As ações da Magazine Luiza levaram uma baita surra em 2021, com desvalorização de 71,04% no ano, o pior desempenho de todo o Ibovespa. E a sangria não para: nos 10 primeiros dias de 2021, elas recuaram mais 18,69%, fechando todas as sessões no vermelho.

É um cenário bem diferente do que a varejista viveu em 2020, o ano em que o brasileiro teve que se confinar em casa e abraçou de vez o comércio eletrônico. Magalu já havia feito o caminho da digitalização muito antes de seus pares, nadou de braçada nesse mar e cravou uma alta de 109%, a quarta maior do índice.

Foi nessa fase que ela despertou o interesse de muitos investidores, que acreditavam que o caminho da empresa na Bolsa só poderia apontar para cima. Agora, esses mesmos investidores estão perplexos e sem saber o que fazer com um papel que não para de apanhar.

Para ajudá-los, o 6 Minutos pediu que os analistas Rodrigo Crespi, da Guide Investimentos, e Victor Bueno, da Nord Research, explicassem o que está acontecendo com a Magalu e o que cada investidor deve levar em conta para decidir se mantém ou não o papel na carteira.

Além de Magazine Luiza, Via e Lojas Americanas também estiveram entre as cinco maiores baixas do Ibovespa em 2021. O que está acontecendo com o e-commerceTodas essas varejistas se deram bem em 2020, quando ocorreu uma verdadeira explosão do e-commerce, favorecida pela quarentena da população, que passou a comprar tudo pela internet, já que o varejo físico estava fechado. Ao longo do ano, a taxa básica de juros (Selic) caiu à mínima histórica, o que, além de estimular o consumo, beneficiou empresas de crescimento, como a própria Magalu – que atingiu seu maior valor no mercado secundário.

Em 2021, porém, o cenário mudou. Com a aceleração da campanha de vacinação, na metade do ano, os hábitos do consumidor refluíram para as compras físicas. “Ao mesmo tempo, a incerteza fiscal começou a abalar o quadro macroeconômico do país. A entrega da reforma tributária iniciou um grande ciclo negativo para a Bolsa e as ações das varejistas desabaram”, lembra Crespi.

O setor de varejo tinha perspectivas positivas para 2021, mas elas dependiam de uma retomada mais efetiva da economia. “A maioria das empresas colocou expectativa em relação a isso. No final de 2020, elas tentaram se preparar para uma reabertura do varejo, a partir da aceleração da vacinação, mas se decepcionaram. Salvo eventos específicos, como a Black Friday, o varejo não voltou com a força que essas empresas estavam esperando”, explica Bueno.

Como o cenário macroeconômico dificultou a vida de Magazine Luiza e seus pares no setor? De um lado, a Selic iniciou um ciclo de alta, saltando de 2% para 9,25% ao ano, com perspectiva de terminar 2022 em 11,50%. Além de encarecer o crédito e sabotar o consumo, a alta dos juros tem um efeito nefasto para empresas de crescimento, como a própria Magazine Luiza.

“Ela não é apenas uma empresa de varejo, mas sim de tecnologia, e grande parte do valor dessas empresas está em seus lucros futuros”, explica Bueno. “A alta dos juros traz um certo pessimismo sobre os resultados e provoca impacto nas premissas dos analistas, que elevam a taxa de desconto do valuation. O valor justo da empresa acaba sofrendo uma correção para baixo.”

Como se não bastasse, pesa sobre as varejistas a alta da inflação, por conta de gargalos na oferta e do dólar caro. “Isso faz essas empresas terem que gastar mais para recompor seus estoques. E elas acabam tendo uma margem menor para repassar esses preços, porque o fluxo de renda dos consumidores está comprometido e, ainda por cima, há a concorrência de players estrangeiros”, afirma Crespi.

Quais foram os fundamentos que colocaram a Magazine Luiza na liderança do setor e fizeram dela um case tão forte? Eles ainda se mantêm? “Enquanto rivais como Via Varejo e Lojas Americanas eram conhecidas, mas ainda tinham operações separadas entre varejo físico e digital, a Magalu já era voltada à tecnologia e focava em omnicanalidade e integração entre os canais. Ela sempre foi vanguardista em termos de tecnologia e inovação e esteve à frente dos pares em termos de 3P [proximidade, personalização e privacidade]”, responde o analista da Guide.

