Quem investe em ações deveria saber que se expor à renda variável exige lidar com oscilações de preço constantes, ao sabor das expectativas do mercado e de eventos que deixam o cenário mais volátil. Mas as últimas semanas não têm sido fáceis para o investidor. A disposição do governo para colocar interesses eleitorais à frente do compromisso fiscal deixou o panorama nebuloso e aumentou o sentimento de aversão a risco.

A consequência disso é que os preços das ações sofrem um baque, já que gestores e outros investidores tendem a desembarcar da Bolsa em busca de opções mais seguras. Nas últimas semanas,  Ibovespa visitou as mínimas do ano e já acumula prejuízo de quase 12% de janeiro para cá. Em meio à incerteza quanto aos fundamentos da economia, a própria lucratividade das empresas fica difícil de precificar – e, em última análise, é em garfar um pedaço desses lucros que o comprador de ações está interessado.

Ao mesmo tempo, grandes descontos também podem trazer boas oportunidades, se mais adiante as ações voltarem a se valorizar. Alocações de prazo mais longo têm tempo suficiente para capturar a recuperação de preço dos ativos. Mas avaliar quais empresas e setores têm boas perspectivas e oferecem uma relação risco-retorno interessante não é uma tarefa simples. Veja quais são as sugestões dos especialistas ouvidos pelo 6 Minutos.

Energia

É difícil não começar falando sobre as empresas de energia, setor que é tido como um dos mais defensivos da Bolsa. “É um setor com demanda acíclica [ou seja, o consumo por parte da população não oscila de acordo com os ciclos econômicos]. Então, as empresas conseguem repassar a inflação por meio da elevação de tarifas”, explica Flávio de Oliveira, head de renda variável da Zahl Investimentos.

A situação das transmissoras, como Taesa e Isa Cteep (Transmissão Paulista) é particularmente confortável, porque os ganhos dessas empresas não mudam se o consumo de energia sobe ou cai. “Elas já têm sua receita pré-contratada, então precisam apenas manter a infraestrutura funcionando”, ele explica.

Virgílio Lage, especialista da Valor Investimentos, diz que os papéis de energia ficaram “extremamente descontados” em razão da crise hídrica. Dentro do segmento, ele indica a Energias Brasil, holding que exerce atividades de geração, distribuição, transmissão e comercialização. “Ela é uma diversificadora dentro da energia elétrica, com um olhar sustentável.”

Estatais e Vale

Com o aumento do risco político, as ações de Petrobras, Eletrobras e Banco do Brasil foram muito penalizadas – e sentem um solavanco a cada novo ruído vindo de Brasília. Mas, se não são a melhor pedida para quem está atrás de tranquilidade, podem justificar o investimento no longo prazo.

“A situação delas continuará um pouco desconfortável pelo menos até a eleição. A polarização política é conturbada e o mercado espera a resolução da questão do teto de gastos e o surgimento de uma terceira via, de preferência de centro-direita, para se estabilizar”, afirma Lage. “Mas, em termos fundamentalistas, olhando dividendos, valor patrimonial por ação, lucro por ação, estão muito baratas. Têm upside [potencial de valorização] de 100% ou mais, são papéis com chance de dobrar de valor.”

Ele destaca o potencial de ganho do BB, que está negociando abaixo do valor patrimonial. E acrescenta que a Petrobras tem um upside maior que o da Vale – outra gigante das commodities, mas livre do risco político. “Após a estabilização política, as ações das estatais devem performar melhor”, acredita.

A Vale, aliás, tem sofrido um bocado com as instabilidades na votação do minério de ferro. Apesar disso, o papel é recomendado por Oliveira. “Em teoria, mesmo que o preço do minério caísse 30%, o fluxo de caixa da Vale seria bom. É um big player, produz o minério de maior qualidade do mundo, o aço não tem um substituto na construção civil”, argumenta o head da Zahl. “A Vale é interessante por estar vinculada a dólar, e também porque hoje os preços da commodity estão dentro de uma certa racionalidade. Não é um papel necessariamente defensivo, mas surfa bem nestes tempos.”

Seguradoras

“São um setor historicamente defensivo, mas que o investidor não olha tanto”, diz Oliveira. “Agora, por questões pontuais, elas acabaram apanhando mais e se tornaram ainda mais interessantes, com os descontos.”

Ele explica que companhias como Porto Seguro e BB Seguridade foram afetadas pelo ambiente de juros baixos que se desenhou na pandemia. Isso porque elas costumam aplicar o valor dos prêmios na renda fixa pós-fixada, que perdeu rentabilidade. Além disso, a população está retomando suas atividades presenciais e passou a usar mais o seguro-saúde, o que elevou a sinistralidade.

