Com juros a 2,25% ao ano e sem perspectiva de alta robusta no médio prazo, os investimentos mais tradicionais de renda fixa, como CDB e títulos do Tesouro, perdem atratividade – que já não estava das maiores. A bolsa de valores não é exatamente outra opção porque não dá para ter um portfólio todo de ações, ainda mais em tempos de pandemia.

Eis que o crédito privado voltou à boca dos investidores, no embalo das decisões do mercado de aumentar o prêmio pago por cada título.

Na essência, o crédito privado é um título de dívida de uma empresa. E com dívida dos outros é preciso cautela.

Para te ajudar a entender melhor essa opção de investimento, o 6 Minutos conversou com Daniel Pegorini, CEO da gestora Valora Investimentos, que tem um fundo de crédito privado entre os produtos. Veja o guia:

O que é crédito privado?

É um título de dívida de uma empresa privada. De grosso modo, corresponde ao Tesouro Nacional do setor privado. É emitido quando as companhias têm alguma obra ou projeto milionários para ser executados e precisam levantar recursos. Em vez de pedir empréstimo nos bancos, recorrem ao mercado de capitais.

Quais os exemplos?

Os créditos privados podem ser debêntures, CRAs (Certificados de Recebíveis do Agronegócio), CRIs (Certificados de Recebíveis Imobiliários) ou Fidics (Fundo de Investimento em Direitos Creditórios).

Qual a vantagem?

O crédito privado é um investimento de renda fixa que, dependendo da empresa emissora, é uma aplicação segura.

No cenário de queda na taxa básica de juros e inflação oficial (IPCA), os títulos do Tesouro Nacional vinculados à Selic ou à inflação perderam rentabilidade.

Diante disso, o mercado decidiu diferenciar seu produto de renda fixa e se descolar da imagem de baixo rendimento, hoje associado aos títulos do Tesouro. Para isso, oferece títulos com rentabilidade superior ao CDI.  Na prática, o crédito privado vai a mercado rendendo CDI + uma taxa entre 2% e 5%.

Em tempos de inflação também baixa, o retorno real dos títulos de crédito privado fica na faixa do 4%. Em meio à pandemia e suas incertezas, há demanda dos investidores por produtos assim. “O mercado entendeu que a renda fixa não morreu”, defende Pegorini.

E a desvantagem?

O risco é alto porque caso a empresa não arque com as dívidas, o investidor perde todo o dinheiro. Os fundos de crédito privado não têm a garantia do FGC (Fundo Garantidor de Crédito). Por isso é primordial analisar as contas da empresa emissora do título antes de fazer o aporte.

Melhor investir em fundos ou comprar título por título?

O investimento em fundos é melhor por duas razões principais. Primeiro, os títulos sozinhos são caros. É comum que uma única debênture custe R$ 100 mil. “Se aplicar esse mesmo valor em um fundo, o investidor consegue acessar mais de 40 títulos diferentes”, compara Pegorini.

A outra razão é que naturalmente falta aos pequenos investidores a expertise de gerenciar prazo de validade dos títulos, monitorar as empresas emissores, novas ofertas e a decisão sobre se vale ou não a pena vender os títulos no mercado secundário.

No fim do dia, o investimento no fundo acaba sendo mais otimizado do que seria se fosse aplicado em um único título.

Que tipo de empresa emite crédito privado?

Pegorini explica que toda empresa privada emite algum tipo de crédito privado. Os setores mais comuns são os de cerâmico, construção civil, químico, financeiro e varejo.

Algumas empresas são consideras de excelente qualidade, ou  triplo A. Como exemplo, Raízen, de combustível e logística, e Klabin e Suzano, de papel e celulose, destaca Pegorini.

O que é um bom fundo de crédito privado?

O fundo vai depender do conjunto de títulos que tem no portfólio. O CEO da Valora explica que não existe uma definição certeira de que tipo de crédito é bom ou ruim.

A qualidade depende da combinação entre o risco da dívida, o prazo de vencimento do título e o juro oferecido além do CDI ou IPCA.

A qualidade da empresa emissora é importante. A empresa tem histórico de pagamento ou de calote? Para que projeto o título está sendo emitido?  A obra faz sentido? Essas são perguntas a serem respondidas antes da compra de um título.

Qual o mínimo de investimento?

Em média, R$ 1 mil. O prazo para resgate varia entre fundos, mas há opções de liquidez em torno de 15 dias após a solicitação do resgate.

Por que as empresas emitem títulos em vez de ações?

Tudo depende do tipo de projeto. Ao emitir títulos de crédito privado, a empresa tem uma dívida e precisará devolver o dinheiro. Se emite ações, ela vende uma parte da empresa e não precisa devolver o dinheiro que recebeu.

Pegorini dá o exemplo de uma padaria. Se o empreendimento quer realizar uma obra e vai a mercado captar recursos oferecendo CDI + 5%, ela precisa ter certeza que seu faturamento vai crescer mais que isso. Só assim terá como pagar a dívida no vencimento.

Mas se o avanço no faturamento é mais de longo prazo, daí, em geral, a saída é a venda de ações. O dinheiro não precisará ser devolvido e o próprio mercado vai precificar as ações na bolsa de valores.

Quer receber notícias do 6 Minutos direto no seu celular? Estamos no Telegram (t.me/seisminutos) e no WhatsApp (https://6minutos.uol.com.br/whatsapp).