Ricardo Yamada é fotógrafo e em 2015 se mudou para o condomínio Ecolife onde mora até hoje na cidade de Bauru, interior do estado de São Paulo. No final do ano passado, Ricardo saiu para correr e pela primeira vez reparou no canteirinho de 2,5m² que fica na área comum, entre as duas torres, com 68 apartamentos cada.

Viu que lá havia alguns temperos — meio secos e murchos, precisando de um pouco mais de cuidado. Resolveu, então, conversar com os vizinhos e saber em que pé estava aquela empreitada. Acabou descobrindo uns dois ou três que haviam decidido plantar, mas já tinham perdido a motivação. Por mais que tentassem cultivar variedades simples, como alguns tipos de pimenta e hortelã, as mudas nunca sobreviviam.

Foi aí que Ricardo resolveu revitalizar o espaço. Começou a seguir influenciadores de jardinagem no Instagram, pegou umas sementes de couve e deu início à horta do condomínio Ecolife.

Os vizinhos se animaram de novo, começaram a doar novas sementes. Ricardo, então,  fez o único investimento necessário: comprou um saquinho de torta de mamona — um tipo de adubo orgânico utilizado como fonte de nitrogênio. Com isso, a pequena plantação passou a crescer bem mais forte.

Mas algo curioso começou a chamar a atenção. Os moradores que cuidavam da horta, de tempos em tempos, viam que a terra estava remexida, com buracos entre as plantas. Não entendiam o que (ou quem) poderia estar causando aquilo. Resolveram, então, verificar as filmagens da câmera de segurança.

A conclusão do mistério? Eram as crianças. Os pequenos estavam à procura de minhocas.

Há também placas com orientações mais detalhadas para quem não tem muita prática ou conhecimento sobre o assunto. Créditos: Ricardo Yamada

Ao invés de um puxão de orelha, as crianças ganharam uma aula de agricultura. Aprenderam que mexer na terra poderia prejudicar o crescimento das plantas e receberam uma tarefa: juntar cascas de ovos e borra de café para servirem como adubo. Dali em diante, passaram a ser os “guardiões da horta”.

Miguel, de 8 anos, filho da fisioterapeuta Carla Tardin Pinheiro, adorava acompanhar o Instagram de uma amiga da mãe que passou a cultivar alimentos orgânicos na varanda para vender e gerar renda na pandemia. Quando descobriu o novo projeto do condomínio, quis logo participar:

“A horta ajudou muito o Miguel a entender para onde direcionar as coisas. Ele viu que o lixo pode ajudar na adubação e fica super animado para separar as cascas de ovo e a borra de café. Ele aprendeu na escola sobre os perigos dos agrotóxicos e, agora, consegue ver na prática o benefício de ter hortaliças e legumes orgânicos, fresquinhos”, diz a mãe.

Hoje, a horta Ecolife está bem mais verde. Qualquer morador já pode colher couve, cebolinha, espinafre e vários outros ingredientes orgânicos por conta própria. As folhas do melão de são caetano já tomaram até a parede e o capim cidreira não para de crescer.

O capim cidreira já cresceu bastante e chama a atenção de quem chega à horta. As folhagens do nigagori, espécie de melão de são caetano, também se destacam e já ocupam quase toda a parede. Créditos: Ricardo Yamada

O próximo passo será a implementação do sistema de compostagem. “Não faz muito sentido gerar custos para o condomínio, queremos fazer algo sustentável também financeiramente. Por enquanto, recolhemos borra de café e cascas de ovos para o adubo. Com a composteira, vamos poder aproveitar outros resíduos orgânicos também”, explica Yamada.

Dicas práticas

Duas grandes questões aparecem quando se pensa em implantar uma horta comunitária de condomínio: o que pode ou não segundo as regras da administração e o que fazer para a plantação vingar. Afinal, ninguém quer perder dinheiro e muito menos ter dor de cabeça com os vizinhos.

Precisa de assembleia? De acordo com Sérgio Meira Neto, diretor de Condomínios do Secovi-SP (sindicato da habitação), é bastante recomendável fazer uma assembleia, sim. Por mais que a sua vontade seja apenas plantar um pé de tomilho no jardim do prédio, qualquer intervenção em áreas comuns merece ser discutida entre os moradores. Assim, além de evitar conflitos, talvez até encontre um ajudante.

“Você não pode falar ‘esse cantinho agora é meu’. A ideia é aprovar em assembleia uma horta comunitária para todos do condomínio”, explica Neto. “Além de produzir alimentos frescos e saudáveis, você também cria uma integração muito interessante entre moradores. Principalmente para as crianças, que ganham uma visão de sustentabilidade”, ele acrescenta.

