E aí, você já fez seu seguro de vida? Eis uma pergunta de que muitos brasileiros preferem se esquivar. A relação óbvia com um tema que é tabu (a morte) faz desse assunto algo incômodo. Mas a pandemia, que fez disparar o número de mortes, fez com que muitas pessoas quisessem saber mais sobre o funcionamento dos seguros.

Números da Susep (Superintendência de Seguros Privados) mostram que o segmento vem crescendo nos últimos anos. O total de prêmios (valor pago por cada segurado para fazer jus à cobertura contratada) foi de R$ 15 bilhões em 2018, R$ 17,76 bilhões em 2019 e R$ 19,98 bilhões em 2020.

Para entender se vale a pena contratar um produto desse tipo, o 6 Minutos conversou com a planejadora financeira Elaine Carreiro, que também tem experiência como corretora de seguros. Ela explicou que o seguro de vida não deve ser encarado como um investimento, mas pode ser útil na construção de um planejamento sucessório.

Seguro de vida é bom para todo mundo? Muitas pessoas enxergam o seguro de vida apenas como o produto que paga uma indenização aos beneficiários quando o titular morre. Assim, se imaginam que não estão expostos ao risco de uma morte precoce, ou se não têm dependentes, concluem que não faz sentido contratar um seguro.

Mas esse é apenas um dos benefícios que vêm no pacote. Tão ou mais importante que ele é a proteção contra acidentes, doenças graves e outros eventos que impeçam o titular de trabalhar. Para um profissional liberal ou autônomo, essas situações trazem uma perda drástica de renda, que o seguro pode evitar.

“Todo mundo que entrou no mercado de trabalho e gera renda deveria ter essa preocupação, especialmente quem tem outras pessoas que dependem de si, sejam pais ou filhos”, diz Elaine.

E para quem não tem dependentes, qual é a utilidade? Se você não tiver dependentes, os pagamentos feitos pelo seguro vão ajudar a garantir o seu próprio sustento até que possa voltar a trabalhar. Uma das coberturas que você pode contratar é a DIT (diária de incapacidade temporária), pela qual você receberá um valor diário por dia parado – pense em um fisioterapeuta ou motorista de aplicativo que fraturou o braço, por exemplo.

Qual é a idade certa para começar a pensar nisso? “Assim que você começa a gerar renda”, responde Elaine. “Quanto mais exposto ao risco estiver, mais proteção tem que buscar”. Ela diz que é um erro deixar o assunto para uma idade mais avançada. “Os acidentes de carro são muito mais frequentes entre os jovens”, argumenta.

A pandemia de covid-19 aumentou a procura por seguros de vida? Sim, pelo medo que muitas pessoas tiveram de pegar a doença. Mas esse aumento de procura nem sempre se traduziu em efetivação de novas apólices. “A maioria dos seguros novos tem carência de 90 dias [o assunto é tratado nas condições gerais da apólice]. Aí a pessoa vai contratar, vê que tem essa carência e acaba desistindo: ‘e se eu pegar a doença antes?’”, conta Elaine.

Alguns contratos incluem pandemias entre as hipóteses de risco excluído, ou seja, para as quais não há cobertura. “Mas, como o cenário atual é totalmente atípico, as seguradoras começaram a aceitar que a covid-19 fosse coberta nos contratos já em vigor”, diz Elaine.

Seguro de vida pode ser encarado como investimento? Não. “Muitos clientes dizem: ‘o valor que estou pagando neste seguro de vida, eu poderia aportar em um investimento e ter rentabilidade melhor’. Mas uma coisa não se compara com a outra. Se você contratar hoje um seguro com cobertura de R$ 1 milhão e sofrer um acidente daqui a três dias, terá liberada a quantia de R$ 1 milhão”, explica Elaine. “Seguro não é investimento, mas proteção, principalmente enquanto você estiver construindo seu patrimônio. Se acontecer algo no meio da sua jornada, você estará respaldado por aquele capital segurado que você contratou.”

Há outras características que diferenciam o seguro de vida dos investimentos. Ele é livre de tributação, não pode ser penhorado e não entra em inventário. Mas pode ser interessante como parte de uma estratégia de planejamento sucessório.

“Se a pessoa está cheia de dívidas e morre, os investimentos que ela deixou são ‘comidos’ pelas dívidas. Já no seguro de vida, a quantia contratada vai líquida diretamente para os beneficiários, sem dedução de impostos e sem necessidade de requerer alvará judicial”, compara Elaine.

O prêmio que eu terei que pagar todo mês é um valor que nunca mais vou recuperar. Não é dinheiro jogado fora? De fato, em um seguro de vida tradicional, esse é um dinheiro que não volta. E, uma vez contratado o seguro, caso você não tenha mais condições de pagar o prêmio, perderá tudo o que pagou. Mas nem todos os seguros são assim. Existe também o seguro de vida resgatável, em que uma parte dos aportes vai para um fundo e, após 20 anos, pode ser resgatada pelo segurado, com atualização pelo IPCA.

“Esse tipo de seguro foi criado para aquelas pessoas que ainda estão na fase de construção do patrimônio: casando-se, tendo filhos”, explica Elaine. “Se algo acontecer no caminho, o futuro da família está garantido; caso contrário, é possível recuperar parte do dinheiro depois.”

Como montar o seguro de vida que melhor atenda às minhas necessidades? O primeiro passo, normalmente dado ao lado de um corretor, é entender qual é o seu momento de vida e fazer um raio-X de sua situação patrimonial, receitas e despesas. Você é casado(a), tem filhos? Quais são suas despesas fixas e variáveis? Por quanto tempo gostaria de garantir a educação dos filhos?

A partir daí, serão definidos o capital segurado (ou seja, o valor da apólice contratada, e que será recebido após eventos como morte ou invalidez), as coberturas adicionais e o valor do prêmio (a quantia que você terá que pagar mensalmente para usufruir da proteção).

“O prêmio precisa caber no bolso. Se for um valor que a pessoa sofre para pagar, provavelmente o seguro será cortado do orçamento na primeira necessidade”, diz Elaine. “Se um capital segurado de R$ 1 milhão não cabe no seu bolso, contrate uma cobertura menor. Quando estiver em um momento de vida com capacidade financeira melhor, você pode revisitar a apólice [e elevar a cobertura e o valor do prêmio]”, explica Elaine.

Quanto dinheiro terei que gastar com isso? O valor do prêmio depende do capital segurado e também de fatores como sua faixa etária, que influem no risco da seguradora. Mas, a título de exemplo, um seguro em vida para um homem de 40 anos com capital segurado de R$ 500 mil tem prêmio de cerca de R$ 40.

“Eu, por exemplo, tenho 48 anos e um seguro por invalidez permanente e temporária, com capital de R$ 500 mil. Pago R$ 56”, conta Elaine. “É um dinheiro que não vou receber de volta. Mas prefiro pagar esses R$ 56 por mês para ter uma cobertura de R$ 500 mil caso eu necessite.”

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