As máquinas da Casa da Moeda não param de fabricar dinheiro. Para atender uma demanda muito superior do que o programado para o ano todo, as três linhas de produção de cédulas existentes precisam ser operadas em regime de hora extra para atingir sua capacidade máxima de fabricação, que é de 300 milhões de notas por mês.

Isso inclui finais de semana dos funcionários, e é aí que a empresa, que no início do mês passou a fabricar a nova nota de R$ 200, vem enfrentando outro desafio: o sindicato ligado aos moedeiros, como são chamados os funcionários da Casa da Moeda, exige a manutenção do seu plano de saúde como era para aprovar a manutenção do ritmo de horas a mais de trabalho.

A empresa já anunciou que não concordará com a exigência –segundo a Casa da Moeda, o acordo coletivo atual, que prevê o aumento da contribuição dos trabalhadores ao plano, foi aprovado pela categoria e está vigente até dezembro deste ano.

De acordo com Roni Oliveira, presidente do Sindicato Nacional dos Moedeiros, a categoria aguarda que a Casa da Moeda comunique oficialmente a decisão ao Ministério da Economia, que vinha intermediando as negociações entre os dois lados.

“Os trabalhadores que estão fazendo hora extra trabalham em fábricas com ambientes fechados e muito insalubres. Não tem janela, o ar tem que ser climatizado por causa do papel moeda”, diz Oliveira. “Começaram a aumentar os casos de contaminação dentro da fábrica. Muita gente não vai conseguir pagar o plano de saúde, justamente no momento que mais precisa”.

Entenda a disputa

A Casa da Moeda enfrenta prejuízos há três anos –no ano passado, o rombo foi de R$ 86,8 milhões. Na tentativa de reduzir custos, a empresa reduziu benefícios dos funcionários e aumentou o valor descontado da folha de pagamento pelo plano de saúde.

Os trabalhadores passaram a pagar 50% do valor do plano –até então, esse desconto variava entre 10% e 40%.

“Em maio, aprovamos um acordo de hora extra com prazo final em 31 de agosto”, afirma Oliveira, acrescentando que quando a direção da empresa pediu a prorrogação desse acordo até dezembro, por causa da forte demanda por cédulas no país durante a crise, o sindicato pediu em troca a manutenção dos benefícios.

Em assembleia presencial na semana passada, os trabalhadores rejeitaram a continuidade da realização de horas extras.

“Agora que a empresa comunicou que saiu das discussões, o próximo passo é esperar a notificação oficial do Ministério da Economia, voltar à categoria e apresentar esse resultado, para decidirmos juntos o futuro”, diz o presidente do sindicato.

O que diz a Casa da Moeda

De acordo com a empresa, o acordo coletivo que prevê o aumento da contribuição dos trabalhadores ao plano já foi aprovado pela categoria, e está vigente até dezembro deste ano. O que precisa ser decidido pela categoria é a realização das horas extras.

“A Casa da Moeda já informou ao Ministério da Economia sobre o equívoco do sindicato e a categoria precisa aprovar a hora extra ou não. Isso independentemente do plano de saúde, que já está aprovado com mais de 60% dos votos dos empregados até dezembro”, afirmou a Casa da Moeda através da sua assessoria de imprensa.

Ainda segundo a empresa, o plano de saúde oferecido aos funcionários é um dos melhores do mercado.

“Cerca de 40% das vidas não pagam nada pelo plano de saúde que estende seus dependentes dos empregados que entraram até 2001, não só para cônjuge e filhos como é praxe do mercado mas também pai, mãe e irmão. Nenhum plano de saúde de empresa abrange esse benefício dessa forma”.

Sem a realização de horas extras, a argumenta a Casa da Moeda, a empresa corre sérios riscos. “Assim como aconteceu em todo o mundo, a pandemia gerou muitos problemas e a empresa precisa honrar seus compromissos com os clientes para manter os empregos”.

Pandemia aumentou circulação de dinheiro

A pandemia de coronavírus fez com que quase R$ 100 bilhões a mais em cédulas passassem a circular pelo Brasil, mostram dados do Banco Central.

No início deste mês, havia R$ 352,5 bilhões em cédulas e moedas no país. Lá no dia 13 de março, antes da crise começar a impactar a economia, esse mesmo total era de R$ 256,1 bilhões.

Ou seja, nesse período do avanço da infecção pelo país, R$ 96,4 bilhões a mais passaram a circular no Brasil, trocando de mãos ou, em muitos casos, guardados dentro de casa, “debaixo do colchão”.

A forte demanda por dinheiro em espécie fez com que a quantidade de notas de maior valor no Brasil começasse a não ser mais suficiente.

Se fosse imprimir mais notas de valores menores, como R$ 50 ou R$ 100, os custos com impressão, logística e distribuição das cédulas seria maior, de acordo com o Banco Central. Por isso, a autoridade monetária optou por imprimir e distribuir menos cédulas em um valor maior, e lançou a cédula de R$ 200.

“O Banco Central chegou a considerar a possibilidade de importar cédulas, mas não havia tempo hábil”, disse a diretora de administração do BC, Carolina de Assis Barros, ao explicar as razões para a criação da nova cédula. “O numerário disponível podia não ser suficiente para atender à demanda da população”.

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