Em agosto, o escritório Ável Investimentos, vinculado à corretora XP, virou um dos principais assuntos nas redes sociais, quando publicou uma foto dando um panorama do seu quadro de funcionários. O que chamou atenção é que, além de trazer pouquíssimas mulheres, não havia uma única pessoa negra entre os analistas financeiros.

Mas esse não é um ponto fora da curva no mundo do mercado financeiro. Um estudo da Universidade de Georgetown mostrou que profissionais negros correspondem a apenas 3% da elite do setor. No Brasil, onde a maioria da população é autodeclarada preta ou parda, apesar de não existir uma estimativa oficial, essa disparidade é ainda mais evidente.

Mas a representatividade desse público tem tudo para crescer se depender da nova geração que está entrando no mercado. Um exemplo disso vem de um trio de estudantes de economia, que criou uma rede de apoio para aumentar a presença de negros nesse setor que ainda é dominado por pessoas brancas. Isabella Silva, Jonathan Fernandes e Larissa Rodrigues se conheceram durante um estágio na divisão brasileira de um dos principais bancos do mundo.

Enquanto participavam de um evento que reunia profissionais do mercado financeiro, os estudantes perceberam que eram uns dos poucos negros entre o público presente. Assim surgiu, em 2019, o Financial Black Network (Rede Negra Financeira, em português), com o objetivo de fomentar a formação e a contratação de negros no mundo da economia.

“Era um evento com cerca de 150 pessoas, sendo no máximo 10 pretos. A gente viu aquilo e pensou: por que não fazer um desse só para pretos? Então começamos a montar estratégias para viabilizar isso e aos poucos fomos tirando o projeto do papel”, explica Larissa, especialista em comércio digital.

Nestes dois anos, o movimento já fechou parcerias com grandes instituições, como Nubank, J.P. Morgan, Will Bank e Morgan Stanley, para oferecer vagas de estágios e efetivas. Além disso, durante a pandemia, os idealizadores conseguiram fechar diversos workshops, como o realizado pela gestora Velt Partners, que discutiu o processo de investimentos estrangeiros em empresas brasileiras.

O grupo destaca que a iniciativa não é destinada apenas para posicionar iniciantes, mas tem o foco de criar laços entre profissionais de todos os níveis. Jhonathan lembra que a FBN mantém um banco de currículos com dados de pessoas com certificações oficiais, e refuta: “não é necessário baixar a régua, afinal temos negros capacitados para ocupar todos os cargos”.

No caso das vagas de estágio, que são a porta de entrada para o mercado de trabalho, eles ressaltam que deve haver uma avaliação das empresas sobre os pré-requisitos. “Será que um estagiário precisa mesmo ter experiência? Falar dois idiomas? Ter feito intercâmbio? Em muitos casos, o contratado pode desenvolver todos esses pré-requisitos dentro da instituição”, indaga Jhonathan, analista de risco.

Para o futuro, eles esperam que tudo esteja bem diferente. “Estamos andando devagar, mas eu acredito em um futuro promissor, nem que seja por meio de autorregulação. A bolsa de valores americana Nasdaq, por exemplo, já faz algumas exigências de diversidade no conselho administrativo das companhias listadas, então acredito que essa é tendência, no Brasil e no mundo”, avalia Isabella, analista de renda fixa.

Empresas estão se movimentando

Seja por autocrítica ou buscando a diversidade, o mercado financeiro e outros setores estão mobilizados na criação de políticas que diminuam essas disparidades raciais. Exemplos deste movimento são os processos seletivos e os programas de capacitação profissional focados em negros.

Recentemente, 45 marcas bastantes conhecidas pelos brasileiros se juntaram para formar o MOVER – Movimento pela Equidade Racial, assumindo o compromisso de criar 10 mil cargos de lideranças exclusivos para negros. Em manifesto, as empresas afirmaram que vão destinar R$ 45 milhões ao projeto que tem potencial para impactar cerca de 3 milhões de pessoas negras, de forma direta e indireta.

Já o Magazine Luíza, pelo segundo ano consecutivo, fez um processo seletivo de trainee só para negros. Pagando um salário de R$ 6,8 mil aos recém-formados, a varejista disse que essa é uma importante ferramenta para atingir o projeto de diversidade racial nos cargos de liderança.

Outra ação vem da própria XP Investimentos que anunciou, nesta sexta-feira (19), um programa de formação de assessores em investimentos exclusivo para negros. O programa “Vem Transformar” abre 600 vagas destinadas a capacitar e incluir esse grupo no mercado financeiro. Para isso, a ideia é preparar os alunos para a certificação da Ancord (Associação Nacional de Corretoras e Distribuidoras de Títulos e Valores Mobiliários, Câmbio e Mercadorias), uma das exigências para o profissional se tornar um agente autônomo de investimento (AAI).

No campo do empreendedorismo, a ViaVarejo, controladora dos e-commerces do Extra, Ponto e Casas Bahia, vai incorporar em seus marketplaces a Feira Preta, o principal evento de microempreendedorismo negro do Brasil. “Queremos oferecer nossa experiência em e-commerce para empoderar empreendedores que enfrentam barreiras para vender os seus produtos e a Feira Preta é nosso primeiro grande parceiro”, disse Helisson Lemos, vice-presidente de Marketplace e Inovação da Via.

Da esquerda para a direita: Larissa, Isabella e Jonathan
Crédito: Arquivo Pessoal

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