Mesmo que os principais bancos e gestores de fundos de investimento em renda fixa conservadores abrissem mão das suas taxas de administração, os cotistas ainda perderiam dinheiro, quando se considera a inflação, ao investir nessas aplicações.

Isso acontece por causa da decisão do Banco Central de reduzir a taxa básica de juros do Brasil para 2,25% ao ano, em uma tentativa de estimular a economia em meio à pandemia de coronavírus.

Como a inflação projetada para os próximos 12 meses pelo mercado é de 3,21%, ou seja, bem acima da rentabilidade dos títulos públicos, temos, pela primeira vez na história, uma taxa de juros real negativa (ou seja, quando se desconta a inflação do período).

“Para um horizonte de investimento de um ano, não tem o que fazer”, afirma Marcelo Romero, diretor da gestora digital Magnetis. “Mesmo se a taxa de administração do fundo de renda fixa fosse zero, o investidor perde dinheiro em termos reais”.

De acordo com o especialista, isso muda um pouco em um horizonte de tempo maior, já que a expectativa é de que os juros subam no ano que vem (os analistas de mercado ouvidos pelo boletim Focus, do BC, apostam em uma taxa Selic de 3% no final de 2021).

Não que nesse caso o retorno seja muito melhor. “Para dois anos, uma taxa de administração de 0,65% só garantiria ao investidor um retorno real zerado”, explica. Ou seja, nesse cenário, o investidor não perderia dinheiro para a inflação, mas tampouco teria rentabilidade.

Taxas elevadas

Esse cenário de taxa de administração zerada ou mesmo pouco acima de 0,5%, entretanto, é totalmente fictício para boa parte dos fundos de investimento em renda fixa.

Dados da Anbima (Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais) mostram que, em março deste ano, últimos dados disponíveis, a taxa média cobrada pelos fundos de renda fixa era de 1,37%, para os casos de aplicações iniciais abaixo de R$ 1.000.

Para investimentos entre R$ 1.000 e R$ 25.000, o valor médio era de 1,04%, e apenas para quem aplica acima de R$ 100.000 a taxa era menor, de 0,48%.

Tomando-se apenas os fundos que investem 95% ou mais dos seus patrimônios em títulos públicos, ou seja, aplicações altamente conservadoras, 79 fundos (cujo patrimônio é equivalente a 23% dos recursos totais aplicados nesses investimentos) possuem taxas de 1% ou mais.

O cenário anda complicado também para outras aplicações de renda fixa campeãs na preferência dos brasileiros: poupança, Tesouro Selic e LCI (Letra de Crédito Imobiliário) são outros exemplos de investimentos cuja rentabilidade ficará bem abaixo da inflação projetada para 12 meses.

A poupança, por exemplo, que remunera o investidor em 70% do CDI (Certificado de Depósito Interbancário, que segue a Selic), já apresentava rentabilidade negativa quando se considera a inflação.

Esse movimento se acentuou com o novo corte: 70% do CDI seria um retorno de cerca de 1,5% ao ano, e a inflação projetada para os próximos 12 meses pelo mercado é de mais de 3%.

O que fazer?

O último corte de juros pelo BC apenas deu tintas mais fortes a uma situação que já vinha sendo evidenciada ao longo dos últimos anos.

É uma realidade com a qual investidores de outros países convivem há muito tempo: é muito difícil ter, na mesma aplicação, alta rentabilidade, liquidez e risco baixo, como ocorreu por muito tempo no Brasil com a aplicação em títulos públicos.

Para ter maior retorno, será preciso correr riscos.

“É preciso tomar algum tipo de risco adicional. Seja risco de crédito, através da renda fixa de títulos privados de dívida, ou risco de mercado, como ações”, pondera Romero.

Veja abaixo algumas opções dentro da renda fixa, que envolvem a disposição do investidor de tomar mais risco, mas que ao mesmo tempo podem garantir uma rentabilidade melhor:

São fundos de investimento que aplicam uma parte dos recursos dos cotistas em títulos de dívidas emitidos por empresas, como debêntures, CRI (Certificado de Recebíveis Imobiliários, que financia transações no mercado imobiliário) e CRA (Certificado de Recebíveis do Agronegócio, que faz o mesmo em agronegócios).

Da mesma forma que o governo remunera aplicadores que compram títulos de sua dívida, o setor privado também capta recursos no mercado como uma forma de se financiar e investir em projetos.

É importante lembrar que há diferentes tipos de risco de dívida de empresas, e portanto diferentes remunerações. Comprar um título de dívida emitido pela Petrobras ou Vale, por exemplo, é muito menos arriscado do que adquirir um papel de empresas com menor solidez no mercado. Como o risco é mais baixo, a remuneração também é menor.

  • CDBs de bancos de médio porte

O CDB (Certificado de Depósito Bancário) é um título de renda fixa emitido pelos bancos, que os emitem para se financiar no mercado. Os CDBs de bancos de maior porte costumam oferecer um retorno menor do que o da taxa básica de juros.

Uma opção, entretanto, é buscar um CDB de bancos médios, que pagam mais para atrair investidores pois precisam captar dinheiro no mercado. Ao mesmo tempo, esses produtos também costumam ser de prazo mais longo para resgate.

Apesar de serem um pouco mais arriscados, o FGC (Fundo Garantidor de Crédito) garante investimentos em até R$ 250 mil em depósitos ou créditos do investidor. Em geral, o pagamento é feito após entre 30 e 45 dias em caso de falência, intervenção ou liquidação.

Uma boa forma de saber se o banco é sólido é checar o seu índice de Basileia, que é o indicador que mede a solvência de determinada instituição financeira. Esse índice expressa a relação entre os capitais próprios e os capitais de terceiros dessa instituição.

Quanto maior esse percentual, mais sólido é o banco. No Brasil, esse índice deve ser de no mínimo 11,5%, para os grandes bancos, e de 10,5%, para os bancos pequenos e médios.

Plataformas como o Yubb, de comparação de retornos de investimentos, fornecem essa informação ao consumidor.

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