Por que as empresas brasileiras preferem a Nadasq ou Nyse (Bolsa de Nova York) à B3 na hora de abrir capital? Nubank, Hotmart e Ebanx estão entre as brasileiras que devem seguir este caminho, a exemplo de Stone, PagSeguro e Arco Educação, já negociadas em território americano.

Uma resposta para essa pergunta é o temor do impacto das incertezas políticas e econômicas no preço dos ativos listados na bolsa brasileira. Mas não é só isso.

Além das avaliações financeiras mais elevadas e ao acesso a um número maior de investidores estrangeiros, o principal estímulo a este movimento, segundo especialistas, são dispositivos regulatórios que permitem aos sócios originais mantê-las sob seu controle mesmo após vender mais da metade das ações no mercado.

É o controle!

Ao contrário do Brasil, onde, via de regra, cada ação ordinária representa um voto no conselho de acionistas, nos Estados Unidos existem as chamadas super-voting shares – participações que dão a um grupo restrito de investidores o poder de decisão dos rumos dos negócios sem a necessidade de possuir a maior parte do patrimônio.

O CEO e fundador do Facebook, Mark Zuckerberg, por exemplo, detém 58% dos votos da gigante da tecnologia, embora seja dono de 14% das ações, bem menos do que os 28% que mantinha em 2012, quando a companhia abriu capital.

Essa opção é frequentemente utilizada por companhias cujas participações já estão diluídas entre um número grande de sócios originais ou fundos de investimentos que entraram no negócio antes da abertura de capital. É o caso da XP, que contava com a participação de diversos fundos quando decidiu fazer sua listagem. Por isso, optou pela Nasdaq, em detrimento da B3, revela o analista da empresa Vitor Saraiva.

“O caso de empresas com configuração societária muito diluída é a única barreira que eu vejo como intransponível para uma listagem no Brasil e que, de fato, justifica a abertura de capital nos Estados Unidos. A XP já tinha muitas participações de fundos. Se fizéssemos uma oferta no Brasil os sócios ficariam sem o controle da empresa, com menos de 50% do capital”, explica.

Ao listar a companhia na Nasdaq, a XP Inc. manteve 22% do patrimônio da companhia, mas concentrou 53,4% do capital votante sob o controle do fundador, Guilherme Benchimol, e mais seis sócios.

Embora seja possível replicar este modelo no Brasil, as empresas que desejam fazer esse caminho quase sempre recorrem à abertura de capital nos Estados Unidos, onde este tipo de estrutura societária é mais comum, explica o analista da Suno Research Alberto Amparo.  “O que acontece é que como no Brasil não existe essa cultura, existe um temor de que fazer isso possa gerar algum tipo de desconfiança dos investidores e de alguma forma afetar a avaliação da empresa.”

A Bovespa registra perdas expressivas desde junho, quando os riscos associados à crise fiscal e aos ruídos políticos do país reverteram o clima de euforia dos investidores. Naquele mês, a bolsa chegou a ultrapassar a marca dos 130 mil pontos, um recorde histórico. Desde então, houve redução do número de IPOs.

Para Amparo, o momento de baixa liquidez do mercado no Brasil é um estímulo extra para empresas buscarem listagem nos Estados Unidos com o objetivo de atingir avaliações financeiras maiores.

Saraiva lembra, no entanto, que mesmo negociadas no exterior, estas companhias seguem sediadas no Brasil, onde fazem suas operações e obtêm seu faturamento, e, portanto, continuam suscetíveis a todos os riscos inerentes ao país. “Emissores e investidores que buscam listagem lá fora para fugir dos riscos fiscais e outros riscos inerentes ao Brasil podem se frustrar. Continuam sendo empresas brasileiras com receitas que vêm, em maior parte do Brasil”.

Uma das principais características de empresas de tecnologia são os retornos de longo prazo sobre o capital investido. Na avaliação do especialista de mercado da Guide Investimentos Rodrigo Crespi, os investidores estrangeiros estão mais habituados aos multiplus mais elevados e dispostos a manter suas posições por períodos mais longos, ao passo que os brasileiros buscam retornos mais rápidos.

“Ir para o mercado americano é um fluxo bem natural de empresas de tecnologia. O investidor lá é do tipo que consegue deixar um tempo muito mais longo em comparação com o brasileiro, que prefere retornos mais rápidos. Por isso ações como as da Vale, que têm multiplus muito mais baixos, fazem sucesso aqui.”

 

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