O assassinato de um cliente negro em uma loja do Carrefour evidenciou a necessidade das empresas de levar a sério seus compromissos com o ESG (melhores práticas ambientais, sociais e de governança, na sigla em inglês). Esse compromisso pode fazer a diferença entre o sucesso ou a ruína da companhia.

Para Pedro Serra, gerente de Research da Ativa Investimentos, essas práticas vão ser, cada mais, o grande diferencial de valor das companhias. “A empresa gera valor para o seu investimento. Uma série de coisas envolve o ESG, como bom uso da água, diligência dos seus fornecedores.”

O comprometimento com os critérios ESG também torna a companhia para atrativa para os investidores. “É uma tendência que vem crescendo para quem investe. E existe fundamento por trás desse investimento, pois protege o capital, que ganha a opinião pública. Os bancos também levam isso em consideração na hora de emprestar dinheiro, os fundos também. Então, quem ficar de fora vai ficar em desvantagem competitiva. É um movimento que já tomou uma proporção muito maior”, afirma.

A Attiva lançou no começo do ano a carteira ESG, que segue os Princípios de Investimento Responsável criados pela ONU (Organização das Nações Unidas). A corretora já contava com a Carteira Verde em seu portfólio, mas decidiu fazer essa reestruturação ao aplicar os critérios ESG.

“Acreditamos que, em um futuro próximo, a aderência às métricas ESG se torne imprescindível. As pessoas estão cada vez mais conscientes sobre a importância de buscar investimentos responsáveis, além disso estão percebendo que investir nesses papeis não significa abrir mão de retorno financeiro”, destaca Serra.

Empresas como a holandesa Arcadis, de engenharia e gerenciamento de projetos, já descobriram que o ESG não é apenas uma “marolinha”, mas uma forma de ver o mundo que se estabeleceu de maneira concreta. “Os grandes investimentos não existirão se não tiverem aliados a esses princípios”, afirma Karin Formigoni, diretora-presidente da Unidade de Negócios da Arcadis do Brasil.

Para Karin, os princípios de ESG devem estar no chamado core business da empresa. “Quando falávamos em mudanças climáticas, parecia uma coisa muito distante. Os últimos anos provaram que já é fato e que, se não tivermos uma ação coletiva, a tendência de eventos extremos como desertificação de algumas áreas, calor intenso, furações vão ocorrer cada vez mais. E é importante destacar que as populações estão mais sensíveis e mais engajadas com todas essas questões”, afirma a executiva.

Tendência renovada

Linda Marasawa, sócia-diretora da Fractal consultoria de negócios sustentáveis, diz que o ESG reacendeu a chama que já havia sido acesa no início dos anos 2000. Ela trabalhou no extinto Banco Real (adquirido pelo ABN Amro e mais tarde pelo Santander) e ajudou a criar importantes projetos na área sócio-ambiental.

Um exemplo foi o fundo Ethical, o primeiro no Brasil a investir em ações de empresas sustentáveis. Neste mês, ele foi relançado pelo Santander e será um dos primeiros no país a adotar critérios ESG na escolha dos ativos. Entre os exemplos de critérios que serão considerados estão gestão de recursos naturais, negócios responsáveis, e ética – compromissos e práticas. A carteira deve contar com 25 a 35 empresas.

“O investidor está de olho também às novas solicitações da sociedade de maior transparência. Tem que lembrar que hoje em dia, se acontece um fato, o mundo inteiro fica sabendo. Precisa saber que no risco ambiental, social, econômico e de governança há também a oportunidade”, diz ela.

“Plantamos as primeiras sementes com o lançamento do Ethical, em 2001, e aprendemos muito de lá para cá. Agora estamos ajustando a dose de adubo e vamos colher os frutos. O terreno é bastante fértil”, disse em nota Gilberto Abreu, CEO da Santander Asset Management.

Mas Claudia Yoshinaga, coordenadora do Centro de Estudos em Finanças da FGV, essa é uma métrica muito ampla e complexa ainda. “Estamos em um processo de amadurecimento, abarcando um pouco mais de coisas, incluindo mais itens. Mas o tema está em discussão sim e acredito que vá cada vez mais ter projeção. Já é bem mais forte lá fora, principalmente na Europa, mas aqui está vindo para ficar”.

Mudança de perfil

O médico intensivista, Roberto de Almeida, começou a dar aulas em 2014 para uma turma de medicina e, ao pensar em uma mensagem positiva para os alunos, percebeu que a o curso  está intimamente ligado a hábitos de vida, alimentação saudável, atividade física, sono.

Começou a estudar e a praticar esses hábitos. Virou vegetariano, passou a usar menos o carro e mudou também o perfil de seus investimentos. “Fiquei mais crítico até para pensar nos investimentos. Como ganhar dinheiro com o adoecimento das pessoas? Essa foi minha primeira percepção. Por isso comecei a procurar algo que ajude as pessoas, a saúde planetária, a necessidade de mudança da biodiversidade. Existem empresas com resultado bom, mas com impacto negativo no meio ambiente”, afirma.

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