Os marinheiros que não contavam com algum tipo de ativo de segurança na carteira de investimentos passaram por maus bocados na fase mais turbulenta da pandemia do coronavírus. Com quedas históricas na bolsa de valores e com a renda fixa minguando, as carteiras passaram por muita volatilidade nos últimos meses. No entanto, quem tinha algum percentual investido em ouro pode ter visto que os estragos foram menores.

O OZ1D, contrato padrão de ouro em real, acumula alta de mais de 50% desde o início do ano. Vale lembrar que os contratos do ouro em real apresentam a variação da commodity e a variação do câmbio também. Por causa da profunda desvalorização do real no ano, os investimentos em ouro cotados em dólar estão com desempenho diferente no Brasil.

No mercado internacional, o contrato de ouro futuro, o que é usado como referência para o preço do metal, está próximo da cotação máxima histórica. A última vez em que o título alcançou a casa dos US$ 1.800 foi em 2011, época em que o ouro sofreu uma rápida valorização. Em 2020, o ouro no mercado externo acumula alta de 26%.

Não entendo bem como funciona. Pode explicar melhor? Antes de qualquer coisa, é importante entender as razões para essa corrida pelo ouro. Esse investimento costuma ser buscado em momentos de tensão econômica: ciclos recessivos, guerras, conflitos políticos ou pandemias. “Na história do mundo, o ouro é tratado como um ativo que reserva valor e liquidez. Em contextos negativos, os investidores correm para o ouro, porque ele é considerado seguro”, afirma George Wachsmann, sócio-fundador da gestora Vitreo.

Contexto negativo pode até ser considerado um eufemismo para a crise atual. Para se ter ideia do tamanho do estrago do coronavírus, em meados de abril até mesmo a cotação do ouro caiu. “A aversão ao risco estava tão alta, que os investidores saíram vendendo tudo, inclusive o ouro. Só Treasuries (títulos da dívida pública dos EUA) foram considerados território seguro”, conta Wachsmann.

E o que aconteceu com o ouro desde então? Como explicamos, o ouro costuma avançar quando os fundamentos estão negativos. “O ouro tem essa particularidade: ele tem baixa correlação, ou correlação negativa com a maior parte dos outros investimentos”, diz Wachsmann, da Vitreo. Em outras palavras: quando tudo vai mal, o ouro vai bem.

Então o que aconteceu com a cotação dessa commodity quando os índices de ações voltaram a se recuperar? Lembrando que desde o mês passado, as bolsas americanas e até o Ibovespa recuperaram boa parte do que foi perdido durante o início da pandemia. Nessa lógica, o ouro deveria ter desacelerado, certo?

Não foi bem assim. As cotações do metal até caíram um pouco no início de junho, mas diante do risco de uma segunda onda de contágio de coronavírus nos países que estão relaxando a quarentena, o ouro voltou a se valorizar com força.

Então eu só devo apostar no ouro quando as coisas estiverem ruins? Não necessariamente. Wachsmann, da Vitreo, diz que o ouro funciona como um seguro na carteira do investidor. “Você deve ter, assim como o seguro de um carro, mas aí você torce para não precisar dele”, diz. Ele afirma que a subida do ouro fez as pessoas olharem o ativo como um investimento de risco, que pode render ganhos de curto prazo, quando na verdade essa é uma aplicação de segurança.

Ele diz que a alocação de recursos em produtos relacionados ao ouro deve ser pequena, e funcionar mais como uma proteção: algo como 5% a 10% do patrimônio.

Como investir em ouro? O ouro tem uma peculiaridade: ele é um produto que pode ser físico (ouro em gramas, ou em barras) ou lastreado. Claro que sempre há quem guarde ouro físico em cofres, ou no banco (alô, Silvio Santos!), mas existem outras formas de investir nesse produto.

B3 tem contratos de negociação de ouro à vista e em contratos futuros. Além disso, o contrato pode variar de acordo com a quantidade de ouro. Aqui estão os títulos:

  • OZ1D: é o contrato do lote-padrão de ouro, de 250 gramas, negociado à vista.
  • OZ2: é o contrato fracionário de ouro de 20 gramas.
  • OZ3: é o contrato fracionário de ouro de 0,225 gramas.
  • OZ1: é o contrato futuro de ouro.

O primeiro é o que tem mais liquidez: os outros, apesar de terem valores unitários menores, têm liquidez reduzida. As corretoras costumam cobrar taxas de corretagem para quem quer investir em ouro, e a B3 cobra uma taxa de custódia, de acordo com o volume negociado.

É só isso? Além das opções de contratos na B3, é possível investir em fundos de investimento em ouro.

A própria Vitreo tem um fundo que investe nos “tesouros”: é o Vitreo Ouro FIC FIM. Esse fundo aplica 80% no título OZ1D e 20% em ETFs de ouro no exterior. Wachsmann explica que o fundo não tem nenhum mecanismo de hedge — sendo assim, o rendimento é afetado também pela variação do câmbio. Outros fundos têm mecanismos de proteção contra a desvalorização do real: ou seja, o investidor só colhe o resultado individual do ouro.

O sócio-fundador da Vitreo diz que o fato de o fundo acompanhar também o câmbio significa uma proteção extra: “é como se, em uma única apólice de seguro, a carteira do investidor recebesse duas proteções”. Lembrando que o dólar é o segundo porto seguro do investidor, quando o contexto econômico é ruim — é por isso que os fundos cambiais são considerados um colchão de segurança para o investidor, e nós falamos sobre isso nesta outra matéria.

Como o dólar se valorizou no ano, o fundo da Vitreo teve desempenho melhor que o dos concorrentes. No ano, o Vitreo FIC FIM acumula alta de 45%. Já o BTG Pactual Ouro FIM, por exemplo, registrou valorização de 16%, e o fundo Trend Ouro FIM, administrado pela XP, teve alta de 17%. Os dois fundos têm proteções contra a variação do dólar, e essas proteções jogaram contra no momento em que o real passou a perder valor.

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