Sabe aquela história de que não existe mais investimento de renda fixa que tenha rentabilidade de 1% ao mês? Com a queda na taxa básica de juros, os investimentos mais conservadores passaram mesmo a render bem menos que isso. Mas quem olhar o desempenho dos títulos do Tesouro Direto em janeiro pode até achar que os tempos de Selic de juros a dois dígitos estão de volta.

Pode explicar melhor? Então vamos partir do básico. Os títulos do Tesouro Direto representam uma oportunidade para o investidor “emprestar” dinheiro para a União. Ao aplicar no Tesouro, o investidor está comprando um título de dívida do governo, que será remunerado de acordo com as condições firmadas. Por isso esses títulos são considerados os mais seguros do mercado.

No entanto, o Tesouro Direto é um produto com liquidez diária. Isso significa que o investidor não precisa carregar esses títulos até a data do vencimento — lembrando que alguns só vão vencer daqui a mais de 20 anos. Mas se decidir vender o título, o investidor não receberá o rendimento acordado para o período. A remuneração será calculada com o valor daquele título na data — o que é chamado de marcação a mercado.

Ou seja: se o título for vendido antes da data, não é que o governo estará pagando a dívida antecipadamente. O investidor estará, na prática, vendendo seu título para outro investidor, a preço de mercado. E esse preço varia todos os dias, afetado pela oferta (quantos outros investidores querem vender o mesmo título) e demanda (quantos outros investidores querem comprar o mesmo título).

Essa relação de oferta e demanda tem a ver com as perspectivas do mercado para o rendimento do título. Por exemplo: se você tem um título que remunera de acordo com o IPCA e as expectativas de inflação começam a mudar, é possível que seu título se desvalorize — afinal, o retorno desse título ficou mais incerto.

“A equação é: se o risco cresce, o desconto no valor do título fica maior. Como o investidor não sabe se a economia vai crescer na velocidade proposta, ele se prepara para o pior”, diz Fabio Macedo, diretor comercial da corretora Easynvest, que é líder em venda de Tesouro Direto.

Dito tudo isso, vamos ao desempenho dos principais títulos do Tesouro Direto em janeiro:

TítuloRendimento em janeiro
Tesouro pré-fixado 20251,34%
Tesouro pré-fixado c/ juros semestrais 20271,32%
Tesouro pré-fixado c/ juros semestrais 20251,19%
Tesouro pré-fixado 20231,13%
Tesouro pré-fixado c/ juros semestrais 20231,03%
Tesouro pré-fixado 20220,87%
Tesouro pré-fixado c/ juros semestrais 20290,82%
Tesouro IPCA+ com juros semestrais 20260,70%
Tesouro IPCA+ 20240,58%
Tesouro IPCA+ com juros semestrais 20240,54%
Tesouro pré-fixado 20210,48%
Tesouro pré-fixado c/ juros semestrais 20210,46%
Tesouro Selic 20210,35%
Tesouro Selic 20230,35%
Tesouro Selic 20250,33%
Tesouro IPCA+ com juros semestrais 2035-0,04%
Tesouro IPCA+ com juros semestrais 2020-0,15%
Tesouro IPCA+ 2035-0,59%
Tesouro IPCA+ com juros semestrais 2045-1,00%
Tesouro IPCA+ com juros semestrais 2050-1,54%
Tesouro IPCA+ 2045-1,64%

Por que alguns títulos subiram mais de 1% e outros caíram mais de 1%? O mês foi de muita volatilidade para os títulos do Tesouro — tanto que o Tesouro Nacional, que administra a negociação de títulos, chegou a interromper a venda durante algumas horas no dia 28 de janeiro.

“Quando há muita disparidade nos preços de compra e nos preços de venda, o Tesouro faz uma pausa para tentar calcular qual é o valor justo desse título”, diz Fabio Macedo, da corretora Easynvest.

Ele conta que os títulos atrelados à inflação e de prazo mais longo foram os que mais sofreram. Basta olhar a tabela acima — os que encolheram mais de 1% são títulos atrelados à inflação e com vencimento em 2045 e 2050. Isso aconteceu porque com a subida do dólar, o cenário de inflação ficou mais incerto. Por causa disso, os investidores que recorrem a esses títulos pedem uma espécie de “prêmio” pelo risco extra, o que faz o valor do título cair.

Por outro lado, esse cenário de incerteza beneficia os títulos pré-fixados, que foram na direção contrária e subiram mais de 1%. Como esses títulos não acompanham nenhum tipo de índice e têm o retorno definido por um valor percentual já estabelecido, eles acabam sendo vistos como uma opção mais segura. Aqui vale a máxima do: mais vale um pássaro na mão do que dois voando.

Mas como pode um investimento em renda fixa oscilar tanto assim? “Essa é uma discussão bastante antiga. Muitos investidores que estão começando agora acabam tomando sustos, mas é importante entender que esse conceito de renda fixa de rentabilidade constante não existe”, afirma Macedo, da Easynvest.

Outro ponto importante é que os títulos que mais perderam valor são os que têm os vencimentos mais longos. Como é impossível prever o que deve acontecer com a economia nos próximos 20 ou 30 anos, é normal que esses papéis tenham uma volatilidade maior. Alerta Fabio Macedo, da Easynvest: “sendo assim, o investidor não deve apostar nesses papéis se estiver com planos de curto prazo, pois o risco de prejuízo é real”.

O que eu faço agora? Devo vender meus títulos? Essa resposta depende do seu propósito. No ano passado, alguns títulos do Tesouro Direto renderam tanto quanto o Ibovespa — olha aí o conceito de renda fixa com volatilidade baixa e controlada caindo por terra mais uma vez.

Aliás, os títulos que mais estão perdendo agora são os que mais ganharam no ano passado, então se o investidor está com esses papéis na carteira há mais tempo, é possível que ele nem sinta o efeito negativo de janeiro.

“Dado o desenrolar das notícias relacionadas ao coronavírus, tudo indica que teremos um fevereiro bastante volátil”, diz Macedo, da Easynvest. É possível, portanto, que o padrão de janeiro se repita. Se você tem planos de curto prazo, é melhor ficar de fora dos investimentos que variaram mais no mês passado.

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