Neste período de pandemia, a dica é optar por reuniões em formato eletrônico. Utilizando plataformas gratuitas como Zoom, Google Meet e Microsoft Teams, é possível reunir os condôminos para uma conversa sem perigo de contaminação.

Como dividir as tarefas? Criar uma comissão de moradores interessados em contribuir com o projeto é uma boa saída. A partir disso, pode ser decido qual é o melhor local para o plantio, as melhores técnicas e o que será plantado.

Na hora de dividir as tarefas, vai da vontade de cada um. O importante é estabelecer regras claras, pois, às vezes, o bom senso falha. Saiba quem vai regar o que e quando, quem cuidará da adubação, quem ficará de olho no que já pode ser colhido, etc.

Como distribuir a colheita? Mesmo que só algumas pessoas trabalhem, o produto da horta comunitária deve ficar disponível para todos os moradores. A indicação é dividir tudo o que é colhido de forma mais ou menos equânime entre os interessados.

Minhas plantas sempre morrem. O que pode estar errado? De acordo com Mário Fabretti, — especialista em ecologia, técnico agrícola e fundador da Biomario Educação e Consultoria — , os principais erros na hora do plantio são:

  • Falta de sol
  • Excesso ou falta de água
  • Não-espaçamento das plantas
  • Ausência de polinizadores
  • Excesso ou falta de nutrientes no solo

Onde plantar? Para Fabretti o mais importante é a observação. Antes de tudo, perceba a incidência de sol.

Avalie tanto a direção em que o sol bate ao longo do dia, quanto o tempo de exposição que o ambiente recebe. O número de horas necessárias depende de cada tipo de planta. Hortaliças e temperos precisam de, no mínimo, quatro horas de sol, por exemplo.

“Hoje existe a tendência de utilizar os terraços dos prédios, porque são áreas que recebem bastante insolação. Dessa forma, não é preciso ter o trabalho de escolher apenas plantas que se dão bem com mais tempo de sombra”, afirma Fabretti.

O que plantar? Para quem tem zero experiência com plantas, a recomendação é começar por temperos como manjerona, manjericão, alecrim e hortelã. Eles têm as folhas pequenas, podem ser plantados em locais menores e não perdem muita água. Isso facilita os cuidados no dia a dia.

“Você consegue identificar bem fácil quando a quantidade de água está correta. Se regar demais, eles não vão se desenvolver e se regar pouco, vão murchar”, explica Fabretti.

Plantar temperos pode ser também um bom incentivo para diversificar a horta. Como é possível colher apenas algumas folhas e manter o pé, o próximo plantio tende a ser sempre de uma nova variedade.

E os custos? O gasto depende da área de plantio, mas o investimento costuma ser baixo em comparação com o retorno.

Horta vertical construída pela Biomario Educação e Consultoria na Escola de Educação Infantil Amor de Amora, em Porto Alegre – RS. Créditos: Mário Fabretti

Esta estufa vertical de 21m², construída pela Biomario Consultoria em uma escola de Porto Alegre, no Rio Grande do Sul, ficou em torno de R$ 1.000 reais, por exemplo. Isso dá menos de R$ 50 por m².

Já os custos com manutenção podem ser reduzidos a praticamente zero com:

  • plantio a partir de talos e sementes de alimentos consumidos;
  • adubo produzido por compostagem;
  • coleta de água da chuva por meio de cisternas.

Qual é o retorno? É possível ter uma noção do retorno considerando a média de preços de dezembro de 2020 a fevereiro de 2021, disponibilizada pelo governo de São Paulo, com base na agricultura familiar.

Se um morador do condomínio Ecolife, de Bauru, por exemplo, consumir um maço de espinafre (R$ 5,43), couve (R$ 3,87), manjericão (R$ 3,00), cebolinha (R$ 3,01) e hortelã (R$ 4,13), por mês, deixará de gastar quase R$ 20 no supermercado. Em um ano, a economia será de R$ 233,28.

Ainda assim, o que vale mais a pena, segundo os entrevistados, são os ganhos intangíveis: “as famílias nos prédios, hoje em dia, mal se dão bom dia e boa noite. A horta é uma oportunidade de passar a conhecer os vizinhos pelo nome e produzir algo em conjunto. Gera uma integração humana muito benéfica para o condomínio”, diz Sérgio Meira Neto.

Quer tirar suas dúvidas sobre o Imposto de Renda de 2021? Mande sua pergunta por e-mail (faleconosco@6minutos.com.br), Telegram (t.me/seisminutos) ou WhatsApp (https://6minutos.uol.com.br/whatsapp).