Se você fosse um banco, preferiria emprestar para quem vai gastar o dinheiro com roupas e festas, com uma viagem ou para quem vai bancar os estudos? Se você escolheu qualquer uma das três alternativas, saiba que estaria praticamente sozinho. Bancos, financeiras e até fintechs não se importam com isso: eles utilizam modelos de concessão de crédito que avaliam a sua capacidade de pagamento e deixam de lado o propósito do pedido.

Quem quer aprender e não tem condições de bancar as mensalidades da escola depende de empréstimos que muitas vezes são negados por falta de histórico, renda insuficiente – própria ou da família – ou precisa de bolsas. A situação se agrava em cursos de curta e média duração, uma vez que o crédito estudantil se concentra na graduação.

Foi diante desse quadro que os empreendedores Fernando Franco, Mario Perino e Luciano Krebs decidiram criar a Provi, uma fintech que se diferencia da profusão de startups dedicadas a facilitar o acesso a crédito. A principal distinção é que o propósito conta, e muito, na hora da concessão: eles só emprestam para financiar estudos.

Quem é o público-alvo? São pessoas que querem fazer algum curso que faça deslanchar a sua carreira. Dentro da proposta de impacto para a carreira e de oportunidades para ganhar escala, a preferência é dada a cursos de áreas que contam com um número expressivo de alunos: é o caso, por ora, de tecnologia, estética, medicina e marketing.

Posso escolher qualquer escola? Não. Atualmente, a Provi tem parceria com oito escolas selecionadas por atenderem ao critério de oferecer boas perspectivas de carreira para os alunos que concluem os seus cursos (o número de escolas deve dobrar nas próximas semanas). Isso é analisado de forma objetiva, com a avaliação, por exemplo, dos índices de obtenção de emprego de quem se formou nas escolas candidatas à parceria.

A fintech também conversa com recrutadores de mercado para validar se as habilidades oferecidas nos cursos são aquelas de que as empresas realmente necessitam.

A preferência é dada a cursos de média e curta duração (como bootcamps), que vão de uma semana a seis meses. A exceção são alunos de medicina que estão no quinto e sexto anos, prestes a entrar na residência, mas ainda sem uma renda própria suficiente.

Como funciona? O aluno faz o pedido de financiamento para a Provi. Uma vez aprovado, a fintech paga o valor integral do curso para a escola, muitas vezes com desconto. Daí o estudante assume a dívida do valor cheio e faz o pagamento de forma parcelada para a Provi, que ganha em cima do descontro dado pelo escola ou com os juros do financiamento. A resposta para o pedido de crédito vem em média em três horas.

É o futuro que importa: Franco (que é o CEO da Provi), Perino (o CFO, à frente das finanças) e Krebs (o CTO, à frente da área de tecnologia) desenvolveram um modelo de análise de crédito que leva em conta as perspectivas de carreira e de aumento de renda que o estudante terá com o curso financiado.

“A tese é que as pessoas saem do financiamento estudantil melhor do que elas entraram, com novas habilidades. É um momento importante na vida delas”, diz Perino.

É algo que impacta diretamente a capacidade de pagamento do empréstimo. Ou seja, em vez de olhar exclusivamente para trás em busca do histórico de crédito de quem faz a solicitação, a Provi pensa adiante.

Não que eles não desprezem o modelo tradicional de análise de crédito. Isso também é levado em conta, mas com um peso menor na decisão final de emprestar ou não.

Redes sociais também contam: O modelo de concessão ainda avalia dados públicos e conexões em redes sociais, como o LinkedIn, além da maneira como a pessoa escreve, se fala inglês e o seu currículo. Tudo com a permissão de quem é o potencial tomador do financiamento. Por fim, a Provi conversa com representantes da escola na qual o aluno pretende estudar – ou já estuda –, com o objetivo de avaliar critérios como desempenho, engajamento com o curso e como se saiu no processo de seleção.

Quais as condições de crédito? O valor médio do financiamento é de R$ 10 mil, com taxa média de juros de 1% ao mês – as taxas vão de zero a 3%. A depender do valor, eles concedem empréstimos com pagamento em 12 vezes sem juros. O parcelamento é feito de 12 a 24 meses, com carência de até 50 dias para o início do pagamento.

Inovação e aporte: O modelo da Provi é inovador no Brasil e, de certa forma, raro no mundo. Nos Estados Unidos, existem poucas fintechs com atuação semelhante — é o caso da Climb Credit, que nasceu em Nova York.

A Provi acaba de receber um aporte de US$ 1,3 milhão da GFC (Global Founders Capital), uma empresa alemã de venture capital que já investiu em companhias como Facebook, LinkedIn e Skyscanner, e de investidores anjos. A fintech está incubada desde o início do ano no Opp, o hub de startup do C6 Bank, depois de ter sido selecionada no programa de mentoria e empreendedorismo do banco. Ela recebeu um investimento de R$ 70 mil na ocasião.

Mario Perino, Fernando Franco e Luciano Krebs, sócios-fundadores da fintech Provi

Qual o tamanho da fintech? A Provi nem completou um ano de vida e os números preliminares são encorajadores: já concedeu empréstimos para cerca de 200 alunos, atingindo uma carteira de crédito de R$ 2 milhões. Há apenas 3 casos de inadimplência – com a ressalva de que é uma carteira nova, ou seja, os empréstimos são recentes. 

A fintech completou recentemente uma emissão de R$ 15 milhões em debêntures, dinheiro que vai servir para reforçar o seu capital e, consequentemente, ampliar a sua capacidade de emprestar. A meta é encerrar o ano com uma carteira de crédito de R$ 9 milhões.

“O desafio é ganhar escala com qualidade”, afirma Fernando Franco, CEO da Provi. Ou seja, emprestar e impactar cada vez mais alunos sem que a inadimplência aumente.

Mais de 85% dos pedidos de empréstimo são aprovados, o que é igualmente uma taxa muito acima da média de mercado de crédito. Ajuda o fato de que a Provi trabalha no seu modelo de concessão com a figura do avalista, algo semelhante ao fiador no aluguel de imóveis: se o aluno não consegue preencher algum dos critérios exigidos, pode apresentar um amigo ou parente que se responsabilize pelo crédito em caso de não pagamento.

 

 

 

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