É fato que as mulheres são mais avessas ao risco. Seja em estudos internacionais, seja em pesquisas com brasileiras, um conservadorismo maior aparece como característica irrefutável do público feminino. Mas a partir do momento em que se sentem seguras em suas escolhas, as mulheres tendem a insistir por mais tempo nos ativos que elegem para compor as suas carteiras e a aplicar mais do que os homens.

Dados divulgados pela B3 ajudam a ilustrar esses pontos. Das 350 mil mulheres que ingressaram no mercado no ano passado, somente 10% saíram após seis meses. Entre os homens, esse percentual foi bem maior, de 17%.

Ao mesmo tempo, apesar de representarem somente 30% dos 3,2 milhões de CPFs da Bolsa, elas entram com um valor inicial bem maior: em média, R$ 481, contra R$ 303 dos homens, segundo os dados mais recentes.

Reprodução/ B3

Prova do fato de que as mulheres estão ficando mais à vontade no mundo dos investimentos de risco é que em maio deste ano a Bolsa bateu a marca de 1 milhão de investidoras, 29% do total.

Ainda é pouco, mas um avanço importante em relação ao peso que possuíam há cinco anos, de 24%.

“Essa taxa de retenção mais elevada das mulheres na Bolsa mostra que, uma vez que tomam o risco, tomam com mais informação, mais cientes do risco que estão correndo”, aponta Pietra Guerra, analista da Clear. “Estão mais preparadas para uma eventual volatilidade e mais seguras. Elas ficam mais, são mais resilientes.”

“Mulher não tem medo de perguntar”

Até pelo fato de viverem mais do que os homens e pensarem mais nos filhos, as mulheres tendem a ser mais detalhistas e tiram todas as dúvidas antes de optar por investir em um produto financeiro.

“Pelo fato de ser mãe, a mulher tem um horizonte de longo prazo. É mais detalhista, gosta de conhecer o terreno onde está pisando. Daí vem isso de ser mais cautelosa, mais conservadora”, aponta Sandra Blanco, estrategista chefe da Órama Investimentos e criadora, em 2004, de um dos primeiros clubes de investimento apenas para mulheres no Brasil.

Essa cautela maior foi o achado de um estudo feito no ano passado pela chefe de Economia da Rico Corretora, Rachel de Sá, que comparou a volatilidade de carteiras de clientes de uma grande corretora de mulheres e homens. A conclusão foi que os portfólios femininos foram, em média, 2,23 pontos percentuais menos voláteis do que os masculinos.

A necessidade das mulheres de ter mais certeza na hora de tomar decisões está relacionada com essa opção.

Uma pesquisa global da gestora de ativos Franklin Templeton mostrou que as mulheres se percebem como tendo um conhecimento abaixo da média dos investidores: 41% delas menosprezam seus conhecimentos sobre o tema, em média, comparado a 23% dos homens.

“Isso de precisar ter certeza está muito em linha com estudos que mostram que, em entrevistas de trabalho, as mulheres precisam ter 100% dos pré-requisitos para mandar currículo. Os homens, com 60% dos requisitos, já enviam”, diz Betina Roxo, estrategista chefe da Rico Investimentos. “Mas muitas vezes é difícil ter certeza total em um investimento, e por isso os homens acabam dando o primeiro passo mais rápido. A mulher faz a lição de casa, pede mais ajuda, não tem vergonha de perguntar.”

Rumo à ousadia

A percepção de Sandra, da Órama, é que a partir do momento em que as mulheres passam a conhecer mais do mundo dos investimentos, se tornam tão arrojadas quanto os homens. “Depois que ela se aprofunda, tem mais base pra sustentar suas decisões, e pode ser tão arrojadas quanto eles. Já vi muitas mulheres super arrojadas, que gostam de investir em ações e aprenderam a conhecer o mercado”, diz.

De acordo com ela, a interação social é um fator importante para as mulheres se animarem a investir. “Mulheres que participam de grupos, que têm maior interação social, acabam investindo mais. Elas compartilham mais, conhecem mais, veem que tem pessoas com visão de mundo semelhante e vão expandindo sua experiência, sua bagagem.”

Quer receber notícias do 6 Minutos direto no seu celular? Estamos no Telegram (t.me/seisminutos) e no WhatsApp (https://6minutos.uol.com.br/whatsapp).