Novo sistema de pagamentos do Banco Central, o PIX entra em vigor em 16 de novembro e permitirá transferências 24 horas por dia, 7 dias por semana. O melhor de tudo: custo zero para as transações entre pessoas físicas e uma taxa reduzida para os outros casos (operações entre consumidores e empresas ou entre pessoas jurídicas).

Essa é uma ótima notícia para os clientes das grandes instituições financeiras, que podem gastar até R$ 1.000 por ano com pacotes de serviços, e uma notícia não tão boa assim para os bancos no médio e longo prazo.

Em 2019, os cinco grandes (Itaú, Bradesco, Santander, Banco do Brasil e Caixa) faturaram juntos cerca de R$ 30 bilhões com serviços relacionados à conta corrente. Apenas na primeira metade deste ano, foram quase R$ 15 bilhões, a despeito de os bancos estarem aumentando o número de isenções em pacotes por causa da pandemia de coronavírus.

Apesar de individualmente as transferências bancárias responderem por pouco menos de 10% desse montante, a TED e DOC são a coroa dos pacotes de serviços bancários, que representam mais da metade do total dos ganhos com conta corrente.

Se o PIX se consolidar e for adotado pelos brasileiros, como é o esperado pela atração que ferramentas digitais costumam exercer sobre os consumidores, a adoção do novo sistema deve tirar boa parte da atratividade desses pacotes, aponta o analista do setor financeiro Marcel Campos, da XP Investimentos.

“Se o sistema for um sucesso, os pacotes dos bancos perdem muito valor agregado”, afirma. “Isso não acontece de imediato, a partir de novembro, mas no médio prazo, a partir de 2021, 2022”, esclarece, lembrando que o novo sistema é de adoção obrigatória para bancos com mais de 500 mil contas.

Para Luis Miguel Santacreu, analista de bancos da Austin Rating, a questão é como a estrutura de tarifas dos bancos será adaptada à entrada em vigor do PIX.

“Os bancos com certeza vão ter que abrir mão de parte dessa receita, e isso com certeza está no cálculo deles. Agora, a velocidade e o quanto perderão é difícil saber agora. Vamos ter uma ideia melhor a partir do final de 2020 e ao longo dos próximos anos”, observa. “Já tem banco se antecipando e dizendo: se cadastre no PIX, até como forma de se proteger”.

Impacto menor sobre tarifas de empresas

Campos ressalta também que o impacto será mais sentido nas tarifas de pessoas físicas, já que o Banco Central determina que os bancos ofereçam aos clientes o pacote gratuito de serviços essenciais: isso inclui quatro saques por mês, cartão de débito para movimentação da conta e até 10 folhas de cheque por mês.

“A pessoa jurídica não tem opção de não pagar tarifa de serviços”, esclarece Campos, da XP. “Para as empresas, há uma complexidade muito maior de produtos e serviços oferecidos”.

Isso tende a amortecer os efeitos sobre a receita dos bancos com conta corrente, de acordo com ele, já que metade desses R$ 30 bilhões anuais vêm de pessoas jurídicas.

“Além disso, o PIX pode trazer benefícios para os bancos”, avalia. “A desbancarização no Brasil é muito grande, se as pessoas passarem a fazer transações, é mais captação bancária. Nem tudo é ruim”, pondera.

O novo sistema do BC pode ser ainda mais disruptivo se, no futuro, permitir parcelamentos de compras, como está previsto nas etapas futuras de implementação –essa é uma das funcionalidades em desenvolvimento, junto com pagamento por aproximação.

“No longo prazo, o PIX pode afetar até as compras com cartão de crédito parcelado. Se isso acontecer, será uma disrupção maior”, diz o analista da XP.

Pacotes esvaziados

Uma análise das principais cestas oferecidas pelos grandes bancos mostra que a maioria dos itens incluídos já é garantida no pacote gratuito de serviços essenciais, para atender a uma exigência do Banco Central, ou já está disponível também gratuitamente com um simples toque no seu celular.

Se fazer DOC e TED deixar de entrar na lista de serviços desejáveis, as cestas acabam ficando esvaziadas, já que além das transferências costumam oferecer serviços que vem perdendo a função, como folhas de cheque, mais de quatro saques ao mês e extratos em papel (entenda mais como os pacotes de serviços funcionam aqui).

“Como o PIX vai mudar os pacotes de serviços vai depender muito de quem prestar o melhor serviço com o melhor custo”, avalia Santacreu, da Austin Rating. “Até porque há outros fatores de relacionamento que também importam, como recebimento de salário e crédito, entre outros”.

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