Teremos racionamento de energia novamente? A resposta para essa questão depende de como evoluirão as chuvas a partir de outubro. Mas os consumidores já foram chamados a pensar no assunto, com uma mordida maior das contas de luz. A Aneel (Agência Nacional de Energia Elétrica) manteve em setembro a tarifa  na bandeira vermelha patamar 2, a mais cara.

Mas o assunto não afeta apenas o bolso dos consumidores. Os investidores têm muito a perder se a situação hidrológica não melhorar. A Bolsa está sujeita a sofrer mais um baque, não só pelas mãos das empresas de energia, mas por outros setores que a usam intensamente em seus processos produtivos. E os reflexos para a tão esperada recuperação econômica do país também serão negativos.

“O risco de uma crise hídrica está cada vez mais presente nas decisões. Ainda é cedo para termos uma convicção sobre se haverá ou não racionamento, mas as discussões vêm se intensificando”, diz Rodrigo Santoro Geraldes, superintendente em administração de carteiras da Bram Bradesco Asset Management.

Ao mesmo tempo, existem outras variáveis pesando sobre o cenário econômico, como a questão fiscal e, especialmente, a pressão inflacionária. Por isso, o 6 Minutos perguntou a especialistas qual é o peso que a crise hídrica tem neste momento.

A crise hídrica já é realidade ou ainda é uma ameaça? O período entre os meses de dezembro e maio costuma ser responsável por 70% de todo o volume de chuvas do ano. Mas, de setembro de 2020 para cá, o fenômeno climático La Niña fez os índices pluviométricos minguarem – ou seja, as chuvas que em condições normais teriam enchido os reservatórios de água da região Sudeste deixaram a desejar. E isso colocou em alerta tanto a geração de energia elétrica como o próprio abastecimento de água.

A parte mais árdua do período seco já passou, mas o início da época chuvosa só virá daqui a pelo menos dois meses. Enquanto a estiagem continua, o governo tem tomado algumas medidas para tentar evitar que se chegue a uma situação mais séria, com racionamento de energia ou, no limite, apagões.

“O governo tem agido tanto na oferta, regulando o nível de vazão dos reservatórios, como na demanda, com um programa que incentiva as indústrias a reprogramarem a produção para horários alternativos. Isso já ajuda a mitigar o risco de um apagão. Mas teremos que esperar para ver se tudo isso funcionou ou se será necessário um choque maior”, afirma Ilan Arbetman, analista especializado em energia da Ativa Investimentos.

Ele acrescenta que o Brasil hoje tem um sistema energético mais robusto, graças à evolução da matriz energética em direção a fontes alternativas. Mas esse sistema nunca passou pela experiência de dois períodos úmidos fracos, que acontecerá se o La Niña voltar a afetar a dinâmica de chuvas. Esse é o principal ponto de atenção agora.

“Em tese, o período seco termina em outubro. Mas existem anos em que a fase de chuva chega um pouco antes, outros em que chega um pouco depois e outros em que simplesmente não chega, como em 2020”, ressalva. “Se o cenário-base de volta das chuvas no período úmido se confirmar, não haverá risco de apagão.”

E se novamente tivermos uma estação chuvosa pouco chuvosa? Gabriel Brilhante, especialista em administração de carteiras da Bram, estima que medidas de racionamento de energia serão iniciadas entre janeiro e fevereiro e intensificadas a partir de maio. “Depois que acaba o período chuvoso, fica mais difícil recuperar as perdas nos meses seguintes”, justifica.

Qual é o impacto para o crescimento da economia e o PIB do país? A retomada da economia depende de um fornecimento pleno e desimpedido de energia, especialmente para setores em que ela é usada de forma mais intensiva, como mineração, siderurgia e petróleo. Por isso, um quadro de racionamento seria um gargalo para essa recuperação.

Só que a economia já está deprimida por força de várias outras questões. A capacidade ociosa é tão grande que esse eventual gargalo nem se faz sentir. “Tivemos um conjunto de outras notícias ruins do início do ano para cá, como a crise entre os poderes Executivo, Legislativo e Judiciário, a alta dos preços das commodities. Tudo isso entrou no preço, então fica difícil separar o que veio da crise hídrica”, diz Fabio Astrauskas, economista e professor do Insper.

O crescimento econômico de 2021 já está garantido, porque a base de comparação é muito fraca: o ano de 2020, em que o PIB despencou mais de 4%. O grande problema está em 2022, quando a retomada brasileira se dará em condições piores que as de outros países.

“Há um processo inflacionário no mundo todo. Mas em países como Alemanha e Estados Unidos, isso é tido como passageiro, porque os bancos centrais ainda têm muita munição: não retiraram os estímulos, nem subiram os juros”, compara o economista. “Aqui, já fizemos tudo isso e temos menos liberdade, diante de um quadro de inflação alta e crescimento baixo, com desemprego alto.”

