A taxa de juros na mínima histórica e o forte crescimento das plataformas de investimentos criaram um ambiente propício para os recursos mudarem de mãos no Brasil ao longo dos últimos anos. Os cinco grande bancos continuam concentrando a maior parte do dinheiro investido em fundos de investimento, mas as gestoras independentes vêm ganhando cada vez mais espaço.

Cálculos feitos pelo 6 Minutos com base em dados da Anbima (Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais) mostram que, em dezembro de 2016, quando o processo de redução da Selic teve início, Banco do Brasil, Itaú Unibanco, Bradesco, Caixa e Santander concentravam 67,1% do dinheiro investido em fundos de investimento no país.

Essa fatia foi diminuindo ao longo dos anos até chegar a 58% no final de 2019 e a 54% em dezembro do ano passado.

Plataformas e juros baixos

Em 2020, especificamente, os grandes bancos captaram apenas um quinto do aumento de 11,4% em recursos alocados em fundos de investimento no Brasil. Essa alta foi de R$ 594,9 bilhões (o patrimônio sob gestão aumentou de R$ 5,2 trilhões, em 2019, para R$ 5,8 trilhões), enquanto que a expansão das cinco maiores instituições financeiras foi de R$ 118,8 bilhões no período.

“O principal fenômeno que vem afetando as captações de fundos são as plataformas de investimentos. Esse é o item que mais chama a atenção, o elemento novo na festa”, avalia o especialista em fundos de investimentos Hudson Bessa, sócio da HB Escola de Negócios.

A pandemia pode ter acelerado esse quadro, com o uso da tecnologia, que possibilita a comparação mais fácil entre diferentes produtos, sendo cada vez mais importante para a tomada de decisões de investimento.

Para Isaac Marcovistz, head de produtos, comunicação e marketing da BB DTVM, gestora do Banco do Brasil, a forte queda de juros, que reduziu drasticamente a rentabilidade de produtos de renda fixa, também tem um papel fundamental nesse processo, já que força o investidor a buscar outras opções.

“Temos a percepção de que a aceleração da pulverização dos valores investidos nos gestores da indústria brasileira de fundos de investimento é melhor explicada pelo movimento de forte redução da taxa básica de juros, em que pese o ambiente mais concorrencial advindo do modelo de plataformas e agentes autônomos em si”, pondera.

Bradesco e Itaú foram os que mais perderam

Líder incontestável do mercado, o Banco do Brasil perdeu participação de mercado entre 2016 e 2019 (passou de 21,3% para 20%), mas manteve sua fatia do mercado firme e forte no ano passado. O banco cresceu principalmente nos fundos de renda fixa, categoria onde avançou impressionantes 22,1%.

“O ano de 2020 foi marcado por uma severa volatilidade, decorrente da pandemia. Considerando o nível de incerteza em relação à atividade econômica e o impacto nos preços de ativos de renda variável e de crédito privado, em especial no primeiro semestre do ano, um movimento de demanda por portfólios menos expostos a risco de mercado nos pareceu coerente por parte dos investidores”, avalia Marcovistz, do BB.

O outro banco estatal na lista dos cinco grandes, a Caixa, cresceu bem menos que o mercado, mas ainda assim manteve o seu peso em gestão de recursos ao longo dos últimos anos ao redor dos 7%.

Quem mais sofreu mesmo foram Bradesco, que inclusive perdeu volumes sob gestão, e o Itaú Unibanco e Santander, que tiveram alta mas cresceram bem abaixo do volume total do mercado.

O Bradesco, que era vice-líder em gestão de recursos em 2016, com 16,9% do mercado, viu sua fatia cair para 9,1% no final do ano passado. Já o Itaú Unibanco, que se manteve nos 15% de share até o final do ano retrasado, caiu para 12,9% em 2020. Santander caiu de 6,6% (em 2016) para 5% (final do ano passado).

Para Bessa, além do advento das plataformas, essa perda de peso tem a ver com o fato de que os bancões, por muitos anos, não priorizaram gestão de recursos.

“Um grande banco nasce com contas correntes e crédito, todo o resto é penduricalho. Por mais que ofereçam plataformas, as ferramentas de comparação de produtos são ruins, não é um produto simples para acompanhamento, afirma. “Agora, estão competindo com empresas que vivem de investimento. Antes essa era uma área que era apêndice para as instituições financeiras”.

Quem ganhou?

Afinal, quem ganhou participação nesse processo?

Os dados da Anbima mostram que essa perda de peso dos bancões foi bastante pulverizada para diversos players. Mas alguns se destacam: as maiores altas entre os 10 gestores com maior patrimônio sob gestão foram da XP Asset (expansão de 81%), BRL (61,3% de crescimento) e BTG (32% de alta).

Bessa ressalta a importância do chamado “modelo XP” de distribuição de produtos financeiros, através de agentes autônomos, nesse processo de diversificação. As grandes corretoras abriram a prateleira de fundos, oferecendo produtos que o varejo dos bancões não estava acostumado a oferecer.

Mas não foi só isso. Esses produtos passaram a ser oferecidos de forma muito mais assertiva pelos agentes. “Os agentes autônomos ligam, perguntam, captam recursos ativamente”, aponta Bessa.

Não é possível saber quanto a XP representa da chamada distribuição, ou seja, da oferta de produtos financeiros na ponta, diretamente ao consumidor, mas é fato que a corretora possui uma elevada participação de mercado. No caso da gestão de fundos, entretanto, a casa possui relativamente pouco, 1,61% do mercado, apesar do crescimento acelerado dos últimos anos.

Grandes tentam se reinventar

Procurados, os grandes bancos privados, com exceção do Banco do Brasil, preferiram não falar sobre a movimentação no setor. O 6 Minutos, entretanto, conversou informalmente com alguns representantes de instituições financeiras que fizeram algumas observações sobre esse processo.

Um ponto bastante destacado é que o ranking da Anbima olha somente volume sob gestão, e não a receita das gestoras com esses recursos. O argumento é que, nos últimos anos, os grandes players vêm oferecendo produtos de maior valor agregado aos clientes, e isso se traduz em maiores receitas, já que são fundos que cobram, além de taxa de administração, taxa de performance.

Além disso, há uma série de ações que estão sendo tomadas na tentativa de reverter esse processo, com maior e menos sucesso, dependendo do banco.

Uma delas é a maior oferta de fundos de investimento que não sejam próprios –a avaliação, nesse caso, é que é melhor não ter uma captação tão grande em um produto da instituição financeira do que simplesmente perder o cliente.

Outras são a contratação e diversificação do perfil de gestores de fundos e formas diferentes de remuneração dos gerentes que indicam produtos financeiros. Neste último caso, um exemplo conhecido é o do Itaú Personnalité, segmento de alta renda do Itaú que levou ao ar uma campanha criticando a remuneração dos agentes autônomos.

 

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