Quase 80% dos recursos alocados na previdência privada aberta no Brasil estão em fundos de renda fixa. Parece muito? Pois saiba que esse percentual vem diminuindo ao longo dos anos, na esteira da modernização de regras dessas aplicações e do movimento de busca por mais diversificação por causa da queda da taxa de juros no Brasil.

Dados da Anbima (Associação Brasileira de Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais) ajudam a ilustrar as mudanças pelas quais o setor vem passando. Os 85,6% de aplicações em renda fixa em outubro de 2020 se reduziram a 78,1% em outubro deste ano, enquanto os 11,5% dos recursos em multimercados (que investem em renda fixa e variável) saltaram para 18,1% no mês passado.

Não é só uma questão de volume de patrimônio, mas também da quantidade de novos produtos que vêm sendo criados. Em 2020, havia 1.543 fundos de previdência multimercado no país, número que saltou para 2.088 no mês passado. No caso de fundos dedicados a ações, o aumento foi de 141 para 246.

“Existe uma onda muito grande de gestoras criando produtos novos com exposição a ativos internacionais. Estão sendo criados também fundos de previdência quantitativos, em que parte da gestão é feita através de cálculos automatizados”, aponta Eduardo Massin, especialista em previdência complementar da Messen Investimentos. “O mercado está se abrindo”.

Esse movimento se intensificou nos últimos anos por causa das mudanças que vêm sendo feitas na legislação desses fundos pela Susep (Superintendência de Seguros Privados). Há até poucos anos, não era possível a criação de fundos de previdência 100% dedicados à renda variável, ou com exposição a ativos internacionais, por exemplo.

“Havia uma limitação das estratégias que podiam ser seguidas pelos gestores, mas as regras vêm sendo flexibilizadas”, avalia Massin. “Outro ponto importante é a busca dos investidores em geral, não só quando pensam em previdência, pela diversificação de recursos. Isso tem a ver com a queda da taxa básica de juros e com a digitalização, está mais fácil buscar informações sobre investimentos”.

Previdência desmistificada

A ideia de possuir somente um fundo de previdência por toda a vida em um grande banco está, aos poucos, ficando para trás.

É comum que os clientes de corretoras sejam apresentados hoje a um mundo em que os recursos destinados a projetos de longuíssimo prazo, como aposentadoria ou universidade dos filhos, possam ser um portfólio que pode se dividir em vários produtos. Como se fossem uma carteira à parte, com balanceamento de riscos e retornos próprio.

“É cada vez mais usual que se monte uma carteira de previdência, e dentro dela é possível ter três, quatro, até cinco fundos diferentes”, aponta Massin. “É possível ter metade dos recursos em um fundo conservador e a outra metade em multimercados de diversos tipos. A previdência está sendo um pouco desmistificada.”

Contribui para esse cenário o fato de que a previdência é um produto para ser exercido somente após muitos anos, o que permite aumentar um pouco o nível de risco do investimento.

“Como o objetivo é o longuíssimo prazo, a diversificação é importante. Você pode perceber que em um longo período de tempo a performance de boas empresas é muito melhor do que a taxa Selic”, explica Rodrigo Sivieri, professor de Mercado Financeiro e Avaliação de Empresas na Trevisan Escola de Negócios. “Mesmo para os investidores mais conservadores, pode ser interessante aplicar uma pequena parte em um fundo de previdência de renda variável.”

E como escolher um bom fundo?

Os principais cuidados na hora de escolher um produto de previdência são: sempre entender o seu perfil de investidor (conservador, moderado ou agressivo) para balanceá-los bem na hora de escolher os seus fundos, e o objetivo, ou seja, em quanto tempo pretende resgatar os recursos.

“Se entrar em um produto mais arriscado, precisa ter a consciência que vai ter oscilação no meio do caminho”, diz o especialista da Messin Investimentos.

Entender muito bem qual é a gestora do fundo e a estratégia do produto também é essencial. “O investidor deve entender a equipe que faz a gestão daquele fundo de previdência, se é uma equipe renomada, se são bons gestores, que tem histórico no mercado. Além disso, olhar com calma as taxas de administração, ver se essa remuneração vale o desempenho entregue pelo fundo”, aconselha Sivieri, da Trevisan.

Portabilidade

Se você já tem um plano mas está insatisfeito, é bom lembrar que os fundos de previdência privada oferecem a possibilidade de trocar de instituição, na chamada portabilidade. Isso permite transferir seus recursos sem custos se você encontrar um plano mais vantajoso ou de maior rentabilidade.

Segundo a Susep, que regula o setor, o consumidor só não pode fazer a portabilidade de um PGBL (Plano Gerador de Benefício Livre) para um VGBL (Vida Gerador de Benefício Livre). Respeitando essa regra, ele pode migrar seus recursos para outra instituição financeira ou para um outro fundo do mesmo gestor.

O caminho é fazer uma solicitação à nova instituição financeira (ou na mesma gestora) e apresentar os documentos que serão solicitados, como extrato e características do plano anterior. Caso vá trocar de instituição financeira, o cliente deverá permanecer por 60 dias, no mínimo, no antigo plano após a contratação do novo.

 

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