coisa é você cortar o crédito de quem já estudou 3 anos e meio e falta pouco tempo para se formar.

No Fies, algumas faculdades impuseram mensalidades muito superiores aos alunos financiados pelo programa. Como evitar esses problemas?

Primeiro, se a universidade subir a mensalidade artificialmente, nosso algoritmo vai perceber que aquele curso não vale aquele preço e não vamos aprovar o financiamento. Essa ferramenta pega 80% dos casos. Segundo, temos um processo bem trabalhoso de verificação de mensalidades de alunos do PRAVALER e de mensalidades de outros alunos da faculdade. Nossos gerentes regionais fazem esse processo de checagem e, se há diferença, chamamos a faculdade pra conversar.

Claro que alguma diferença a gente até propositalmente topa, porque as faculdade podem subsidiar os juros do aluno. O que não pode haver é uma discrepância enorme.

Como funciona esse subsídio das faculdades?

Em nenhum dos nossos contratos um aluno paga o juro todo. Nossas taxas variam de juro zero (ou seja: o financiamento é corrigido somente pela inflação) até taxas anuais de 15%. É a faculdade que decide quanto vai subsidiar desse juro.

Por que as instituições de ensino subsidiam os juros?

Primeiro porque você atrai mais alunos, então há uma redução no número de cadeiras vazias em sala de aula. Segundo porque nós pagamos o semestre antecipadamente para as instituições, então elas têm um fluxo de caixa positivo. Terceiro: não há inadimplência, pois o risco do aluno é todo do PRAVALER. Por fim, há uma redução na evasão de alunos. O que mais machuca o balanço de uma faculdade é a evasão: é o ingresso de 100 alunos e a formatura de apenas 40. Isso porque ela monta uma estrutura para atender a esses alunos, e essa estrutura tem um custo.

Quando a demanda de matrículas regulares pelo curso é maior, as próprias instituições de ensino decidem subsidiar menos os juros dos alunos com crédito privado. Varia caso a caso.

O mercado americano de crédito estudantil é muito maior que o brasileiro. Que lições nós podemos tomar?

Muitos estudantes nos EUA pegaram crédito para programas que não geraram valor, em cursos de baixa qualidade. O outro problema era a estrutura: os alunos não pagavam nada durante o curso e depois tinham um prazo de 20 anos para o pagamento. E aí muita gente se endividou em cursos ruins, porque a dívida era só lá na frente.

O exemplo serviu para nós: claro que a taxa de juros e o valor da mensalidade são importantes, mas o essencial é saber se aquele curso que ele está fazendo vale a pena.

Se você pegar os cursos bons, nas boas instituições, a inadimplência é muito baixa. Ninguém fez Harvard e ficou enforcado a vida toda. Mas o cara que fez um curso qualquer, em uma universidade do interior, pagou US$ 50 mil, não aprendeu nada e tem uma dívida para a vida toda para pagar.

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