Essa novela você já conhece: a redução da taxa básica de juros diminui a rentabilidade dos investimentos em renda fixa, e aumenta a busca por aplicações em renda variável, que oferecem um retorno maior. Mas essa busca nem sempre é orientada só pela lucratividade: um número crescente de investidores querem ver seu dinheiro aplicado em algo que faça sentido, algo que impacte positivamente a sociedade.

É de olho nessa tendência que os gestores de patrimônio estão apostando no investimento de impacto social. São produtos que apoiam projetos que conciliam o resultado econômico com as ações em benefício coletivo: empresas que prezam pelo meio ambiente, que realizam iniciativas em saúde e educação, que ajudam a reduzir a desigualdade econômica, e por aí vai.

No Brasil, o movimento é de nicho — são poucos, ainda, os gestores que lançaram produtos específicos para esse público. Uma das iniciativas mais recentes foi a da SulAmérica Asset, que inaugurou um fundo que investe em empresas sustentáveis e que reverte todas as receitas arrecadadas com a taxa de administração para um projeto social, o Instituto Vaga Lume. Aqui nessa outra matéria nós contamos mais sobre esse fundo da SulAmérica, batizado de Total Impacto FIA.

Marcello Mello, vice-presidente de Vida, Previdência e Investimentos da SulAmérica, conversou com o 6 Minutos e contou um pouco sobre os motivos que levaram a gestora a criar esse fundo.

“Queríamos ter um fundo que ajudasse a sociedade de alguma forma, e queríamos levar para o investidor o conceito de sustentabilidade. A primeira discussão foi sobre a estratégia do fundo. A segunda foi sobre qual organização ajudaríamos, e decidimos que seria alguma que atuasse na educação”, conta Mello. Veja abaixo trechos da entrevista:

Por que criar um fundo com essa proposta de apostar em empresas com selo de sustentabilidade? 

Queríamos oferecer aos investidores um fundo que investissem em empresas com viés sustentável, sem que ele tivesse que abrir mão da rentabilidade. A SulAmérica já tem um portfólio bastante completo de produtos, com vários outros fundos — faltava um que aliasse esse conceito social.

O investidor está mais consciente de que ele precisa contribuir mais com a sociedade, e as empresas perceberam que, se seguirem nessa linha, o benefício econômico vem com o tempo. As empresas que estão nos índices de sustentabilidade das bolsas europeias, por exemplo, têm um desempenho superior ao das que não estão nesses índices. Além de devolver parte desses retornos para a sociedade, essas empresas caminham melhor, em longo prazo.

Esse movimento está em linha com a própria migração do investidor para a renda variável?

Sim, e percebemos que essa migração já começou há algum tempo. Aqui na SulAmérica vimos um crescimento significativo no patrimônio dos fundos de multimercado e ações. O SulAmérica Equities (outro fundo de ações da casa) já alcançou mais de R$ 1 bilhão de patrimônio, o nosso fundo de inflação chegou a R$ 2 bilhões sob gestão. Esses produtos mais sofisticados cresceram muito.

O próprio conceito de sustentabilidade pode ser subjetivo. Como resolver isso? Escolhemos critérios objetivos, e temos dois filtros para selecionar as empresas da carteira. A primeira peneira é a da sustentabilidade. Para uma empresa atender a esse primeiro filtro, ela precisa estar em dois destes quatro índices: o Índice de Sustentabilidade Econômica (ISE), o Índice de Governança Corporativa (IGC), o Índice de Carbono Eficiente (ICO2), e o Índice Dow Jones de Sustentabilidade (DJSI).

Chegamos a mais ou menos 40 empresas brasileiras que atendem a dois desses quatro índices. Então, passamos essas 40 empresas pelo filtro de qualidade. Analisamos o desempenho financeiro: olhamos para o retorno sobre capital em relação ao custo, para a margem operacional, e para o endividamento dessas empresas. O resultado final foi de 22 empresas, que agora compõem a carteira do fundo.

A SulAmérica promete reverter as receitas com a taxa de administração do fundo para causas sociais. Esse fundo não gerará nenhum retorno para a gestora?

Quem está abrindo mão do dinheiro somos nós, gestores do produto. O investidor será remunerado pelo desempenho do fundo, pela rentabilidade. Toda a receita líquida, vinda da cobrança da taxa de administração, será repassada mensalmente para o Instituto Vaga Lume, ONG que leva educação através de bibliotecas para comunidades menos favorecidas.

Por que a escolha do Vaga Lume?

Queríamos ter um fundo que ajudasse a sociedade de alguma forma, e queríamos levar para o investidor o conceito de sustentabilidade. A primeira discussão foi sobre a estratégia do fundo. A segunda foi sobre qual organização ajudaríamos, e decidimos que seria alguma que atuasse na educação. Começamos, então, a analisar as organizações focadas nessa área.

O projeto Vaga Lume está presente em 22 cidades da Amazônia — são comunidades que ficam distantes das grandes cidades da região. O grande propósito do Instituto é levar a leitura para crianças que moram nesses locais. Desde 2001, o Vaga Lume já distribuiu mais de 120 mil livros, montou 91 bibliotecas e já alcançou mais de 100 mil crianças.

Outras instituições, além do Vaga Lume, podem ser beneficiadas? 

Até o fundo chegar em R$ 100 milhões de patrimônio (hoje tem R$ 15 milhões), 100% da receita vai para o Vaga Lume. Quando o fundo crescer, podemos analisar outras organizações.

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