No setor, Lage recomenda a SulAmérica. “Ela sofreu muito com a pandemia de covid-19, mas tem um caixa robusto. Como é a mais barata do mercado em termos fundamentalistas, tem upside maior”, justifica.

PetroRio

Um movimento que faz muito sentido quando os fundamentos macroeconômicos do país estão deteriorados é o que os especialistas chamam de “descorrelacionar” o portfólio. Isso significa buscar ativos cujo comportamento independa de variáveis locais como Bolsa e juros. Para a analista Danielle Lopes, sócia da Nord Research, uma ação que serve bem a essa estratégia é a da PetroRio.

“Apesar de ser uma empresa brasileira negociando na Bolsa brasileira, ela tem 100% das receitas em dólar (pois vende para mercados globais, como China, Europa e EUA) e custos metade em real e metade em dólar. Essa assimetria faz com que ela se beneficie da valorização da moeda americana e também do óleo Brent mais caro”, ela explica.

A petroleira adquire e explora campos já maduros, uma operação com custos menores que os da Petrobras, e poderá multiplicar a produção por 2 ou 3 com a aquisição de Albacora e Albacora Leste. “Esse potencial tem impacto forte no Ebitda da companhia, que tem sido forte geradora de caixa. “Por isso, quando falamos em fugir do cenário Brasil, PetroRio é a nossa maior recomendação”, conclui Danielle.

Sistema financeiro e varejo

O sistema financeiro é lembrado pelos especialistas da Zahl e da Valor. Em momentos de maior estresse, os bancos têm um risco sistêmico de calote, mas os grandes têm um caixa bastante parrudo. “O mais barato é o Banco do Brasil, que tem a inadimplência baixa”, diz Lage. “E, se quiser diluir o risco sistêmico, o investidor pode comprar ações da Itaúsa, no lugar de bancos. É uma holding que, além do Itaú, tem outros nomes no portfólio. É como se o investidor comprasse uma pequena cesta de empresas.”

Oliveira diz que as fintechs podem ser um complemento interessante à carteira. “O BTG Pactual e a XP [que o brasileiro pode comprar por meio de BDRs] foram bem descontados, mas estão surfando uma boa onda de crescimento, roubando share [participação de mercado] dos bancos”, comenta.

Outro setor ainda descontado e com boas chances de valorização, na visão de Oliveira, é o varejo eletrônico. “Os três maiores papéis (Magazine Luiza, Via e Lojas Americanas) caíram 60% do pico da pandemia até hoje, tiveram seu valor dividido por 3. São grandes consolidadoras em um mercado fragmentado e vão crescer ainda mais, quando os concorrentes morrerem. Todas têm projeções de upside acima de 100%”, prevê.

A tentação do que está barato demais

O head da Zahl diz que o nível de desconto das ações é tamanho que mesmo setores que inspiram cautela ou desconfiança acabam se tornando tentadores. Nesse sentido, os preços baixos acabam encorajando muitos investidores a correr mais riscos.

“Dizem que a construção civil está horrível porque, com inflação e juros altos, a demanda não resiste. É verdade, mas aí você vê construtoras negociando perto do valor que elas têm em caixa. Numa situação dessas, em qualquer respirada do mercado elas saltam 30%. Quando o mercado já sofreu demais, é difícil eliminar setores”, argumenta.

O próprio senso comum de evitar estatais em ano eleitoral é desafiado pelos preços baixos dessas ações, diz ele. “A Petrobras está negociando perto de 1x o valor patrimonial, o preço não para de subir e a receita é em dólar. O risco é ela sofrer alguma intervenção do governo federal. A R$ 25 por ação, o risco é o mesmo que a R$ 40, a diferença está no preço que eu paguei.”

Isso não significa, porém, que qualquer pechincha seja um bom negócio. Oliveira banca o “advogado do Diabo” e pondera que o mercado está barato, mas pode ficar ainda mais barato. Por isso, o investidor não deve apostar em ativos de risco além do que é capaz de tolerar.

“Uma empresa é um organismo vivo: ela se endivida, o produto dela pode cair em desuso. O investidor acha que tudo sempre vai dar certo no final, mas as empresas também morrem no final. O longo prazo é o veículo do darwinismo: a mais eficiente engole a menos eficiente. É só no longo prazo que o valor das empresas é demonstrado”, finaliza.

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