Uma caixa com 30 comprimidos de um medicamento genérico para depressão custa cerca de R$ 130. Como o remédio é associado a outros fármacos, como ansiolítico (para acalmar) e hipnótico (para dormir), o gasto só cresce.

A conclusão é simples: manter, cuidar ou recuperar a saúde mental custa caro.

Mesmo para os casos menos graves, que podem ser resolvidos com orientação psicoterápica, o preço é salgado. A sessão custa R$ 210, em média, de acordo com o Conselho Federal de Psicologia. Considerando um atendimento por semana, o acompanhamento sai por R$ 840, enquanto a renda média mensal do brasileiro é de R$ 2.298, mostra o IBGE.

Em outras palavras, o cuidado com a saúde mental acaba restrito à parte da população que tem mais condições financeiras. Ou seja, a minoria. Mas enquanto a renda está baixa, a ansiedade aumenta, as internações psiquiátricas crescem e a depressão já atinge 5% da população, quase 12 milhões de brasileiros.

Quais os efeitos da ausência de saúde mental? Ansiedade, insônia, falta ou excesso de apetite e estresse, por exemplo. Na esfera profissional, a OMS (Organização Mundial de Saúde) e até o FMI (Fundo Monetário Internacional) alertam para o risco de afastamento e perda de produtividade das empresas.

Os transtornos mentais e comportamentais já são a terceira maior causa para o afastamento de trabalhadores de suas funções, segundo dados da Secretaria de Previdência. Essas questões já correspondem a 9% da concessão de auxílio-doença e aposentadoria por invalidez.

Como perceber que preciso de ajuda?  “Quando a ansiedade e o pensamento excessivo ficam contínuos e começam a prejudicar as atividades do dia a dia”, explica Antônio Geraldo da Silva, presidente da Associação Brasileira de Psiquiatria. Exemplos desses prejuízos são ganho de peso em curto intervalo de tempo, insônia repetitiva por excesso de pensamento ou dificuldade contínua para se concentrar em determinada atividade.

Como é o cuidado com a saúde mental no sistema brasileiro? As diretrizes do Ministério da Saúde apoiam a atenção primária, ou saúde básica, que consiste mais na prevenção de doenças do que no tratamento de problemas pontuais e isolados. Na saúde pública, a porta de entrada é o NASF (Núcleo de Apoio à Saúde da Família), uma espécie de consultório com uma equipe com médicos de família, psicólogos e assistentes sociais. A proposta é entender a queixa do paciente e conseguir solucioná-la com terapêuticas medicinais e também mudanças de hábito e de comportamentos, muitos associados a questões familiares e profissionais.

“Um sofrimento psíquico não começa de forma isolada, e sim junto a uma questão familiar, de saúde, profissional ou financeira. É importante que um psicólogo esteja integrado ao atendimento do médico de família”, afirma Paulo Aguiar, do Conselho Federal de Psicologia.

O sistema público também oferece atendimento e acompanhamento de pessoas com sofrimento ou transtorno mental no CAPS, o Centro de Atenção Psicossocial. Em caso de não haver unidades de apoio, o Ministério da Saúde orienta a busca pelos postos de atenção primária no município.

A saúde mental e os planos de saúde: A Amil, uma das maiores seguradoras de planos de saúde do país, está ampliando as clínicas Espaço Saúde, direcionadas para a atenção primária. A proposta, que inclui o cuidado com a saúde mental, conta com médico de família, psicólogo, psiquiatra e assistente social.

Beneficiários de todos os planos podem ser atendidos, e a Amil entendeu que o formato de cuidado integrado é uma ferramenta para reduzir as despesas. Esse tipo de acompanhamento, focado na prevenção, ajuda a reduzir sinistros, emergências e internações.

Como ter mais saúde mental? Tente reduzir a autocobrança e ser mais acolhedor em relação a si mesmo. A atividade física, por mais simples que seja, como uma caminhada, tem poder ativador, aumenta a disposição de todo o corpo e ajudar a desviar a atenção da ansiedade. Pesquisador do Centro de Pesquisa Clínica e Epidemiológica da Faculdade de Medicina da USP, o psiquiatra Marcio Melo argumenta que a saúde mental é favorecida pela regularidade na hora de dormir e de se alimentar. Por outro lado, se o indivíduo dorme cada dia em um horário diferente e não tem um padrão alimentar, o cérebro fica “desorganizado” na hora de enviar os estímulos para o bom funcionamento do organismo e da mente, o que no médio prazo prejudica a saúde mental.

Melo também propõe a exposição diária e por cerca de 30 minutos à luz do sol, entre 6h e 8h30. Não vale usar óculos de sol nem ficar atrás da janela de vidro. Ele explica: “a luz natural entra pelo olho e vai até uma região específica do cérebro, chamada núcleo supraquiasmático, responsável pelo sono e vigília”. Estudos de todo o mundo, como mostra este site em inglês, apontam a existência de relação entre a exposição à luz natural da manhã e a melhora dos quadros de ansiedade e depressão. É a chamada fototerapia.

Quais os pontos positivos da fototerapia? Não tem efeito colateral ou reação adversa e no Brasil há luz em abundância. É um tratamento gratuito e, mesmo nos casos em que antidepressivos precisam ser usados, a combinação da luz com o medicamento é positiva. Por exemplo, para quem vive nos países nórdicos, com reduzida incidência de sol, a solução acaba sendo artificial, como uma caixa de luz vendida na Amazon.

E os pontos negativos? Exige disciplina. Quem sofre de um quadro de depressão ou está muito ansioso tende a ter dificuldade para levantar cedo ou fazer uma atividade mais quieta, como só ver a luz do sol ou caminhar um pouco no horário entre 6 horas e 8h30 da manhã.

Dica de livro para se atentar à saúde mental? Melo sugere “Manual de Mindfulness e Autocompaixão: Um Guia para Construir Forças Internas e Prosperar na Arte de Ser Seu Melhor Amigo”. É um best-seller.

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