As receitas com tarifas dos dois maiores bancos privados do país, Itaú Unibanco e Bradesco, somaram R$ 3,9 bilhões no primeiro trimestre do ano, um resultado 4,9% abaixo do registrado no mesmo período de 2020. Para analistas, essa queda está relacionada com a entrada em operação do Pix, novo sistema gratuito de transferências do Banco Central, que entrou em vigor em novembro do ano passado e à maior concorrência no setor.

Na avaliação de especialistas, esse impacto é apenas a ponta do iceberg de uma deterioração que será muito maior daqui para a frente, ainda mais agora, que o pagamento por Whatsapp também entrou em operação.

A maior queda no faturamento com tarifas foi do Itaú, onde essa receita somou R$ 1,8 bilhões entre janeiro a março, uma redução de 7,5% na comparação com o mesmo período de 2020. Já o Bradesco faturou R$ 1,9 bilhão com o segmento, recuo de 1,8%.

No caso do Santander, os serviços de conta corrente faturaram R$ 959,9 milhões, alta de 1,6% em relação ao ano passado, mas uma queda pronunciada, de 9,2%, ante o quarto trimestre de 2020.

“A entrada em operação do Pix levantou a pergunta: faz sentido pagar uma conta corrente tão cara quanto era antes?”, aponta Marcel Campos, analista de bancos da XP Investimentos.

Cestas de tarifas estão menos atrativas

A avaliação de especialistas é que, além da redução de receita com TEDs e DOCs avulsos, os bancos tendem a perder também com a menor atratividade das cestas de tarifas, onde o consumidor paga um valor mensal por um pacotão de serviços relacionados à conta corrente.

Até a entrada em vigor do Pix, a joia da coroa desses pacotes era um número de TEDs e DOCs gratuitos que podem ser feitos por mês, benefício que faz cada vez menos sentido com o sucesso do novo sistema do BC.

O custo de ter uma cesta não é trivial. Se você tem uma cesta de R$ 40 mensais, por exemplo, acaba gastando R$ 480 por ano ou R$ 2.400 em cinco anos. Se tem uma cesta mais cara, que custa R$ 80 por mês, desembolsa R$ 960 por ano – o montante chega a R$ 4.800 em cinco anos.

O que dizem os bancos

Em seu balanço de resultados, o Itaú Unibanco admitiu que o Pix teve impacto relevante sobre sua receita com conta corrente no primeiro trimestre, já que ofereceu isenção de tarifas para transferências por causa do novo sistema.

Já o Bradesco afirma que o Pix teve pouco impacto sobre seu resultado no segmento, apesar de admitir que a novidade acabará afetando seus resultados em algum momento.

“É lógico que o Pix e agora o Whatsapp vão pegar um pedaço dessa receita”, afirmou o presidente do banco, Octavio de Lazari. “Mas o Pix não foi tão relevante para a queda de receita no primeiro trimestre”. Para o Bradesco, o grosso da redução foi consequência do isolamento social imposto pela segunda onda da pandemia de coronavírus neste início de ano, e as receitas tendem a se recuperar até pelo fato de que o banco vem aumentando sua base de clientes.

“Essa queda na receita com conta corrente é só o começo, estamos nos cinco minutos do primeiro tempo”, avalia Carlos Macedo, especialista em bancos da casa de análises OhmResearch. “Os bancos já estão mostrando sinais de estarem afetados pela digitalização e concorrência maior, e não só nessa linha.”

Receitas com cartões também caíram

As tarifas cobradas pelo uso de conta corrente são a face mais visível de como a digitalização cada vez maior estimula a concorrência e representa um desafio cada vez maior para os bancos.

Outro segmento dos serviços bancários, que é a receita com cartões de crédito e débito, também vem sangrando, em meio à forte concorrência com novos entrantes.

No caso do Itaú, os serviços com cartões de crédito e débito tiveram redução de 4,5%, com destaque para adquirência (taxas das maquininhas de cartão), com recuo de 15,6% no período. O Bradesco registrou redução de 2,25% nas rendas com cartão no mesmo período.

“A adquirência é uma linha que tende a quase zerar nos bancos ao longo do tempo”, avalia Macedo, da Ohm. “Na nossa opinião, essa é uma linha de receita dos bancos que não tem volta. É uma margem muito pressionada pela competição”, reforça Campos, da XP. “Não é só Stone, PagSeguro. Todo mundo está criando algo nessa área. É um mercado onde a disrupção não está por acontecer, já está acontecendo.”

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