Outra virtude de destaque da companhia é seu ecossistema completo, que oferece produtos, serviços financeiros e uma rede logística completa. “São fundamentos muito superiores aos dos pares, capazes inclusive de fazer frente aos entrantes, e que levaram a um crescimento robusto das operações nos últimos anos, que foi precificado de forma agressiva pelo mercado, tanto é que Magalu é um dos maiores cases da nossa Bolsa”, diz Bueno. “Esses fundamentos se mantêm, assim como a boa perspectiva de continuar entregando crescimento e resultado nos próximos anos.”

Mas então por que a Magazine Luiza caiu tanto, levando o maior tombo da Bolsa em 2021? Além do momento macroeconômico, que é delicado para todo o setor, o tombo tem um componente que é específico da Magalu: ela estava negociando a um preço esticado demais diante de seu valor.

“A expectativa sobre Magalu sempre foi muito mais alta que a dos pares. Ela chegou a ser negociada a mais de 400 vezes o P/L [preço sobre o lucro], o que é um múltiplo muito esticado e, portanto, uma aposta bastante alta. A partir do momento em que ela deixa de entregar e decepciona o mercado, ela tende a sofrer mais volatilidade e ser mais punida que uma empresa que negocia a 10x o P/L”, explica Crespi.

Ainda que a correção brusca tenha sido uma tragédia para quem pagou caro pelo papel, a verdade é que hoje Magalu negocia a um patamar de preço mais justo, algo entre 50 e 60 vezes o seu P/L.

“O preço anterior não justificava os riscos e incertezas do negócio. O mercado percebeu que estava precificando crescimento acima do que Magalu poderia entregar. Hoje, o preço está bem mais adequado aos fundamentos”, analisa Bueno.

O que vai acontecer com o papel? Há vetores de valorização futura que permitam ao investidor ter esperança de que vai recuperar seu prejuízo? O analista da Guide vê perspectiva de valorização para Magalu quando tiver havido melhora no cenário macro, com a questão fiscal melhor desenhada e as expectativas de inflação e de juros no Exterior mais ancoradas.

“Acredito que haverá uma recuperação, mas a Magalu nunca mais será aquela de 2020, com juros na mínima histórica e um fluxo tão grande de renda do consumidor sendo direcionado a ela. Aquele foi cenário atípico que não deve se repetir”, diz.

Já o especialista da Nord Research afirma que é difícil prever o que vai acontecer com o papel no curto prazo, especialmente em se tratando de um ano eleitoral. “É difícil traçar projeções, não sabemos qual será o rumo da economia, se a infla será controlada, o q vai acontecer com o varejo. A alta de juros deve continuar impactando a Magalu, então não acredito em valorização neste ano. Mas é uma empresa com bons fundamentos e, no longo prazo, tende a registrar crescimento e as ações acompanharão isso.”

O que o investidor tem que considerar para avaliar se Magazine Luiza ainda faz sentido dentro da carteira dele? Para Crespi, a principal questão a ser considerada é o horizonte de tempo de investimento de cada investidor. “É uma empresa com foco em tecnologia, portanto um investimento para o longo prazo. Acreditamos em uma recuperação substancial do preço dela, mas no longo prazo”, frisa.

Aos investidores que já têm o papel, ele desaconselha a venda, argumentando que a recuperação do prejuízo seria muito demorada, principalmente na renda fixa. “Considerando um retorno de 10% ou 11% ao ano, não vale a pena fazer essa rotação. E, para quem não tem e-commerce na carteira, eu não entraria no setor por enquanto, esperaria pelo menos até o final do primeiro semestre. Não dá para dizer com exatidão qual será o fundo do poço para o papel, há espaço para mais baixas.”

Já Bueno convida o investidor a examinar qual era o seu objetivo quando comprou o papel. “Se a motivação foi o crescimento futuro que a empresa poderia ter, o que acontece no curto prazo não deveria impactar tanto na decisão [de ficar ou não com o papel]”, afirma. “É importante entender se a empresa tem condição de continuar entregando crescimento, independentemente do cenário. É isso que vai determinar se faz sentido mantê-la na carteira no longo prazo.”

Ele acrescenta que muitos investidores acabaram entrando na ação a um preço que não era razoável o suficiente para compensar os riscos envolvidos. “Eles compraram a R$ 25 e viram a cotação cair a R$ 6. É difícil reagir a quedas tão fortes, mas tudo depende do perfil do investidor. Empresas de crescimento acabam tendo mais volatilidade que a média do mercado, com potenciais maiores tanto de crescimento como de queda. Cada um deve saber se isso se adequa a seu perfil de risco e objetivos financeiros de longo prazo”, ensina.

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