Cerca de 13 mil crianças e adolescentes investem hoje na bolsa de valores no Brasil, segundo dados da B3. Isso representa um aumento de 650% comparado a uma década atrás, quando o número não passava de 2 mil menores investidores.

Há aqueles que atribuem esse aumento da presença de crianças e adolescentes ao aumento de pessoas físicas na bolsa. Em 10 anos, o número de pessoas que participam do mercado de ações no Brasil saltou de 500 mil para 3 milhões. Para outros, o acesso fácil às informações financeiras também incentivou esse movimento.

Seja qual for o caso, alguns desses jovens investidores falam do assunto como adultos. Beny Fuks, um menino de 11 anos que começou sua carreira como trader vendendo balas na escola a um preço menor que o da cantina. Em seu canal com quase 5 milhões de inscritos no YouTube, o MoneySide, ele explica sua visão do mercado financeiro. “Meu primeiro vídeo foi sobre como ganhar dinheiro no YouTube, não imaginei que cresceria tanto”, conta Beny ao 6 Minutos.

Seus entrevistados são figuras de peso: Arminio Fraga, ex-presidente do Banco Central; Pérsio Arida, um dos idealizadores do Plano Real; Joaquim Levy, ex-Ministro da Fazenda, entre outros nomes conhecidos pelo mercado.

Beny não nega seus privilégios: é filho do economista Daniel Fuks. O youtuber mirim estreou sua rodada de entrevistas com o pai: a ideia era compartilhar com os outros aquilo que ele aprendeu em casa. “Acredito que o interesse do Beny pelo mercado de ações aflorou por causa dos elementos que tem à disposição, mas também porque eu e minha esposa, como pais, incitamos a curiosidade dele”, pondera Fuks pai.

Todo lucro de Beny com ações é reinvestido no próprio mercado financeiro. “Incentivamos o lucro, não o consumo” diz Daniel.

Enquanto Beny aprendeu o beabá da economia em casa, Pedro Cultrera, de 14 anos, montou sua carteira de ações a partir de conteúdos que encontrou na internet. “Antes de começar a investir, assisti muitos vídeos no YouTube sobre o assunto, do Primo Rico, Thiago Reis, Jovens de Negócio e o Kid Investor”, conta Pedro. ” Também li dois livros sobre o mercado financeiro, ‘Do Mil ao Milhão’ e ‘O Investidos Inteligente’. Um amigo meu pai sempre me dá conselhos também”.

Pedro conta que, no começo, abriu sua conta em uma corretora de investimentos porque queria comprar um computador novo. Sua relação com o dinheiro, no entanto, mudou assim que suas ações começaram gerar lucro para ele: “Sempre fui muito consumista. Quando recebia algum dinheiro dos meus pais, dos meus avós, já gastava. Agora, o que ganho vai direto para a bolsa”.

Ele lembra que, no começo, sua atividade “extracurricular” era motivo de piada entre os amigos. Agora, que eles veem os lucros, também querem investir: “Eu ajudo no que posso, no que eu sei”, conta.

Beny e Pedro compartilham de uma certeza: ambos querem viver de dividendos no futuro. Ainda que almeje um futuro como jogador de futebol, Beny não pretende deixar as ações de lado. Já Pedro quer estudar economia na faculdade: “Acho que quando tiver 35 anos já estarei tranquilo financeiramente”, pondera.

Educação financeira é decisiva para crianças

Frente a tantas possibilidades, a educação financeira de crianças nunca foi tão necessária. Nas escolas, a disciplina deveria ter sido adicionada como tema transversal na grade curricular, conforme as diretrizes da Base Nacional Comum Curricular (BNCC), mas as implicações da pandemia de coronavírus para o ensino brasileiro, que migrou para as plataformas online, adiou o plano.

Caco Santos, planejador financeiro de pessoa física da Planejar (Associação Brasileira de Planejadores Financeiros), aconselha os pais a acompanharem de perto as transações dos filhos da bolsa – mesmo que elas sejam feitas com o dinheiro “próprio” da criança.

“Questionar as decisões da criança é bastante importante tanto para o pai entender os motivos pelos quais o filho decidiu fazer uma transação, quanto para conscientizar a criança do que ela está fazendo.”

Ele sugere: “Pergunte por que seu filho escolheu aquela ação e não outra; o que ele já estudou para decidir investir em uma determinada empresa, que outras empresas ele considerou; seu objetivo com aquela compra; se der errado, como ele vai ‘corrigir’? Todas as dicas que damos para os adultos servem para as crianças também”.

Quais são as opções de investimentos para uma criança?

O cadastro de um menor de idade na bolsa de valores é bastante simples, mas precisa ser supervisionado pelos pais ou adultos responsáveis por ele. Já o day trade, que é compra de papéis de empresas para venda no mesmo dia – só pode ser operado por adultos.

O aumento no interesse de crianças e adolescentes pelo mercado financeiro instigou a criação de produtos específicos voltados ao grupo. Bancos como o Inter e o Next lançaram as contas Kids, que dão acesso às plataformas de investimento em renda fixa (CDB, LCI e LCA), fundos de investimento, previdência privada, renda variável e ofertas públicas.

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