O interesse das pessoas físicas em minicontratos futuros de dólar e de Ibovespa não para de crescer no Brasil, e é diretamente proporcional ao prejuízo que essas negociações vêm acarretando aos seus bolsos. Em 2020, o número de pequenos investidores negociando esses produtos subiu 143%, enquanto a perda com as operações aumentou 258%.

Esse movimento se mantém em 2021. Somente no primeiro trimestre, tanto a quantidade de investidores quanto o rombo financeiro causado pelas compras e vendas desses contratos já supera o registrado no ano inteiro de 2019.

A pedido do 6 Minutos, a CVM (Comissão de Valores Mobiliários) fez um levantamento sobre essas negociações por pessoas físicas, e os números são alarmantes. De 519 mil pequenos investidores que operaram mini dólar ou mini índice no ano passado, 88% perderam dinheiro. Neste primeiro trimestre, de 324,9 mil pessoas físicas, 81,1% ficaram no prejuízo.

DESEMPENHO DAS PESSOAS FÍSICAS COM MINICONTRATOS DE DÓLAR E ÍNDICE Investidores que ganharam Investidores que perderam TotalParticipação dos investidores que perderam no total
201710.85143.25654.10779,9%
201820.81078.57399.38379%
201935.391178.298213.68983,4%
202062.124457.718519.84288%
2021*61.136263.817324.95381,1%
*Até o primeiro trimestre
Fonte: CVM (Comissão de Valores Mobiliários)

Essas operações, que permitem ao pequeno negociar valores muito elevados com um investimento inicial pequeno, já vinham crescendo desde 2017, mas deram um salto no ano passado, quando o rombo com mini contratos negociados por pessoas físicas foi de R$ 2,6 bilhões. Somando-se o prejuízo deste ano, já se acumula uma perda de mais de R$ 3 bilhões em somente 15 meses.

“É impressionante pensar que somente em 2020 as pessoas físicas tiveram R$ 2,6 bilhões de prejuízo”, aponta Fernando Chague, professor de economia da FGV (Fundação Getúlio Vargas). “Essas operações de minicontratos como day trade são um cassino, um jogo de azar”, resume.

PREJUÍZO ACUMULADO DOS PEQUENOS INVESTIDORES COM MINICONTRATOS DE DÓLAR E DE IBOVESPA 
Diferença entre ganhos e perdas, em R$ milhões
2017-R$ 144.516
2018- R$ 286.902
2019- R$ 688.052
2020- R$ 2.469.707
2021*- R$ 753.932
*Até o primeiro trimestre
Fonte: CVM (Comissão de Valores Mobiliários)

Afinal, o que é um minicontrato?

Em primeiro lugar, é importante lembrar o que é uma negociação de contrato no mercado futuro, que abrange commodities agrícolas, metais, moedas e índices de ações, entre outros. Independentemente do produto financeiro em questão, o investidor se compromete com a compra ou venda de uma quantidade pré-determinada daquele ativo, por um preço também pré-determinado, em uma data futura.

Por exemplo: uma importadora acredita que a situação política do país está muito instável e que o dólar estará acima de R$ 5,50 daqui a um mês (hoje está em R$ 5,26). Para se proteger, ela adquire hoje o direito de comprar daqui a quatro semanas um lote de cinco contratos de moeda americana pela cotação atual.

Como cada contrato equivale a US$ 50 mil, e o padrão é negociar cinco contratos de uma vez (o equivalente a US$ 250 mil), há a opção do minicontrato de dólar, que equivale a 20% do contrato original, ou seja, US$ 10 mil, e que pode ser comprado de unidade.

Para adquirir esse direito, é necessário somente pagar uma margem de garantia para a corretora, que costuma ser de R$ 25 para um contrato de US$ 10 mil. “Todo mundo tem R$ 25, R$ 100. O minicontrato abre a possibilidade de negociar valores altos com um investimento inicial baixo”, diz Wilson Neto, analista técnico da Clear Corretora e responsável pelo blog Põe no Bolso.

A estrutura é bem parecida com a dos minicontratos de índices de ações, onde cada ponto do Ibovespa vale 1 ponto. Se o principal índice brasileiro estiver em 100 mil pontos, o seu valor será equivalente a R$ 20 mil. O investidor também pode operar alavancado, com uma margem de garantia parecida com a do mini dólar.

Nos dois casos, não há limites para perdas, apesar de as corretoras costumarem colocar uma trava para o prejuízo.

O perigo da alavancagem

É importante lembrar que essas frações de contratos foram criadas para dar aos grandes investidores ou empresas maior flexibilidade na hora de se proteger da variação na cotação de ações ou moedas.

Entretanto, muitos investidores vêm se aproveitando da elevada volatilidade do mercado, que se acentuou no ano passado por causa da pandemia, para intensificar o day trade com os minicontratos, ou seja, comprar um ativo financeiro para vender no mesmo dia com lucro.

“Esse mercado ficou volátil no ano passado por causa da pandemia e todas as instabilidades políticas. E quanto mais volatilidade, mais oportunidade para day trade”, afirma Neto, da Clear.

E porque esse crescimento tão forte?

Há diversas razões que vêm contribuindo para uma alta muito expressiva dessas operações. Além da pandemia, a taxa de juros está em um patamar baixo no Brasil, o que também leva muita gente a operar ativos de maior risco buscando retorno.

Outro ponto é a quantidade de cursos oferecidos na internet sobre como operar minicontratos. “Há todo um ecossistema que se formou em torno disso”, lembra Chague, da FGV. “São muitos cursos sendo vendidos sobre como operar minicontratos, as corretoras ganham com taxas e tarifas e mesmo a Bolsa ganha. Isso tudo suga o dinheiro das pessoas, que têm a ilusão de que vão ganhar dinheiro”.

 

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