De 238 fundos de investimento em renda fixa de liquidez diária, 233 apresentaram rentabilidade para cobrir somente um terço da inflação acumulada deste ano, de 1,1%. Em outras palavras, 97% dessas aplicações entregou retorno de no máximo 0,33% em janeiro e fevereiro.

É o que mostram dados da Anbima (Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais) sobre os chamados fundos soberanos de baixa duração, que aplicam na taxa básica de juros e que permitem retirada dos recursos a qualquer momento.

Esse tipo de fundo altamente conservador é o mais representativo da renda fixa, respondendo por 23% do patrimônio da categoria. Sua rentabilidade está caindo por causa do cenário atual, de IPCA (Índice de Preços ao Consumidor Amplo) em alta e a taxa Selic em um patamar baixo.

“No cenário atual, a inflação é consideravelmente maior do que a taxa básica de juros. Então, por definição, o investidor que estiver alocado somente em renda fixa vai perder para a variação de preços”, afirma o especialista em investimentos Lucas Taxweiler, da plataforma Magnetis.

Apesar de o Banco Central ter elevado os juros para 2,75% ao ano na última reunião do Copom (Comitê de Política Monetária), e a perspectiva ser de continuidade do aumento da taxa básica, os investidores devem continuar esperando um retorno muito mais modesto do que no passado.

Esse é um movimento que surpreende em especial no Brasil, país onde a taxa básica estava acima de 14% há somente cinco anos, mas que vem ocorrendo no mundo todo. Recentemente, dois dos maiores fundos soberanos do mundo avisaram aos investidores que devem esperar rentabilidades muito menores daqui para frente por causa do cenário de juros em queda.

Opções dependem do perfil de cada investidor

As alternativas na mesa para diversificação dependem do perfil do investidor. Nessa hora, o mais importante é lembrar que hoje em dia é muito difícil ter, na mesma aplicação, alta rentabilidade, liquidez e risco baixo, como ocorreu por muito tempo no Brasil com títulos públicos.

Para aqueles que não abrem mão de risco zero, uma opção é aplicar em CDBs (Certificados de Depósito Bancário, em que o investidor empresta recursos para o banco por uma taxa) de liquidez diária. Alguns bancos, como C6 Bank e BTG, já oferecem essas aplicações com rentabilidade de mais de 100% do CDI (Certificado de Depósito Interbancário, que é a taxa que acompanha os juros básicos).

Essas são aplicações com garantia do FGC (Fundo Garantidor de Crédito). “Se o investidor não abre mão de ser conservador, e tem objetivos de curto prazo, pode ser interessante investir nos CDBs de liquidez diária. Alguns entregam 100% ou mais do CDI, um retorno melhor do que muitos fundos de renda fixa, que estão entregando 70%, 90% do CDI”, aponta Vinicius Soares, diretor de produtos da plataforma Monetus.

Ainda para quem quer permanecer na renda fixa mas topa aumentar um pouco o risco, os fundos de crédito privado, que investem em dívidas corporativas, também podem ser uma opção de maior rentabilidade –lembrando que são aplicações em que o risco e o retorno variam muito, dependendo do tipo de empresa.

Por fim, especialistas recomendam que, de qualquer forma, mesmo quem é conservador não precisa bater o pé para possuir 100% do patrimônio em renda fixa. Para Taxweiler, nesse caso é importante lembrar a máxima de que a grande diferença entre o remédio e o veneno é a dose.

“É possível colocar 2%, 3% do portfólio em fundos multimercado, ações ou investimentos no exterior. Só essa pequena diversificação já permite um retorno melhor da carteira. Mas é importante encontrar um profissional que faça isso por você”, aconselha.

Fundos “raspa conta”

Apesar da rentabilidade baixíssima, esses fundos de renda fixa de liquidez diária registraram alta de 47% no patrimônio no mês retrasado na comparação com fevereiro de 2020. Ou seja, a despeito do clima de mais estímulos à diversificação de recursos, as turbulências que a economia brasileira enfrenta vêm fazendo muitos investidores ainda darem preferência aos fundos hiperconservadores na hora de aplicar.

É importante lembrar que uma parcela significativa do patrimônio desses fundos –36%, segundo os dados de fevereiro da Anbima– são do tipo automático ou “raspa conta”, em que o banco investe o saldo do cliente mediante autorização prévia.

Para quem não vai usar o saldo no curto prazo, ou possui quantias maiores em conta, é fortemente aconselhado buscar outras opções.

“São fundos em que o cliente precisa tomar cuidado, porque vão investir o saldo em fundos DI e cobrarão taxas de administração por isso. Em um cenário de juros baixos e inflação alta, fica complicado ter algum retorno”, afirma Taxweiler.

“Esses fundos nunca valem a pena. É uma forma de o banco capitalizar em cima do seu dinheiro, cobrando taxas de administração altas. Após pagamento de IOF [Imposto sobre Operações Financeiras] e Imposto de Renda, o retorno é perto de zero”, reforça Soares.

 

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