O sentido clássico de investir é aplicar um montante que será empregado em um projeto futuro, dentro de um planejamento bem organizado. Mas nem todas as nossas necessidades financeiras seguem um script que foi cuidadosamente traçado. Há aquelas oportunidades que surgem e não podem ser desperdiçadas – e mesmo os imprevistos com os quais não é possível contar.

Para todas essas situações, é preciso estar preparado. E a melhor forma de fazer isso é por meio de investimentos com liquidez diária, que possam ser resgatados sem complicação quando for necessário. Ainda que ofereçam alguma rentabilidade, é pelo fácil acesso que eles conquistam um espaço na carteira do investidor.

Alguns já são velhos conhecidos da maioria, como a caderneta de poupança. Outros são novidades mais recentes do mercado, caso das contas remuneradas. Cada um tem suas vantagens e limitações. Veja quais são os caminhos disponíveis e escolha o que fizer mais sentido para você.

Caderneta de poupança

Porta de acesso de muitos ao mundo dos investimentos, a velha caderneta ainda é a escolha de milhões de brasileiros, seja por falta de conhecimento ou mesmo por opção. Com manejo extremamente simples, isenta de taxas e impostos, ela tem acesso imediato em qualquer situação – inclusive no caixa eletrônico, no fim de semana.

Mas há um detalhe importantíssimo que muitas vezes passa despercebido: a data de aniversário. “A poupança tem liquidez diária, mas não tem rentabilidade diária. Cada depósito só vai receber rentabilidade uma vez a cada 30 dias”, explica a planejadora financeira Rosi Ferruzzi, da Planejar. “Ao fazer um resgate em um dia qualquer, o investidor vai deixar de ter o ganho que receberia se esperasse até o próximo aniversário.”

Quanto paga? Até a semana passada, a rentabilidade da poupança seguia a regra nova, que corresponde a 70% da taxa básica de juros (Selic), mais a variação da TR (que hoje é igual a zero). Quando a taxa ultrapassa 8,5% ao ano – o que aconteceu na última quarta-feira, quando o Copom (Comitê de Política Monetária do Banco Central) elevou a meta da Selic para 9,25% ao ano – volta a valer a regra antiga, que prevê retorno de 6,17% ao ano, mais TR, o que dá 0,5% ao mês.

“O retorno fica abaixo da inflação do período. Se for guardado para objetivos de médio e longo prazo, o dinheiro deixado na caderneta perderá poder de compra ao longo do tempo”, alerta Rosi. “Já em um horizonte de curtíssimo prazo, não vejo tanto problema se ela for uma facilidade para o investidor. A reserva de emergência não prioriza a rentabilidade, porque é um valor que deve estar disponível de imediato, não pode haver dificuldade no resgate.”

Contas remuneradas

Oferecidas principalmente por fintechs, como bancos digitais e corretoras, elas têm a mesma mecânica de uma conta corrente convencional – a diferença é que os valores nelas depositados passam a receber alguma rentabilidade já a partir do segundo dia.

Atenção com outro detalhe: essas contas são tributadas. “Com exceção da poupança e outros produtos isentos (LCI, LCA, CRI e CRA), todos os demais investimentos têm incidência de Imposto de Renda, com alíquota regressiva, que começa em 22,5% sobre os ganhos. Além disso, resgates anteriores a 30 dias também pagam IOF”, observa Rosi.

Quanto paga? Se você acha que a poupança paga pouco, é porque não viu com atenção o retorno das contas remuneradas: algumas não chegam a pagar 30% da taxa Selic. É preciso pesquisar bem.

“É uma rentabilidade muito baixa, não serve nem para a reserva de emergência. Vale deixar o dinheiro lá por no máximo 30 dias. Em 20 ou 25 dias, você pelo menos vai receber alguns centavos, enquanto na caderneta de poupança seu retorno antes do 30º dia do depósito seria zero”, pondera a planejadora financeira.

CDBs

Cada vez mais populares entre os investidores da renda fixa, os CDBs são operações de crédito em que o comprador do título empresta dinheiro a um banco ou outra instituição financeira, por um prazo definido. Para saber mais sobre eles, leia o guia elaborado pelo 6 Minutos.

Os títulos para 2, 3 e 5 anos são os mais comuns, mas há também papéis com prazos para 3 ou 6 meses – e outros que têm liquidez diária. Nestes últimos, o investidor não corre o risco de sofrer uma penalidade (ou mesmo ter o resgate negado) se precisar movimentar o dinheiro antes do vencimento.

