Até os gastos mais básicos como alimentação, gás e energia elétrica andam pesando no orçamento doméstico. Mas mesmo em meio ao aperto, muitas famílias ainda evitam conversar sobre dinheiro. Só que está ficando cada vez mais difícil fugir dessa conversa.

Com todo mundo passando mais tempo em casa, já não dá para esconder aquele banho mais longo, a luz acesa sem necessidade ou a compra por impulso pela internet. O jeito é enfrentar o medo da discussão e colocar as contas na mesa, antes que seja tarde demais.

Por que o dinheiro ainda é tabu? Para Carol Stange, educadora financeira e colunista do 6 Minutos, tudo parte de ideias equivocadas, mas ainda muito presentes no imaginário dos brasileiros. “Muita gente cresceu ouvindo que é indelicado falar sobre dinheiro, que não é assunto para se tratar à mesa, muito menos com crianças. Tem essa ideia de que a gente só precisa falar sobre finanças quando o negócio está feio.”

Guilherme Casagrande, coordenador da Serasa, lembra que essa é uma questão cultural bem brasileira. Ele afirma que americanos e europeus, por exemplo, têm muito mais liberdade na hora de falar sobre dinheiro e compartilhar seus ganhos mensais com a família.

No entanto, já dá para ver alguns avanços. Com a chegada dos influenciadores digitais, que falam sobre finanças de uma forma mais leve, o tabu de falar sobre dinheiro vem perdendo força. “A gente tem evoluído. Nos últimos três ou quatro anos, o tema da educação financeira está bem mais presente, mas ainda temos um longo caminho a percorrer”, afirma Casagrande.

Como trazer o assunto para a família? A dica é iniciar a conversa pelo lado bom. Comece falando sobre objetivos e sonhos. Podem ser aqueles compartilhados por todos, mas também os individuais. A partir daí, a família deve traçar suas metas de economia e colocar em prática aquilo que é preciso para alcançá-las.

Para que ninguém desanime, é importante sempre manter o ponto de chegada em mente. “Se a gente vai ter um corte, é preciso ter um porquê, senão a vida fica muito sofrida. Depois, quando a família atinge o objetivo em que todos estão envolvidos, todo mundo pode participar de uma micro comemoração, que não necessariamente precisa envolver dinheiro”, orienta Stange.

A partir de que idade incluir as crianças?  Quanto antes melhor. Segundo os especialistas, o que muda é a complexidade dos assuntos a serem tratados com elas. Para Casagrande, uma boa forma de promover o aprendizado na prática é alertar sobre pequenas ações: colocar no prato apenas a quantidade que será consumida, fechar a torneira enquanto escova os dentes, apagar as luzes, etc. Ao perceberem que as orientações estão virando hábito, os adultos podem, então, oferecer uma recompensa.

O que pode ser falado com elas? A partir de sua experiência como educadora e também como mãe, Stange explica o que é possível ser tratado de acordo com cada faixa etária:

2 anos – o importante é expor que o dinheiro tem lugar certo para ficar, que ele não fica jogado, não é material para brincadeira e, portanto, não é feito para riscar, recortar ou colocar na boca.

4 anos – A partir dessa idade, a criança já consegue interagir com vendedores e entender que é tudo uma troca.

6 anos – Neste ponto, já é possível contextualizar o que é muito ou pouco dinheiro para a família e quais são os gastos essenciais. Também já é recomendável começar a ensinar sobre prioridades na prática. Uma boa ideia é criar uma “semanada”, disponibilizando uma quantia pequena para que a criança vá aprendendo a administrar.

10 anos – Nessa fase, podem vir as informações complementares, como o que são os investimentos ou o limite do cartão de crédito.

Uma dica para ajudar as crianças a sentirem que fazem parte dos planos financeiros da família é nomeá-las como guardiãs de um ponto específico da economia doméstica: um filho fica responsável por verificar se alguém esqueceu a luz ligada e outro se estão consumindo muita água e assim por diante.

E quando alguém sai da linha? Um clássico da falta de diálogo entre familiares são as chamadas “traições financeiras”.  Sabe aquela história de “comprei tal coisa, mas fulano não pode saber de jeito nenhum”? Isso costuma acontecer quando um membro da família encontra dificuldades para se comprometer com os objetivos compartilhados.

Nesse caso, não dá mesmo para adiar a conversa. A dica é manter o foco no objetivo e evitar acusações. Se o necessário para resolver o problema é pagar a dívida do cartão de crédito e reduzir os gastos nos próximos meses, a discussão não deve virar algo como: “você compra compulsivamente, igualzinho ao seu pai!”. Caso isso aconteça, é melhor parar por aí e remarcar o papo para o dia seguinte.

Com que frequência discutir as despesas? Se uma família senta para discutir os gastos uma vez ao ano, provavelmente não terá uma vida financeira bem equilibrada. Mas isso também não quer dizer que é preciso ter um encontro marcado a cada três dias. O mais legal é que o assunto vire parte da rotina.

“Eu não entendo que seja preciso marcar uma reunião na sala, com todos muito compenetrados para mostrar os boletos e discutir as contas. Vejo como um assunto a ser tratado como qualquer outro dentro de casa”, diz Stange.

Os temas mais diversos podem servir de gancho para um bate-papo sobre finanças. Pode ser uma história que alguém trouxe da escola ou do trabalho, um carro bonito que passou na rua, uma notícia que saiu no jornal ou, então, a vontade de fazer uma viagem.

Estabelecer regras ajuda ou atrapalha? Tornar as coisas muito rígidas não costuma ser o melhor caminho, pois acaba transformando condutas mais saudáveis em sacrifícios. No entanto, é recomendável estabelecer papéis e dividir responsabilidades.

“Dá para decidir quem vai guardar os cupons fiscais, a outra pessoa que vai fazer o lançamento dos gastos na planilha ou no aplicativo, o responsável por calcular a média das contas de luz e propor mudanças. A ideia é levar em conta as afinidades de cada um”, sugere Casagrande.

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