O Copom (Comitê de Política Monetária do Banco Central) fez uma nova elevação da taxa básica de juros, a Selic. Confirmando a sinalização externada pelo próprio BC em seu último comunicado, a taxa subiu de 2,75% ao ano para 3,50% ao ano.

É o segundo aumento da Selic depois de um ciclo de cortes, em que a taxa chegou a apenas 2% ao ano. O ciclo de altas não deve parar por aí. A expectativa do mercado é que o juro básico chegue a 5,5% ao fim do ano.

Para o investidor da renda fixa, navegar em um ciclo de alta de juros exige alguns cuidados. A volatilidade aumenta, sobretudo para os papéis prefixados e atrelados à inflação. Já os títulos pós-fixados, que foram o patinho feio durante o ciclo de baixa, voltam a ficar interessantes. Entenda o cenário e onde vale a pena colocar o seu dinheiro após a nova alta na Selic.

Com a alta, os títulos de renda fixa da prateleira terão as taxas reajustadas? Na verdade, não. A elevação de 75 pontos feita pelo Copom  já estava precificada nos títulos do mercado – até porque o comunicado anterior já havia antecipado que isso ocorreria.

“O investidor olha para a Selic, mas o correto seria olhar o comportamento da curva de juros. A renda fixa olha horizontes mais longos”, explica Arnaldo Curvello, sócio-diretor da Galapagos Wealth Management. “Os títulos prefixados e de inflação já vêm refletindo a expectativa de aumento de taxa de juros. A taxa de juros para 2 anos já está em 7% e a de 5 anos, em 8,30%. Isso já traz para o investidor a possibilidade de taxas mais altas do que ele vê agora na Selic.”

A taxa Selic continua perdendo para a inflação. Quando o juro real voltará a ser positivo? Provavelmente, apenas no quarto trimestre deste ano. As expectativas para o fim deste ano são de 5% para o IPCA e 5,5% para a Selic – mas tudo dependerá de como a inflação irá se comportar ao longo do ano.

“Não vamos ter juro real positivo [Selic acima da inflação] no curto prazo em função do cenário macro do mundo, com excesso de liquidez que os bancos centrais colocam no mercado, além da tendência de não haver aperto fiscal maior para ajudar na recuperação das economias”, diz Rodrigo Beresca, analista da Ativa Investimentos.

Qual o tipo de renda fixa que faz mais sentido agora? Em ciclos de alta de juros (como é o caso agora), os ativos pós-fixados são os mais beneficiados. “Com a taxa Selic mais alta, os rendimentos mensais também crescerão. Se aquele papel paga 100% do CDI, quando o CDI aumentar eu vou receber mais”, explica Sandra Blanco, estrategista-chefe da Órama Investimentos.

Ela frisa que os títulos pós-fixados podem servir tanto para os prazos mais curtos, como a reserva de emergência, como para os mais longos, em que é possível conseguir taxas mais gordas, como 140% ou 145% do CDI – mas não por muito tempo.

“Esta é a oportunidade para o investidor travar uma taxa boa: 140% do CDI serão um retorno de 8,40% quando a Selic estiver em 6%”, ela calcula. “Mas essas remunerações que estão sendo ofertadas hoje vão desaparecer quando a Selic subir. A hora de aproveitá-las é agora.”

Uma vantagem dos títulos pós-fixados é que, ao contrário do que ocorre com os prefixados e de inflação, eles não sofrem marcação a mercado quando os juros sobem. Isso evita o risco de rendimento negativo, especialmente em caso de resgate antes do vencimento.

Os papéis indexados à inflação não valem a pena agora, já que a inflação está subindo? Para Beresca, eles são uma boa pedida para vencimentos mais distantes, como 7 ou 8 anos. “Como a gente não sabe o que vai acontecer com juros e inflação em um prazo tão longo, essa é uma forma de proteger o capital. O que quer que aconteça, o investidor terá o principal corrigido pela inflação e mais um cupom de juros, ou seja, terá sempre um juro real positivo.”

Mas isso vale apenas se o título for carregado até o vencimento. Assim como os papéis prefixados, os de inflação têm volatilidade mais alta, justamente por causa da marcação a mercado, podendo gerar prejuízos.

“A alta dos juros leva à reprecificação de ativos: o mercado está o tempo todo interpretando os passos do BC. Quando a Selic sai diferente do que foi esperado, há mudança nos juros futuros e isso mexe na curva, afetando a rentabilidade dos títulos”, diz Sandra. “Mas, se o investidor entender que, mesmo com a marcação a mercado, não vai perder dinheiro [se não vender], há boas taxas por aí.”

Marília Fontes, especialista em renda fixa da Nord Research, acha que a compra de títulos de inflação não faz sentido neste momento. Ela vislumbra que, diante da atual pressão inflacionária, o mercado irá reprecificar a taxa de juro real para cima e, portanto, a marcação a mercado será inevitável, fazendo esses papéis se desvalorizarem.

“Se eu já sei que esses títulos vão ficar mais baratos depois, por que comprar agora, pagando mais caro?”, indaga. “Para mim, mesmo que você queira se proteger contra a inflação, não faz sentido ter um título desses agora se daqui a pouco poderá comprá-lo mais barato. Neste momento, a melhor opção é o pós-fixado mesmo”, considera.

Onde estão as boas oportunidades na renda fixa? Curvello afirma que o momento é bom para aplicar em CDBs de bancos pequenos e médios, com taxas que podem chegar a 150% do CDI para 2 anos. “Com a Selic a 7%, isso dará um retorno de 10,5%. Não é nada mau ficar aplicado nessa taxa por dois anos”, pondera.

Na Órama, Sandra diz que há CDBs prefixados de 2 anos pagando 9,78% ao ano e de 4 anos pagando 11%. Entre os pós-fixados, há um de um ano com taxa de 141,50% do CDI e outro de 4 anos a 142%.

Ela frisa que, diante de taxas tão próximas, muitos investidores tendem a preferir os produtos de prazo menor, mas isso pode ser um tiro no pé.

“Eles dizem: ‘ah, por que comprar o de 4 anos, se eu tenho o de 1 ano com quase a mesma taxa?’. Ora, muito provavelmente daqui a 4 anos o mercado só pagará 110% e não mais 140% do CDI. Então, o título mais longo é uma maneira de o investidor travar uma taxa que lá na frente não existirá mais”, explica.

Crédito privado pode ser uma boa pedida para ampliar os ganhos? Sim, já que os retornos oferecidos são maiores. Mas, enquanto os títulos do Tesouro Direto têm risco mínimo (você só não recebe se o governo quebrar), emprestar para um banco ou empresa exige uma análise de crédito do emissor da dívida, já que pode haver risco de calote. “Não tem problema, se você entender que o risco-retorno daquela operação é bom”, diz Marília.

Vale lembrar que CDBs, LCIs e LCAs têm a proteção do Fundo Garantidor de Crédito (até R$ 250 mil por CPF e instituição financeira). Já CRIs, CRAs e debêntures não contam com essa garantia – mas podem contar com outros mecanismos de proteção, como garantias reais, por exemplo.

“Eu gosto muito do crédito privado. Quando você pulveriza em diversos papéis, tem um resultado muito bom com baixíssimo risco, porque a exposição individual em cada título é muito pequena”, diz Curvello. “Nossos investidores estão alocados em inflação mais juros de 7% ou 8%. É uma carteira que dá um rendimento muito maior que o de um grande banco ou do Tesouro. Mas você precisa estar bem assessorado para entender em que tipo de operação está entrando.”

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