O interesse por diversificar investimentos em um momento de juros baixos, a crise econômica e consequências da pandemia de coronavírus levaram os brasileiros a reduzirem o saldo das aplicações em fundos de previdência em 2021.

No ano, entre depósitos e retiradas, essas aplicações registraram um saldo positivo de somente R$ 6,7 bilhões no acumulado até agosto, quase quatro vezes menos do que que no mesmo período de 2020, segundo dados preliminares da Anbima (Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiros e de Capitais).

Apenas no mês passado, a diferença entre depósitos e resgates ficou negativa em R$ 2,3 bilhões.

De acordo com o presidente da Comissão de Investimentos da FenaPrevi (Federação Nacional de Previdência Privada e Vida), Vinícius Cruz, o volume dos aportes em fundos de previdência está subindo. O que vem reduzindo a captação são os saques, que também estão aumentando com força.

Dados da entidade mostram que no primeiro semestre do ano houve R$ 65,6 bilhões em contribuições nos planos de previdência aberta, um aumento de 26,6% na comparação com o mesmo período de 2020. Por outro lado, os resgates totalizaram R$ 49,2 bilhões, alta de 22,2% em relação ao primeiro semestre do ano passado.

Resgates por causa da pandemia

Uma das principais razões para esse desempenho ruim da previdência privada neste ano é a pandemia de coronavírus. “Os resgates estão em um patamar importante, em parte por causa de transferências de reservas por óbitos relacionados à covid-19”, explica Cruz.

É uma avaliação parecida com a da BrasilPrev, que administra a previdência privada do Banco do Brasil e que responde pela maior parte dos recursos investidos no segmento no país, com 32% de participação de mercado.

“A pandemia trouxe reflexos pontuais ao negócio de previdência privada como um todo”, avaliou em nota a empresa. “Analisando sob o aspecto das finanças das famílias, muitos acabaram utilizando os resgates para se capitalizarem e cobrirem os seus custos”.

Migração para outros investimentos

Outro motivo é a migração para outros investimentos em tempos de juros no piso histórico. De acordo com o representante da FenaPrevi, muitos cotistas passaram a se questionar se não valia mais a pena transferir seus recursos para outras aplicações, como imóveis.

“O mercado imobiliário se aqueceu, e parte dos recursos que estavam em produtos de acumulação, incluindo previdência, acabaram migrando”, explica. Ele lembra ainda que a rentabilidade negativa que uma parcela dos fundos apresentaram levou a resgates ou interrupções nas contribuições.

Cruz aponta que a própria maturidade das carteiras dos fundos também contribui para a menor captação. “Muitos clientes já estão chegando na fase de habilitação dos benefícios. É um movimento natural, em que a indústria já começa a pagar os benefícios”.

O impacto da crise econômica

A crise econômica que o país atravessa também acaba fazendo as pessoas destinarem uma parte menor do orçamento para os fundos de previdência. Além disso, com a redução do auxílio emergencial e o elevado desemprego, parte dos cotistas vêm sendo obrigados a sacar recursos ou interromper as contribuições para cumprir suas necessidades de curto prazo.

“Além da pandemia em si, há dinâmicas que acabam resultando em uma captação menor, como perda de emprego e necessidades de curto prazo”, diz Cruz.

Daqui até o final do ano, a tendência é que essa baixa captação comece a se reverter. Em primeiro lugar, porque tradicionalmente as pessoas costumam aumentar os depósitos e sacar menos no segundo semestre.

“Além disso as pessoas estão se acostumando um pouco mais com a volatilidade. Há uma busca por diversificação, com o mercado deste ano crescendo em crédito privado e soluções multimercados, incluindo investimentos no exterior”, aponta o representante da FenaPrevi.

Saque antecipado e portabilidade

Sacar recursos de forma antecipada dos fundos de previdência é algo que o investidor só deve fazer em último caso.

Pela própria natureza desse tipo de investimento, pensado para durar por décadas, o resgate antes da hora pune o patrimônio do cotista. “Dependendo do tipo de fundo, o investidor pode ter que abrir mão de até 35% do patrimônio ao sacar os recursos”, explica Lucas Taxweiler, especialista em investimentos da gestora digital Magnetis.

Ele lembra que, se achar que a rentabilidade do seu fundo de previdência não está satisfatória, o consumidor tem o direito de fazer a portabilidade dos seus recursos para outro fundo.

Segundo a Susep (Superintendência de Seguros Privados), que regula o setor, o consumidor não pode fazer a portabilidade de um PGBL (Plano Gerador de Benefício Livre) para um VGBL (Vida Gerador de Benefício Livre). Respeitando essa regra, entretanto, pode migrar seus recursos para outra instituição financeira ou para um outro fundo do mesmo gestor.

O caminho é fazer uma solicitação à nova instituição financeira (ou na mesma gestora) e apresentar os documentos que serão solicitados, como extrato e características do plano anterior.

Caso vá trocar de instituição financeira, o cliente deverá permanecer por 60 dias, no mínimo, no antigo plano após a contratação do novo.

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