Com o ano entrando na reta final, quem trabalha registrado para uma empresa já se prepara para receber o 13º salário. O abono natalino costuma ser dividido em dois pagamentos, o primeiro deles feito até o dia 30 de novembro e o segundo, até 20 de dezembro.

Ao mesmo tempo em que esses recursos extras engordam o orçamento, esta é uma época de muitas despesas, com compras de Black Friday e Natal, preparativos para as festas de fim de ano, viagens de férias e, no início do próximo ano, gastos com IPVA, IPTU e material escolar.

Saber se organizar e definir prioridades ajudará você a usar esse mais que bem-vindo reforço de caixa para dar um jeito nas finanças, reforçar a reserva de emergência e investir com sabedoria. Carol Stange, planejadora financeira e colunista do 6 Minutos, dá dicas para você tirar o melhor proveito possível do 13º salário.

Ponto de partida: necessidades e objetivos

Muitos investidores já saem pesquisando quais serão os produtos mais adequados para receber a quantia extra do fim do ano. Mas essa é a última etapa do processo, diz Carol. Antes disso, é preciso entender as próprias finanças e identificar a que objetivos o 13º será destinado.

“Não dá para começar a investir a quantia que for – o 13º salário, um bônus, o pagamento das férias, a sobra de recursos mensais – sem saber quanto você ganha, quanto gasta e para onde vai o dinheiro. É preciso sair do achismo”, diz a planejadora financeira. “Sem esse mapeamento completo, a pessoa corre o risco de investir errado, em produtos que não são adequados para o seu planejamento financeiro.”

Em seguida, ela diz que é necessário “carimbar” o investimento. “O 13º investido vai servir para pagar uma viagem bacana, a troca do carro, complementar a reforma da casa ou a aposentadoria? Esse carimbo facilita a escolha do melhor investimento. Primeiro definimos o objetivo e por último escolhemos o produto que casa com ele”, afirma.

Dívidas

Que atire a primeira pedra quem nunca chegou “pendurado” ao final do ano. Usar o 13º salário para quitar dívidas, ou pelo menos reduzir as pendências, é uma possibilidade. Mas, na opinião da planejadora financeira, isso somente vale a pena se o desconto oferecido para quitá-las for relevante. Ou então quando ter o nome negativado está trazendo dificuldades práticas – impedindo compras e negócios, por exemplo.

“Nesse caso, vale a pena empregar o 13º salário para isso, inclusive fazendo uso dos feirões de negociação de dívidas que acontecem geralmente nessa época, de forma online e com descontos bem interessantes”, aconselha Carol.

Por outro lado, se você não vai perder nenhum bem relevante com a continuidade dessa dívida, nem consegue algum tipo de benefício com a quitação, espere por um momento mais vantajoso no futuro. E use uma parte do 13º para formar uma reserva para a quitação dessa dívida.

“Guarde o dinheiro em uma instituição financeira diferente. Assim, quando aparecer uma oferta interessante, você aproveita e paga a dívida à vista, com desconto. Não pense apenas em reduzir o valor da parcela e manter o prazo”, ensina.

Reserva de emergência

Se você ainda não formou uma reserva de emergência – ou teve que usar parte dela e não conseguiu repor o dinheiro –, aproveite os recursos extras para isso. “Ela tem um papel estratégico para todo tipo de investidor. Mas esse é um investimento que prioriza não a rentabilidade, e sim a segurança e a liquidez”, define Carol.

Ela frisa, porém, que essa reserva deve ser usada apenas em situações emergenciais, e não em outros gastos. “Trocar de carro ou viajar no réveillon não são emergências. Não é pecado usar uma parte do nosso dinheiro para nos servir e satisfazer desejos e necessidades, mas isso deve ser feito fora da reserva de emergência.”

O janeiro vermelho

Os planejadores financeiros costumam dizer que janeiro tem a cor vermelha porque, todo ano, surgem nessa época o IPTU, o IPVA do carro e as despesas com o material escolar dos filhos. “Não são imprevistos, estão todo ano no nosso orçamento. Portanto, é necessário se planejar para elas”, comenta Carol.

Mas se você pretende usar parte do 13º salário para esses gastos, lembre-se de que terá de resgatar o dinheiro em cerca de dois meses. Por isso, não vale a pena aplicar esse dinheiro em novos investimentos: em um prazo tão curto, a rentabilidade será muito pequena e, sobre os ganhos, incidirá a maior alíquota de Imposto de Renda: 22,5%.

Além disso, se precisar movimentar parte do dinheiro antes de decorridos 29 dias da aplicação, você ainda vai pagar IOF. “Para essas situações, uma conta remunerada que pague 100% do CDI, por exemplo, me parece mais que suficiente”, recomenda a planejadora financeira.

Sobrou pouco?

Não desanime se, do valor que tiver caído na sua conta, tiver sobrado muito pouco para investir. Esse “pouco” pode ser o ponto de partida para a criação de novos hábitos e de um 2022 mais saudável do ponto de vista financeiro.

“Existe um mito de que poupar e investir pouco não vale a pena. Mas o despertar da vida de investidor está muito mais relacionado com a disciplina de fazer aportes com periodicidade do que com valores”, explica Carol. “Nesse início, o investidor precisa se acostumar a ‘pagar-se primeiro’, ter o próprio boleto. Se recebeu o 13º salário, ou um bônus, uma comissão, a primeira coisa a ser feita é destinar uma parte desse dinheiro para si mesmo. É um hábito que se torna recorrente e depois você faz sem pensar.”

Investindo bem

A escolha de como e onde investir o 13º salário deve partir do seu perfil de investidor e refletir os seus objetivos financeiros. Tenha atenção ao prazo dentro do qual espera poder contar com o dinheiro: se acha que poderá usá-lo em um ou dois anos, por exemplo, não faz sentido comprar um Tesouro IPCA, que é focado no longo prazo.

“Para uso no curtíssimo prazo, entre 6 meses e 1 ano, talvez a conta remunerada já seja suficiente. Se você vai precisar dos recursos em 3 anos, CDBs, LCIs, LCAs e fundos DI podem atendê-lo. Já para 5 ou 10 anos, considere o Tesouro IPCA. E para complementar renda, pode pensar em fundos imobiliários ou carteiras de ações com foco em dividendos”, enumera a planejadora financeira.

Dentro da vasta gama de opções de investimentos, Carol diz que é preciso começar por etapas. “O primeiro passo é montar uma reserva de emergência na renda fixa. Depois, você parte para outros produtos. É como uma escada: a gente não sai atropelando degraus, porque o risco de tombo é grande. Um degrau por vez.”

Quer receber notícias do 6 Minutos direto no seu celular? Estamos no Telegram (t.me/seisminutos) e no WhatsApp (https://6minutos.uol.com.br/whatsapp).