A forte perda da bolsa por causa do coronavírus segurou a intensidade da saída de investidores dos fundos mais conservadores no mês passado. Ao mesmo tempo, a entrada em aplicações que envolvem muito mais risco, como ações, se reduziu na comparação com meses anteriores.

Por causa da redução da taxa de juros básica Selic ao menor valor histórico, os investimentos cuja rentabilidade segue a dos títulos públicos, como os fundos de investimentos em renda fixa, vêm perdendo recursos, em um movimento que ganhou força em outubro de 2019.

Em fevereiro, essa tendência perdeu força, mostram dados da Anbima (Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais). Ainda que tenham se mantido com captação negativa no mês passado (ou seja, os resgates superaram as aplicações), a saída dos fundos de renda fixa foi a menor em cinco meses.

Já a entrada de recursos nos fundos de ações, que vinha crescendo mês a mês, se reduziu quase pela metade na comparação com janeiro.

O que motivou esse movimento notado no mês passado? “Em momentos de turbulência, o investidor de primeira viagem pisa no freio”, resume Rafael Panonko, analista-chefe da Toro Investimento. “Ele não necessariamente sai da bolsa, mas não faz novos aportes, esperando que a nuvem negra do coronavírus vá embora”.

Em fevereiro, período ao qual se referem os dados da Anbima, o Ibovespa, principal índice da bolsa, fechou em queda de 8,4%.

Esse movimento deve se manter neste mês? É provável que sim, já que a crise foi aprofundada com o avanço cada vez maior do coronavírus em países fora da China e com a guerra do petróleo, que aumentou ainda mais a volatilidade nos mercados acionários do mundo todo.

“Nos últimos meses houve uma alta muito forte de investimentos em ações e fundos de ações, mas muitos são marinheiros de primeira viagem, que estão menos preparados para lidar com volatilidade”, afirma Vinicius Soares, diretor de produto da gestora de investimentos digitais Monetus. “Isso faz com que se assustem em momentos de perdas significativas”.

Especialistas em investimentos, que recomendam que decisões não sejam tomadas agora, na hora da turbulência, relatam uma profunda preocupação dos seus clientes com o cenário atual. “Um cliente veio me dizer: achei que renda variável era só para cima, não para baixo”, brinca Soares.

O mais provável, entretanto, é que no médio prazo o movimento de forte fuga da renda fixa e a migração para ativos de maior risco seja retomado, já que a taxa Selic está na mínima histórica e pode sofrer mais cortes nas próximas reuniões do Banco Central.

Qual o melhor caminho a seguir agora, com o sobe e desce do mercado? Calma, paciência e sangue frio são os melhores conselhos neste momento. A recomendação unânime entre especialistas é não tomar decisões no calor da emoção.

Caso o investidor não consiga manter a serenidade nesse momento, o ideal é estabelecer um teto para as perdas. Se quiser saber mais sobre esse tema, veja o nosso guia de sobrevivência do investidor.

Você pode me detalhar os números da Anbima? Vamos lá. Os dados mostram que a captação dos fundos de renda fixa, que investem a maior parte do patrimônio em ativos conservadores, ficou negativa em R$ 2,2 bilhões em fevereiro.

É uma saída muito mais tímida do que a registrada em meses anteriores: em janeiro, os resgates superaram as aplicações em R$ 19,4 bilhões. Veja abaixo a série:

MêsCaptação líquida (em R$ bilhões)
Julho (2019)4.893,08
Agosto-7.164,36
Setembro10.552,50
Outubro-6.068,42
Novembro-11.586,58
Dezembro-65.687,37
Janeiro (2020)-19.438,9
Fevereiro-2.254,89

No caso dos fundos de ações, a captação ficou positiva, mas bem menor do que em dezembro e janeiro.

MêsCaptação líquida (em R$ bilhões)
Julho (2019)6.689,37
Agosto8.632,53
Setembro8.941,77
Outubro8.588,97
Novembro11.560,90
Dezembro17.779,73
Janeiro (2020)23.516,80
Fevereiro12.805,91

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