Imagine várias cidades que, ao longo do tempo, acumularam informações que podem ser muito valiosas umas para as outras. O problema é que elas possuem leis que impedem o compartilhamento desse conhecimento. Não só isso: falam línguas diferentes, incompreensíveis para forasteiros.

Agora, suponha que um decreto é baixado, e que há duas mudanças importantes de regras: todos terão que aprender uma mesma linguagem e precisarão, obrigatoriamente, compartilhar entre si aquelas informações que estavam “trancadas”. Uma revolução, não é mesmo?

Pois é essa a mudança que está em curso no Brasil com o open banking, uma espécie de infraestrutura padronizada pelo Banco Central que permitirá conectar diferentes linguagens de programação de TI (tecnologia da informação) do sistema financeiro de forma simples e rápida.

A partir do próximo dia 15 de julho, essa tubulação ou encanamento _apelidos que fazem alusão ao fato de que essa estrutura permitirá a conexão de informações entre as instituições financeiras _ estará pronta. As “portas” desses tubos para dentro de cada banco serão inauguradas, e isso quer dizer que as instituições passarão a ter obrigação de compartilhar dados dos seus clientes umas com as outras mediante autorização dos seus correntistas.

Sempre começo conversando de open banking explicando que não é um produto, diferentemente do Pix. Você vai lá e faz um Pix. No open banking não é assim”, diz João André Pereira, chefe do Denor (Departamento de Regulação) do Banco Central. “É um fundamento. Vamos ter uma grande tubulação que vai possibilitar essa passagem da informação”.

E por que isso será revolucionário?

A grande mudança do ponto de vista da concorrência é que, assim que essas “estradas” de TI  estiverem funcionando, será possível aos bancos requisitar e enviar dados sobre o histórico de crédito e padrão das transações dos seus clientes (leia mais sobre isso aqui).

Isso porque o novo sistema assume que os clientes são donos das suas informações, e não o banco, o que é previsto na LGPD (Lei Geral de Proteção de Dados), de 2018. Por isso, pode autorizar que os seus dados sejam compartilhados para uma nova instituição financeira.

“Se eu vou do banco A para o banco B, ele não me conhece, não tem informação ao meu respeito. O banco B consegue consultar o birô de crédito [como a Serasa e o SPC], mas não sabe a minha renda, se costuma sobrar ou falta dinheiro, meu padrão de gastos, se sou tomador de crédito de alto risco”, explica Thiago Alvarez, diretor da ABCD (Associação Brasileira de Crédito Digital) e representante da entidade no conselho do open banking criado pelo BC.

Para entender melhor, assista abaixo a entrevista completa concedida pelo executivo da ABCD ao 6 Minutos sobre o tema:

 

Inovação e serviços financeiros de nicho

Outro aspecto considerado revolucionário é o fato de que essa tubulação, que poderá ser acessada por todos os integrantes do sistema financeiro, permitirá a criação de novos serviços por fintechs (startups do setor financeiro).

Uma dessas empresas inovadoras já está desenvolvendo, por exemplo, uma espécie de cofrinho eletrônico. “Quando o cliente vai fazer um pagamento, o aplicativo pergunta se a pessoa quer destinar um pequeno percentual daquele valor para uma poupança, como se fosse um troco que será guardado”, conta Pereira, do BC.

A desburocratização promovida pelo open banking permitirá ainda o desenvolvimento de produtos cada vez mais específicos, desenhados para cada perfil de cliente.

“O que há de mais interessante nesse processo é que vamos ver instituições criando cada vez mais produtos financeiros nichados”, aponta Bruno Samora, head de produtos da Matera. “Essa estrutura vai permitir uma análise mais profunda e personalizada de crédito. O produto bancário deixa de ser somente para a pessoa de classe média, que é o cliente tradicional dos bancos”.

Mais concorrência

É essa abertura que pode trazer maior concorrência ao setor bancário no Brasil, o que especialistas apontam como um dos fatores que podem derrubar os juros elevados no país, já que a avaliação é que hoje ainda há uma assimetria muito grande de informações.

Uma fintech ou um banco que estejam chegando agora tem muito menos informação sobre risco de crédito do que uma grande instituição financeira já consolidada.

Experiências em outros países mostram os efeitos positivos dessa abertura e integração para o consumidor, ainda que as regras sejam distintas. No Reino Unido, por exemplo, houve aumento da concorrência, com benefícios para os clientes.

Os bancos já começam a pensar como comunicação essas mudanças aos clientes, já que o assunto é árido. O Santander até contratou o ex-BBB Gil do Vigor para começar a falar sobre esse tema em um comercial de televisão.

 

 

 

 

 

Quer receber notícias do 6 Minutos direto no seu celular? Estamos no Telegram (t.me/seisminutos) e no WhatsApp (https://6minutos.uol.com.br/whatsapp).