No papel, a ideia parece boa. O gerente do banco te convence a colocar seu suado dinheirinho em um fundo de renda fixa, um investimento de risco baixíssimo e rendimento lastreado na taxa básica de juros da economia, a Selic.

O que esse profissional não costuma explicar é que a taxa de administração, ou seja, quanto aquele fundo cobra para administrar seu dinheiro, pode corroer boa parte dos ganhos da aplicação, mesmo que esta tenha um bom rendimento.

O quanto seu ganho será “comido” por essa taxa, é claro, vai depender do tamanho dela.

Taxas cobradas por fundos conservadores pode ultrapassar 5% ao ano (Crédito: Shutterstock)

Quais as maiores taxas de administração cobradas por esses fundos? Levantamento feito pelo 6 Minutos com base em dados da Anbima (Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais) mostra que há 48 fundos de renda fixa altamente conservadores cobrando 2% ou mais de taxa.

Desses, 15 cobram 3% ou mais. E cinco deles, acredite, cobram 5% ou mais para administrar os recursos, apesar de a Selic estar hoje em 6% ao ano.

“Hoje em dia, com os juros básicos no menor nível da história, qualquer taxa de administração de 2% já é um absurdo, quanto mais uma taxa de 5%”, avalia o planejador financeiro Alexandre Amorim, da gestora de investimentos Par Mais.

Somados, esses 48 fundos administram um patrimônio de R$ 131,8 bilhões, segundo os últimos dados da Anbima.

A gestão desse tipo de fundo é complexa e justificaria taxas elevadas? O levantamento levou em conta apenas os fundos classificados como soberanos ou simples: os que possuem 100% ou no mínimo 95% dos recursos aplicados em títulos públicos, respectivamente. E que possuem risco quase zero.

“A gestão desses fundos é bastante simples. Não é que nem multimercado, que tem que ficar de olho no que acontece”, avalia Amorim, da Par Mais.

Qual o rendimento desses fundos? Dos 48 fundos que cobram 2% ou mais de taxa de administração, somente três renderam mais do que o CDI, que são títulos emitidos pelos bancos que acompanham a Selic, ao longo de 2019.

No acumulado do ano até junho, o CDI rendeu 3,07%. Os seis fundos que cobram as maiores taxas de administração tiveram rendimento inferior a 1% no mesmo período.

Como foi o desempenho de todos os fundos de renda fixa conservadores no mesmo período, independentemente da taxa de administração? Também não é bom. Quando se avaliam todos os fundos de renda fixa com no mínimo 95% investidos em títulos públicos, 63% deles tiveram rendimento menor do que o do CDI do período.

Como saber o quanto a taxa de administração pode “comer” os rendimentos? Um bom caminho é olhar a lâmina de informações essenciais do fundo de investimentos, que em geral está disponível no banco ou corretora que oferece aquele produto e que é uma espécie de guia para aquela aplicação.

Dentro da lâmina, procure o “exemplo comparativo”, que te dá o rendimento e a despesa com o fundo, após um ano, a cada R$ 1.000 aplicados. No caso de um dos fundos de renda fixa campeão de taxa de administração, o Banrisul Automático Fundo de Investimento Renda Fixa Curto Prazo, a receita informada em 2018 foi de R$ 1,52 e a despesa de R$ 45,14.

Em outras palavras: o rendimento ao longo do ano todo foi de R$ 46,66. Após o pagamento da despesa com taxa de administração, de R$ 45,14, o ganho caiu para R$ 1,52.

Ou seja, mais de 96% do ganho da aplicação foi corroído pela taxa de administração.

Mas por que as taxas continuam tão elevadas, mesmo com a Selic no menor nível da história? Muitos clientes de bancos não acompanham o rendimento dos seus fundos com atenção, e muitas vezes acabam seguindo a orientação de gerentes e depois esquecem daquele investimento.

“Enquanto os clientes não olharem para as taxas, não reclamarem, os bancos não estão nem aí, vão embolsando a taxa”, afirma Vinicius Soares, diretor da gestora de investimentos Monetus.

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