Em apenas duas semanas, mais de R$ 13 bilhões deixaram os fundos de investimento em renda fixa, em um movimento estimulado principalmente pela quase inédita rentabilidade negativa, em setembro, de títulos públicos de longo prazo que seguem a taxa básica de juros (Selic).

Dados da Anbima (Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais) apontam que entre os dias 1º e 14 de outubro a captação desses fundos, em sua maioria conservadores, ficou negativa em R$ 13,8 bilhões.

Na primeira semana deste mês (entre os dias 1º e 9 de outubro), esse rombo foi ainda maior, de R$ 22 bilhões.

É um volume considerável para um curto período de tempo: ao longo dos últimos 12 meses, essas aplicações registraram saída de R$ 87,7 bilhões.

De 16 tipos de fundos de renda fixa classificados pela entidade, sete encerraram o mês passado com retorno negativo, incluindo aqueles que aplicam 100% dos recursos em títulos públicos, o que ajuda a explicar a debandada de investidores.

Primeira queda em 18 anos

Essa saída de recursos de fundos mais conservadores já vinha ocorrendo. Investidores preocupados com a drástica redução na taxa Selic, hoje na mínima histórica de 2% ao ano, já vinham buscando outras opções, diversificando investimentos para garantir uma rentabilidade maior.

Mas o fato de o Tesouro Selic ter encerrado setembro no prejuízo acabou assustando muita gente: a aplicação é indicada como o melhor porto seguro pela maioria dos consultores financeiros.

No mês passado, quando a confusão no governo Bolsonaro em torno da forma de financiamento do Renda Cidadã assustou o mercado, essa aplicação pós-fixada com vencimento em 2025 encerrou o mês em queda de 0,46%, o que não acontecia desde 2002.

Isso aconteceu porque a insegurança em torno do cenário fiscal no Brasil vem fazendo o Tesouro Nacional ter mais dificuldade em rolar a dívida pública.

Além disso, como lembra Lucas Taxweiler, especialista em investimentos da Magnetis, a alta recente da inflação também vem ajudando a corroer a rentabilidade.

“O IPCA [Índice de Preços ao Consumidor Amplo] de setembro foi o maior para o mês desde 2003″, aponta. “Esse cenário por si só tende a estimular a saída de investimentos conservadores. Mas além disso a rentabilidade do Tesouro Selic ficou negativa no mês”, pondera. “Muitos investidores conservadores nem sabiam que isso podia acontecer”.

Prêmio para investir na dívida

Diante do aumento da percepção de risco de deterioração das contas públicas, o Tesouro enfrenta dificuldades crescentes para vender títulos de longo prazo, em meio a um déficit cada vez maior, resultado dos gastos com a pandemia de coronavírus.

O dono do caixa do governo passou a vender títulos com prazo cada vez mais curto, de seis meses a um ano. Nesse cenário, para compensar eventuais riscos, os investidores passaram a pedir um prêmio para investir nos títulos da dívida.

“Houve um aumento no deságio tanto no leilão do Tesouro quanto no mercado secundário, afetando a rentabilidade de alguns produtos de renda fixa atrelados ao CDI”, explica Carlos André, vice-presidente de fundos da Anbima. “Ao constatar o fechamento negativo de setembro, alguns investidores se assustaram”.

Ele ressalta que outras razões podem estar influenciado essa saída de recursos de fundos neste mês. “Existe uma sazonalidade: em princípio de mês, há resgates maiores para pagamentos de contas, por exemplo. E há um movimento de diversificação de investimentos, que já vinha ocorrendo”, pondera.

Tendência é de normalização

André lembra que o investidor deve ter tranquilidade ao tomar a decisão de sair dessas aplicações por uma razão simples: resgatar agora é vender com prejuízo. “Sair agora é cristalizar essa perda”, pondera.

Além disso, a tendência é que esse cenário se normalize. Parte dos analistas lembram que este é um momento em que pode valer a pena adquirir títulos públicos de longo prazo, até pelo fato de estarem baratos.

“A curva de juros ainda pode abrir um pouco, dependendo do que acontecer. Mas esse é um título conservador. Teve um mês ruim, mas é um título estável”, pondera Guilherme Artmann, chefe de renda fixa da corretora Easynvest. “Além disso, a alternativa do investidor conservador é ir para títulos sem liquidez”.

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