Apesar de o Pix ter começado a funcionar em novembro do ano passado, ainda levará um tempo para a maior parte dos consumidores e empresas gastarem menos com tarifas bancárias, como é possível perceber pelos dados dos balanços dos bancos do quarto trimestre.

Duas das maiores instituições financeiras privadas do país, o Bradesco e o Santander, registraram aumento nas suas receitas com serviços de conta corrente, mostrando que o impacto do novo sistema de transferências e pagamentos do Banco Central sobre esses gastos deve ser gradual. No caso do Itaú, esse faturamento teve queda, mas ainda tímida.

Analistas acreditam que, em algum momento, os grandes bancos serão afetados pelo Pix, já que transferências através de TED e DOC, que estão sendo substituídas com rápida velocidade pelo novo sistema, são consideradas uma espécie de joia da coroa dos serviços de manutenção de contas bancárias.

Como ficaram as receitas dos três grandes bancos privados com serviços de conta corrente no quarto trimestre? O Bradesco faturou R$ 2 bilhões nos últimos três meses do ano passado com esses serviços. O valor representou uma alta de 4,6%, na comparação com o mesmo período de 2019, e uma expansão de 5,9% ante o terceiro trimestre de 2020. No caso do Santander, o crescimento foi de, respectivamente, 5,6% e 3,5%.

Em seu balanço de resultados, o Bradesco atribui a alta à maior base de clientes. “A variação positiva observada em todos os períodos comparativos é reflexo da constante evolução da base de clientes no decorrer do ano de 2020, que apresentou crescimento de 2,2 milhões em 12 meses, e do maior volume de negócios”, afirma o banco.

O Itaú registrou queda de 5,1% (em relação ao quarto trimestre de 2019) e de 2,1% (ante o terceiro trimestre do ano passado) nas receitas com conta corrente, e admitiu que já houve impacto do novo sistema nessas tarifas. “É importante mencionar que desde meados de novembro nós passamos a não cobrar mais tarifas avulsas para a realização de TEDs e DOCs”, pontuou o presidente do banco, Candido Brasher, em teleconferência de divulgação dos resultados.

Por que não houve um impacto maior da entrada em vigor do Pix sobre as receitas de conta corrente? Em primeiro lugar, é importante lembrar que o novo sistema do BC, que permite transferências gratuitas a consumidores 24 horas por dia, sete dias por semana, entrou em vigor somente no dia 16 de novembro.

O fato de o sistema ser uma novidade não explica tudo, pois mais de 80% das transferências bancárias já são feitas através de Pix –em dezembro, esse percentual já era alto, de 68%.

A resposta, segundo analistas, tem a ver principalmente com as cestas de tarifas oferecidas pelos bancos, que incluem uma série de serviços, entre eles a realização de TEDs e DOCs. Para especialistas, as transferências, pelo fato de serem caras, costumavam ser um dos principais atrativos desses pacotes, já que muitos dos outros serviços oferecidos podem ser realizados digitalmente de forma gratuita.

“Há uma espécie de inércia para sair do pacote de tarifas, porque essas cestas envolvem outros serviços, como cadastro, talões de cheque. Muita gente deve estar fazendo Pix e pagando os pacotes”, explica Luis Miguel Santacreu, analista de bancos da Austin Rating.

De acordo com o analista do setor financeiro da XP Investimentos, Marcel Campos, esses pacotes representam mais da metade do total da receita dos bancos com conta corrente. “Com o Pix, esses pacotes tendem a perder o valor agregado no futuro”, afirma ele.  “Se TED e DOC perdem a atratividade, já que agora é possível fazer transferências gratuitas através do Pix, porque o cliente vai continuar pagando o mesmo valor?”.

Qual a tendência? O consumidor tende a gastar menos com manutenção de conta corrente? Sim. Com a consolidação do novo sistema, e a digitalização cada vez maior dos diferentes serviços de conta corrente, a tendência é que as receitas sejam impactadas de forma maior, com o consumidor gastando menos com a administração da sua conta. Esse processo, entretanto, levará tempo.

Na avaliação de Santacreu, da Austin, muitas pessoas ainda dependem de serviços presenciais dos bancos pela falta de conhecimento do universo digital. Essa dependência também é bem maior do lado dos clientes pessoas jurídicas, que representam uma parcela importante das receitas com serviços.

Procurado pela reportagem, o Bradesco negou que os clientes já estejam cancelando pacotes de tarifas. “As cestas não estão ligadas somente às franquias de TED/DOC. Contudo, a expectativa é ter algum tipo de concorrência com essas franquias. É importante ressaltar que o Bradesco está sempre em busca de valorizar suas cestas, aperfeiçoando e incluindo novos serviços”, afirmou o banco em nota enviada através de sua assessoria de imprensa.

Itaú Unibanco e Santander preferiram não comentar os dados sobre receita com serviços de conta corrente.

 

 

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