De cada R$ 10 investidos em previdência privada no Brasil, R$ 7 estão aplicados em fundos altamente conservadores, ou seja, que colocam mais de 80% em títulos que seguem o retorno da taxa básica de juros, a Selic.

Por muitas décadas, essas aplicações cobriam as necessidades dos investidores. O problema é que o cenário mudou: os juros agora estão no menor patamar da história (2% ao ano). Em português claro, a rentabilidade da maior parte desses fundos está perdendo para a inflação.

Por isso é o momento em que os investidores refazerem as contas e analisarem se o “novo normal” da rentabilidade desses fundos dará conta dos seus compromissos no futuro, alertam especialistas.

Como está o retorno médio desses fundos conservadores? O 6 Minutos pesquisou o retorno de diferentes tipos de fundos de previdência conservadores nos dados da Anbima (Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais).

Só foram levantados os fundos soberanos (aplicam 100% em títulos públicos) e grau de investimento (aplicam no mínimo 80% em títulos públicos).

De oito segmentos pesquisados, cinco tiveram em junho uma queda de no mínimo 20% no retorno na comparação com julho de 2019.

Esse recuo veio para ficar. Como é possível observar no exemplo do gráfico abaixo, a rentabilidade vem se reduzindo mês a mês, acompanhando a queda na Selic. Na semana passada, o BC voltou a cortar os juros, o que deve voltar a se refletir nessas aplicações nos próximos meses.

“Cada vez que temos cortes na taxa básica, os fundos de renda fixa passam a render menos na mesma proporção”, explica  Marcelo Romero, diretor de análise quantitativa da plataforma de investimentos Magnetis.

A rentabilidade de fundos de previdências em ações ou multimercados (que investem tanto em renda fixa como variável) teve uma forte queda no pico da pandemia, mas já houve uma boa recuperação, o que indica que o movimento foi pontual por causa da Bolsa em queda no meio da crise.

O que devo olhar para saber se o meu fundo vale a pena? Um dos pontos importantes quando se avalia o retorno de um fundo é a taxa de administração cobrada.

Romero, da Magnetis, dá um exemplo: se um fundo estava rendendo 100% do CDI (Certificado de Depósito Interbancário, cujo retorno acompanha a Selic) quando este estava em 4% ao ano, passaria a render 2% com a Selic no patamar atual.

Se a taxa de administração permanecer a mesma, o retorno, que já vai diminuir pela metade, será ainda mais penalizado.

É bom lembrar, entretanto, que o retorno não deve ser o único fator a ser levado em conta. É preciso comparar as taxa com a de outros fundos, avaliar a solidez da aplicação e levar em conta o restante da sua carteira de investimentos (leia mais aqui sobre como escolher).

Essa queda dos juros não é só no curto prazo? A taxa não vai voltar a subir? Não necessariamente. No comunicado da última decisão, em que cortou os juros para 2% ao ano, o Banco Central indicou que a taxa deve permanecer em um patamar baixo por 2021 e até 2022, caso a inflação continue baixa.

Quando o país voltar a crescer, ou se houver uma disparada sem controle dos gastos públicos, esse cenário pode mudar. Ainda assim, Romero lembra que os juros futuros, descontada a inflação projetada, estão por volta de 3% ao ano para investimentos de 10 anos ou mais.

“Se 3% ao ano de juros reais não for suficiente para cobrir os objetivos financeiros ou a aposentadoria da pessoa ao longo da vida, a portabilidade para fundos com maior exposição ao risco pode ser uma boa opção”, afirma.

E como funciona a portabilidade de fundos de previdência? Se achar que a rentabilidade do seu fundo de previdência não está satisfatória, o consumidor tem o direito de fazer a portabilidade dos seus recursos para outro fundo.

Segundo a Susep (Superintendência de Seguros Privados), que regula o setor, o consumidor só não pode fazer a portabilidade de um PGBL (Plano Gerador de Benefício Livre) para um VGBL (Vida Gerador de Benefício Livre). Respeitando essa regra, ele pode migrar seus recursos para outra instituição financeira ou para um outro fundo do mesmo gestor.

Mas é possível fazer a portabilidade de um fundo de previdência de renda fixa para outro que seja multimercado ou de ações? Sim. De acordo com a Susep, o consumidor pode direcionar seus recursos para fundos com um perfil diferente de risco.

Como pedir a portabilidade? O caminho é fazer uma solicitação à nova instituição financeira (ou na mesma gestora) e apresentar os documentos que serão solicitados, como extrato e características do plano anterior.

Caso vá trocar de instituição financeira, o cliente deverá permanecer por 60 dias, no mínimo, no antigo plano após a contratação do novo.

 

 

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