Quanto pagam? Os CDBs com liquidez diária são do tipo pós-fixado, atrelado ao CDI, e costumam pagar 100% do CDI, não muito mais que isso. Não é muito diante dos retornos de papéis mais longos, mas é o preço que se paga para poder mexer no dinheiro a qualquer hora. Vale lembrar, novamente, que sobre os ganhos há incidência de IR e, em resgates anteriores a 30 dias, também de IOF.

Para obter ganhos maiores, uma possibilidade a ser avaliada são os CDBs curtos, que pagam taxas que podem chegar a 200% do CDI. Nesse caso, o investidor abre mão da liquidez diária (não é possível resgatar até o vencimento), mas terá o dinheiro de volta em um prazo relativamente pequeno, em geral de 3 ou 6 meses, com retorno bem maior.

Tesouro Direto

Os títulos públicos de renda fixa negociados pela plataforma do Tesouro Direto também têm liquidez imediata – desde que você faça a solicitação do resgate antes das 13 horas. Após esse horário, o dinheiro somente será creditado na sua conta no próximo dia útil.

A taxa de custódia cobrada pela B3 é de 0,25% ao ano e, a partir de 1º de janeiro de 2022, será reduzida para 0,20%. Essa taxa é isenta para depósitos de até R$ 10 mil em Tesouro Selic (acima desse valor, incide a taxa apenas sobre a diferença que exceder o teto). Além dessa taxa, nunca é demais repetir, há a incidência de IR e IOF sobre os ganhos.

Aqui também vale um alerta: embora todos os títulos do Tesouro Direto tenham liquidez diária, isso não significa que será interessante para você vendê-los a qualquer momento!

“O título mais indicado para essa finalidade [de investimento com liquidez diária] é o Tesouro Selic. Já o Tesouro Prefixado e o Tesouro IPCA sofrem marcação a mercado e, por isso, não são indicados como reserva financeira. Antes do vencimento, é preciso analisar se aquele é um bom momento para o resgate [sem perder dinheiro]”, adverte a especialista da Planejar.

Quanto pagam? As taxas oferecidas mudam diariamente. Consulte a tabela de rentabilidades neste link.

Fundos de investimento

Boa parte dos fundos de investimentos tem regra de resgate D+0, ou seja, liquidez diária. (Mas não todos: conforme crescem a complexidade da estrutura e o risco do fundo, aumenta também o número de dias que é preciso esperar para receber o dinheiro a partir da ordem de resgate: D+1, D+15, D+30…). Via de regra, o valor investido é convertido em certa quantidade de cotas, pelo valor da cota do dia, e o caminho inverso é feito no momento do resgate.

Dito isso, há um grande número de variáveis a serem consideradas na hora de escolher onde aplicar o dinheiro. “Não é um investimento fácil de entender. Pode ter muita coisa dentro da carteira de um fundo”, afirma Rosi. “Fuja dos chamados fundos simples. Eles são muito conservadores, com pouquíssimo risco e volatilidade, e entregam um rendimento inferior ao da caderneta de poupança, a uma taxa de administração altíssima, em torno de 2%.”

Ela explica que uma taxa de 2% é aceitável se for condizente com a complexidade da gestão e o fundo estiver performando bem, de acordo com a política de investimentos que propõe. “Mas não em um fundo ‘passivão’, referenciado ao DI. É preciso analisar a relação risco-retorno”, recomenda. “A taxa de administração come uma parte significativa da rentabilidade, assim como o come-cotas, que é debitado semestralmente mesmo se não houver resgate.”

Quanto pagam? A resposta é: depende. Há quatro classes de fundos e uma grande variedade de estratégias e espectros de rentabilidade. Há inclusive fundos com liquidez diária que têm risco de médio para cima – e o potencial de retorno é condizente com esse risco. “Tudo vai depender do propósito do investimento. Um fundo D+0 nem sempre é adequado para a reserva de segurança: um de médio risco já não serve para isso”, diz a planejadora financeira.

Ela acrescenta que, se a intenção é contar com liquidez diária para poder movimentar o dinheiro em qualquer eventualidade, o investidor terá que se contentar com um retorno “na média do mercado”. “Não dá para querer ter um ganho acima da média no curto prazo, isso não existe, a menos que você seja um trader que tolera uma volatilidade elevada.”

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