O Banco Central divulgou nesta segunda (dia 24) as diretrizes para implementação de uma moeda digital do Brasil, que funcionará como uma extensão do real e deve ser lançada dentro de dois ou três anos. É uma resposta à popularização das criptomoedas, e um objetivo que está sendo perseguido por oito entre 10 bancos centrais do mundo, segundo pesquisa do BIS (Banco de Compensações Internacionais).

No mercado financeiro, essas moedas são conhecidas como CBDCs (central bank digital currencies, que em português significa moedas digitais do banco central).

Esse real virtual futuramente será emitido e garantido pelo próprio BC, portanto terá um risco muito menor do que outras divisas digitais, como o bitcoin, que não possuem lastro. Entre as vantagens, a autoridade monetária cita o menor custo com impressão de dinheiro e maior controle sobre atividades financeiras.

“Seria uma extensão do real físico, uma moeda emitida pelo Banco Central e distribuída e custodiada pelo sistema de pagamentos existente hoje”, explica Fabio Araujo, coordenador do trabalho sobre moeda digital da autoridade monetária.

A ideia é que a moeda possa ser usada no varejo e também em pagamentos ao exterior, e que estimule novas possibilidades para transações financeiras. “Queremos ouvir a sociedade. Com certeza surgirão usos que nem podemos imaginar ainda”, diz Araújo. “Esperamos que isso fomente novas relações no mercado financeiro, relações de serviços mais dinâmicas, que já nasçam integradas ao ambiente digital existente”.

Quais os possíveis novos usos dessa moeda virtual?

De acordo com Araujo, as possibilidades são inúmeras, e estão concentradas em três funcionalidades principais: internet das coisas (produtos inteligentes ligados à rede mundial de computadores), os  smart contracts (contratos digitais auto executáveis) e dinheiro programável (o planejamento de pagamentos futuros por produtos ou serviços).

“Um exemplo: uma geladeira inteligente, que consegue monitorar quais produtos estão em estoque, quais não. Ela poderia fazer compras e o pagamento ser realizado com moeda digital, com certificação pelo sistema de criptografia”, explica ele.

Outra possibilidade seria a facilitação de sistemas de autopagamento em supermercados. “O cliente entraria com um dispositivo no supermercado, se conectaria à rede, pegaria os produtos que precisa, colocaria no carrinho e autorizaria o pagamento no final”, diz ele. “A moeda digital poderia ser usada com facilidade também em pedágios, com pagamento rápido na saída dos estacionamentos”, acrescenta

No caso do dinheiro programável, ele explica que a moeda digital permitiria que clientes planejassem o pagamento de remessas de determinados produtos ou serviços que utiliza com frequência, colocando pré-condições para isso . “Pode haver um acordo com o provedor de algum tipo de serviço. Quando se passou um certo período de tempo, ou se já consumi um determinado percentual daquele serviço, o pagamento é feito para a próxima remessa”.

Por que os BCs estão criando moedas digitais? 

Como mostrou o 6 Minutos nesta reportagem, com a popularização das criptomoedas bancos centrais de diversos países estão estudando a implementação de uma moeda digital nacional.

“Os bancos centrais estão percebendo que a tecnologia está se espalhado e ficando fora do controle do Estado. Por isso, as autoridades estão se apressando para ter uma moeda digital própria, que pode ser controlada”, afirma Robson Gonçalves, professor de MBAs da FGV (Fundação Getulio Vargas).

Segundo especialistas, as autoridades monetárias começaram a olhar com mais atenção para as moedas digitais em 2019, quando o Facebook anunciou a criação de uma criptomoeda própria, que na época foi batizada de Libra. Agora, a moeda se chama Diem e deve ser lançada ainda neste ano.

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