Esse é um cenário delicado, que não consegue ser resolvido pelas regras tradicionais da economia. Isso porque as medidas para conter a inflação derrubam o crescimento, e as medidas para estimular o crescimento geram mais inflação. “É um paradoxo que só se resolve com a criação de mais empregos”, diz Astrauskas. “A pauta para 2022 é a volta do “PIBinho” e o desemprego com combate à inflação. O BC vai tentar reconduzir a inflação para o teto da meta, com ou sem crise hídrica.”

Mas uma piora da crise hídrica poderá agravar o problema da inflação? Sim. A Aneel já vem promovendo aumentos no preço das bandeiras energéticas, e isso deverá se intensificar se as chuvas não evoluírem e for necessário ampliar o uso de fontes térmicas de energia, que têm custo maior. E um encarecimento da energia transborda rapidamente para a inflação, pois aumenta o custo de vida das famílias e dos setores produtivos.

“Mas a crise hídrica é um componente a mais. Não podemos cair no discurso de ‘ah, a inflação está alta porque fizemos tudo o que estava ao nosso alcance, mas São Pedro trouxe a crise hídrica e não pudemos fazer nada’. A crise hídrica está aí, a variável ambiental é incontrolável, mas temos controle sobre outras variáveis que pressionam a inflação: a produtividade baixa, a alta especulativa do dólar, a reforma tributária que não saiu”, frisa Astrauskas. “Os efeitos da crise hídrica sobre a inflação seriam menos fortes se tivéssemos controlado essas variáveis que podemos controlar.”

Como a questão está afetando a Bolsa em geral e as empresas de energia em particular? “Por enquanto, as quedas da Bolsa vêm de outras fontes de volatilidade. Há uma miscelânea de eventos e a crise hídrica é apenas mais um deles”, diz Arbetman. “Mas é um assunto sério, que continuará sendo recorrente ao falarmos sobre Bolsa, até sabermos das chuvas no período úmido. E pode ter desdobramentos mais negativos, se o ferramental que está sendo usado agora for ineficaz.”

Ele acredita que o impacto para setores como mineração, siderurgia, óleo e gás pode crescer ao longo do segundo semestre. “O grande foco agora é evitar o spill over, ou seja, que a crise hídrica respingue nos demais setores e na economia como um todo.”

Entre as empresas de energia, a crise hídrica é potencialmente mais lesiva para as geradoras, em especial as que têm maior exposição a fontes hídricas de energia. Mas, já prevendo as possíveis dificuldades que teriam pela frente, essas empresas aproveitaram o segundo trimestre deste ano para fazer compras antecipadas de energia, equalizando seus balanços energéticos. Com isso, evitaram o risco de ter que adquirir energia no segundo semestre a preços mais altos.

“O custo dessa compra teve um peso negativo nos balanços do 2º trimestre, mas acabou evitando prejuízos mais fortes depois. Como as necessidades de compra já foram supridas, o 3º e o 4º trimestres serão mais flat [estáveis]”, explica o analista da Ativa.

Já entre as distribuidoras, houve uma surpresa positiva: os níveis de inadimplência, que poderiam ter subido em meio aos aumentos nas tarifas aos consumidores, caíram. E os volumes distribuídos de energia, que são a medida da remuneração dessas empresas, aumentaram. “Mas temos que ver se os programas [de racionalização de consumo] do governo terão algum impacto nos balanços do 3º e 4º trimestres”, pondera Arbetman.

Se o pior cenário se concretizar, como ajustar a carteira de investimentos? Geraldes conta que, por enquanto, a Bram ainda não fez nenhuma alteração importante no portfólio por causa da crise hídrica – mas vem acompanhando o assunto de perto, com o apoio de especialistas em meteorologia. Por ora, a gestora avalia que o risco político e a questão fiscal ainda têm peso maior no horizonte.

Ele diz que, em relação à crise hídrica, o principal ponto de atenção é a atividade econômica, sobretudo dos setores mais eletrointensivos e também dos ligados ao varejo. “Mas, no curto prazo, os preços das commodities ainda estão atrativos, o que favorece as empresas de siderurgia”, completa.

Caso se concretize o cenário mais negativo, com racionamento ou mesmo falta de energia, ele diz que o investidor deve migrar a carteira para ações mais defensivas, como telecomunicações e consumo básico (drogarias e supermercados).

As empresas exportadoras também tendem a se beneficiar, já que esse cenário tende a pressionar o dólar para cima e elas recebem nessa moeda. Mas será preciso escolher empresas que não tenham um grau tão alto de dependência da energia em seus processos.

Outra sugestão de Geraldes para aumentar a proteção da carteira é aumentar a exposição a empresas estrangeiras, o que pode ser feito por meio de índices internacionais.

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