A cortiça de fumaça dos juros altos se dissipou, revelando uma realidade com a qual investidores de outros países convivem há muito tempo: é muito difícil ter, na mesma aplicação, alta rentabilidade, liquidez e risco baixo, como ocorreu por muito tempo no Brasil com a aplicação em títulos públicos.

O 6 Minutos conversou com o vice-presidente da Anbima (Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais) Carlos André sobre esse cenário e destacou três ideias fundamentais:

  • A era da alta rentabilidade, do risco baixo e da liquidez em um só investimento acabou no Brasil. Para ter maior retorno, será preciso correr riscos.
  • Se o cenário de juros baixos perdurar, a participação das ações no total de investimentos subirá para 30% em 2030 (hoje é de 19%).
  • A indústria de fundos se comunica mal com o investidor, que não entende como funcionam as aplicações. Esse é um grande desafio da Anbima.

Carlos André, vice-presidente da Anbima

Veja a seguir a entrevista completa:

Como levar o brasileiro a deixar a poupança e a renda fixa e passar a investir em renda variável e em produtos mais complexos?

A indústria de fundos está capacitada e habilitada para fazer a transição da renda fixa tradicional e da poupança para um universo de maior diversificação. Mas temos o desafio de nos conectarmos e comunicarmos melhor para o público em geral. O público acha que fundo de investimento só é acessível para quem tem mais dinheiro. E não entende como os fundos funcionam. Fizemos uma pesquisa qualitativa sobre fundos com a pergunta: “você tem fundo de investimento?” Algumas pessoas respondiam: tenho sim, poupança e ações. Ou seja, achavam que fundo de investimento é um conjunto de aplicações.

Vocês falam em uma tendência de aumento do mercado de produtos de médio e longo prazo no Brasil. Isso não esbarra no aspecto cultural do brasileiro, de querer acesso ao seu investimento quando quiser?

Temos uma história de um longo período de inflação alta e taxas de juros muito elevadas em que, principalmente por meio de títulos públicos, o investidor teve acesso a produtos com rentabilidade satisfatória, baixo risco e liquidez alta. É um tripé que normalmente não é oferecido ao mesmo tempo. Ou você tem rentabilidade baixa para ter liquidez e baixo risco, ou abre mão de um pouco de liquidez para conseguir rentabilidade maior, ou você tem que correr um pouco mais de risco. Dispor das três características ao mesmo tempo não faz muito sentido no mundo dos investimentos. Os juros muito altos funcionam como uma cortina de fumaça, mas, quando ela se dissipa, essa questão fica em evidência. O investidor, com acesso a mais educação, informação e transparência, vai perceber isso. O que ele quer? Só vai usar esses recursos para uma viagem ou para pagar a faculdade do filho daqui a cinco anos? A partir daí, ele vai perceber que terá que fazer uma melhor combinação desse tripé para atingir seu objetivo.

A indústria tem que se adaptar a esse cenário, oferecendo produtos mais diversificados?

Esses produtos já existem. O que na verdade é importante é a capacidade do investidor para perceber isso. É por essa razão que os participantes do mercado, principalmente os que estão prestando um serviço de aconselhamento, têm um papel muito importante. O que constatamos é que, apesar da ascensão do mundo digital, na hora de tomar decisões de investimentos, as pessoas ainda se sentem mais confortáveis e mais seguras quando existe alguém assessorando. Claro que, depois disso, o cliente quer ter a facilidade digital, para poder acessar, resgatar e acompanhar seu investimento com praticidade.

Como melhorar a comunicação?

Estudamos como profissionalizar ainda mais os agentes, para que haja um número maior de pessoas gabaritadas para atuar no mercado. Também olhamos a regulação, para estimular os profissionais a prestar um trabalho adequado, com transparência, sem conflito de interesses.

 

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