A modalidade de crédito mais cara do Brasil está ainda mais exorbitante. Em um cenário de alta na taxa básica da economia, a Selic, e de aumento nos atrasos nos pagamentos, os juros do cartão de crédito rotativo já bateram 334,9% ao ano no mês passado, o maior valor dos últimos seis anos, segundo dados do Banco Central.

Essa é a média do rotativo, mas as taxas cobradas nas diferentes instituições financeiras de quem deixa de pagar a fatura variam entre 8,4% a impressionantes 855,8% ao ano.

Instituição financeiraTaxa ao mês (em %)Taxa ao ano (em %)
OMNI SA CFI20,7855,85
BCO SOROCRED S.A. - BM20,01792,16
BCO CREFISA S.A.19,49747,34
BCO TRIANGULO S.A.19,35735,27
LECCA CFI S.A.19,19721,69
BCO CETELEM S.A.18,88696,39
PEFISA S.A. - CFI18,48665,31
BCO AGIBANK S.A.18,25647,7
SAX S.A. CFI18629,1
VIA CERTA FINANCIADORA S.A. - CFI16,94553,68
Fonte: Banco Central

O cartão rotativo teve a maior alta, mas o fato é que os juros em geral cobrados pelos bancos vêm crescendo desde dezembro. De uma média de 40,1% em fevereiro, as famílias passaram a pagar uma taxa de 41% ao ano no mês passado. O crédito pessoal não consignado também teve alta nas taxas, de 86,4% para 87,3% ao ano. No caso do cheque especial, onde há um teto para os juros, a taxa se reduziu de 124,9% para 121% ao ano.

“Em 2020, as renegociações de crédito por causa da pandemia ajudaram na redução do risco de crédito e das taxas. Neste ano, a inadimplência ainda está em níveis relativamente baixos, mas começa a haver pressão de atrasos, o endividamento das famílias está aumentando. E os juros básicos estão subindo. Esse cenário faz com que o risco aumente”, explica a economista Isabela Tavares, especialista em crédito da Tendências Consultoria.

Em março, a taxa básica da economia, a Selic, aumentou de 2% para 2,75%, no início de um novo ciclo de aperto monetário –o mercado já aposta em juros de 5,5% no final do ano.

“Os juros vêm subindo por três motivos: o aumento da tributação dos bancos, já que a CSLL [Contribuição Social sobre o Lucro Líquido] do setor subiu no início do ano, a alta da Selic e o fato de que os atrasos entre 15 e 90 dias, que são a pré-inadimplência, estão crescendo”, aponta Luiz Rabi, economista da Serasa Experian.

50% dos consumidores não sabem dos juros no rotativo

Um levantamento da fintech Digio ilustra porque entrar no rotativo muitas vezes acaba sendo quase que natural para parte dos consumidores. Em uma pesquisa feita com seus clientes, a instituição financeira descobriu que metade dos consultados não sabe que o valor que fica sem pagamento é acumulado para a próxima fatura com correção.

“Muita gente, quando recebe a fatura do cartão e vê a frase ‘pagamento mínimo’, acha que não tem obrigação de pagar tudo, e desconhece o tamanho da taxa que vai pagar ao rolar parte do valor para o próximo mês”, alerta Rabi, da Serasa.

Ele afirma que a modalidade é a mais perigosa entre todas as categorias de crédito, superando inclusive o cheque especial. “Dependendo do banco, o cheque especial ainda oferece a possibilidade de ficar nele 10 dias sem juros, além de as taxas serem menores. O rotativo é ainda pior, porque a partir do momento do atraso, já começa cobrar taxa, e bem elevada”, diz. “O melhor conselho é simplesmente não usar”.

Crédito deve acelerar mesmo no segundo semestre

As concessões dos bancos no crédito livre (sem contabilizar financiamento imobiliário) a consumidores tiveram queda em março na comparação com o mesmo período do ano passado, de 4,9%.

De acordo com o chefe do Departamento de Estatísticas do Banco Central, Fernando Rocha, essa queda reflete a base de comparação forte do ano passado, quando a pandemia de coronavírus estimulou maior concessão de financiamentos.

“Em março de 2020 houve uma alta muito expressiva no estoque de crédito por causa do choque inicial da pandemia”, afirmou. Na avaliação de economistas, ainda levará alguns meses para a recuperação acontecer com mais força;

“Neste início de 2021, as modalidades de crédito mais voltadas ao consumo se retraíram. Acreditamos que no segundo trimestre o dinamismo seguirá baixo, com volumes reduzidos, por causa da incerteza da pandemia, esse vai e volta das atividades”, aponta Isabela, da Tendências.

A avaliação é que os financiamentos devem ganhar tração a partir de julho, quando a vacinação se ampliar no país e houver uma abertura mais consistente do comércio. Para a consultoria, o crédito aos consumidores deve finalizar 2021 com uma alta de 5,9%, descontada a inflação do período.

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