A pandemia do coronavírus derrubou as Bolsas pelo mundo. Na sequência, os Bancos Centrais das principais economias globais cortaram os juros, prejudicando os ganhos de quem investia em renda fixa. Enquanto isso, dólar e moedas emergentes encaravam uma desvalorização súbita. Em resumo: uma tempestade perfeita para gestores de fundos, responsáveis pela administração de recursos de milhares de investidores.

Em um cenário improvável, de uma crise com características inéditas, poucos fundos conseguiram apresentar resultados positivos. Pouquíssimos atravessaram a tormenta com ganhos expressivos. Um deles foi o Ibiúna Hedge STH, um dos maiores fundos multimercado do país, que acumula ganhos de 16,36% nos 8 primeiros meses do ano.

O 6 Minutos conversou com Rodrigo Azevedo, sócio da gestora Ibiúna e ex-diretor de Política Monetária do Banco Central durante a presidência de Henrique Meirelles. Para ele, o Brasil vai crescer menos do que os demais emergentes, a criação de um novo imposto é inevitável, o dólar vai continuar caro e ainda há espaço para a valorização das ações. Abaixo, os principais trechos da entrevista.

O pior já passou?
Aparentemente sim. Mas nós economistas temos que ter a humildade de admitir que não entendemos nada dessa crise específica. Uma coisa é a crise cíclica, sobre a qual há um longo histórico. Esta é diferente. A última vez que tivemos uma pandemia foi há 100 anos, o mundo era totalmente diferente. A dinâmica desta crise é dada por um fenômeno não-econômico. Mas com os dados que temos, tudo leva a crer que o pior já passou.

E como se defender em um momento de incerteza?
Existe incerteza, mas não existe mais a surpresa. E isso faz diferença. Em fevereiro, o que testemunhamos foi um evento com baixíssima probabilidade de acontecer. Agora, se houver uma segunda onda, não será mais uma surpresa. Mesmo que você tenha uma segunda onda, o impacto no mundo dos investimentos não será o mesmo. Banco Centrais mundo afora já ofereceram salvaguardas, com grande liquidez e juros perto de zero. Ao mesmo tempo, temos tesouros nacionais assinando cheques em branco para que recursos não faltem. Tudo isso mitigaria uma segunda onda. O impacto seria muito mais moderado. O sistema está mais preparado.

E, como gestor, como você posiciona o seu fundo diante desse cenário?
Primeiro, você decide o tamanho do risco que você quer correr. Neste momento não dá para correr tantos riscos. A convicção nos cenários é muito menor. Os fundos multimercado no mundo estão correndo muito menos risco do que em janeiro ou fevereiro. E aí você diversifica os ativos. Se não acontecer nada, você não ganharia tanto. Por outro lado, se acontecer o pior, você tem uma perda limitada.

É de se esperar retornos mais modestos?
Sim, exatamente pela incerteza. Mas existe a diferenciação. Cada gestor tem um apetite diferente ao risco. Fundos com um horizonte de retorno mais longo, é possível correr mais riscos.

Qual o teto para as Bolsas?
Existe uma incerteza grande nisso também. Algumas métricas apontam que os ativos estão caros. Mas é preciso entender que os juros estão muito baixos. Como nunca passamos por isso, é difícil dizer que já estamos no preço justo. Essa métricas de valoração estão sujeitas a uma enorme incerteza também. Há especialistas muito bons com longos históricos e com opiniões totalmente distintas. Mas podemos trabalhar com cenários. Nós, da Ibiúna, entendemos que o impacto da expansão fiscal e da liquidez impediram que as economias caíssem tanto.

O que vai provavelmente vai acontecer quando houver uma descoberta da vacina ou quando a pandemia perder força? As pessoas vão voltar a consumir. E, provavelmente, os Bancos Centrais não vão querer que haja uma recaída subida. Portanto, vão correr o risco de ter inflação do que cair no abismo. Nesse sentido, devemos ter a retomada da atividade econômica antes da retirada dos estímulos, o que pode jogar os ativos ainda mais para cima.

E como o Brasil se posiciona no cenário global?
Nossa percepção é que o Brasil se beneficia desse cenário global, mas menos do que os nossos pares.

Isso se reflete na cotação do real, por exemplo?
Todo o mundo emergente está sendo percebido com fragilidade, e isso atinge as moedas desses países. E quais emergentes se beneficiam? Aqueles com fundamentos mais sólidos. Países como México, Chile, Rússia e Índia podem se beneficiar mais do que países como Turquia, África do Sul e Brasil, que são grandes emergentes em situação mais delicada.

Olhando para o real, não temos problemas com nosso balanço de pagamentos. Há superávit comercial, as reservas são grandes. A verdade é que a política econômica do Brasil contribui para o país atravessar essa crise com o real muito depreciado.

Enquanto isso, o real está cada vez mais distante do que projeta o Boletim Focus, ou seja, um dólar a R$ 5,25…
Podemos ter dólar a R$ 5,20? Sim, claro. Mas os valores do início do ano, aqueles R$ 4,10 ou R$ 4,20, parecem parte de um passado distante, embora estejamos falando apenas de poucos meses.

O rombo fiscal preocupa no curto prazo? Ou é algo que devemos olhar no médio ou longo prazo?
O Brasil entrou nessa crise 2 ou 3 graus abaixo do nível de investimento. A percepção mundial já era, antes da pandemia, de que o Brasil não é um bom pagador. Quando a crise bate, o Brasil é um dos países que mais expande a sua base monetária. Ou seja: a situação que não era boa ficou mais delicada.

É importante sinalizar para aqueles que vão comprar a sua dívida qual o seu plano para sair dessa situação. E não há plano. Não é por acaso que a curva de juros do Brasil é uma das mais inclinadas. E por quê? Porque as pessoas não estão confiantes com as soluções apresentadas pelo Brasil. O resultado disso é que o Brasil vai sair mais lentamente da crise. E quanto mais lento for esse processo, pior ficará a questão fiscal. É um círculo vicioso que precisa ser rompido. Mas tudo indica que o crescimento do Brasil será menor do que poderia ser.

O problema é a falta de plano?
O plano do Brasil é o plano antes da pandemia. O plano é o teto de gasto, e ele está em xeque. O teto de gasto aprece cada vez menos factível. É só ver o efeito do auxílio emergencial. Político gosta de gastar, rende popularidade. É natural que surjam dúvidas sobre se o plano em vigor é crível ou não.

É inevitável criar novos impostos?
Sim. O Brasil não comporta um ajuste fiscal feito só pelo lado do gasto. Me parece inevitável que haja aumento da carga tributária. Ou isso, ou teremos inflação. E é importante lembrar que a funciona como um imposto indireto. Ou você aumenta a carga tributária, ou você tira das pessoas reduzindo o seu poder de compra.

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