Como forma de driblar a perda de rentabilidade dos investimentos em renda fixa, cujos ganhos se reduziram por causa da queda da taxa Selic ao piso histórico, os fundos de investimentos multimercados estão aumentando suas aplicações em ações.

Também estão elevando investimentos em títulos públicos de médio e longo prazo prefixados ou atrelados à inflação, cuja rentabilidade também está em alta por causa da redução da Selic.

Como o próprio nome diz, esses fundos atuam em diferentes mercados, como títulos do governo, renda variável (como ações) e câmbio, entre outros.

Há números que indiquem esse movimento? Sim. Estudo feito pela gestora de investimentos digitais Magnetis para o 6 Minutos mostra que a correlação do fechamento dos principais multimercados com os movimentos de alta e queda da Bolsa está em 83%. Em meados de 2016, ela estava zerada.

Em outras palavras: se o Ibovespa fechou em alta 100 vezes durante um ano, por exemplo, em 83 delas os fundos multimercado acompanharam esse movimento.

O mesmo levantamento mostra que, cada vez que o Ibovespa sobe ou cai 1%, a rentabilidade desses fundos varia 0,15% para cima ou para baixo. Parece pouco, mas esse percentual já foi de zero há quatro anos.

Para fazer a comparação, a gestora levou em conta o comportamento do IHFA (Índice de Hedge Funds) da Anbima (Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais), que reúne os fundos multimercados com maior peso.

Por que esses fundos estão investindo mais em Bolsa? O movimento é consequência da queda da taxa básica de juros, a Selic. Entre 2015 e 2016, por exemplo, a taxa estava em 14,25%, o que gerava um maior rendimento dos produtos de renda fixa, como títulos públicos. De lá para cá, os juros básicos foram sendo cortados — e hoje estão no piso histórico, em 5,5% ao ano.

Em outras palavras, atualmente os investimentos em renda fixa rendem muito menos do que há cinco anos. Para manter a rentabilidade dos fundos, os gestores optam por aumentar um pouco seus investimentos em renda variável.

“Mas essa não é a única razão”, afirma Marcelo Romero, diretor de investimentos da Magnetis. “Hoje a exposição à renda variável é maior por causa da perspectiva de alta para a Bolsa, por conta das reformas, como a da Previdência”.

E porque aumentaram os investimentos em juros de longo prazo? A Selic não caiu? No caso dos títulos públicos prefixados ou atrelados à inflação que são de médio ou longo prazo, a rentabilidade está em alta.

Isso acontece porque, se você tem um título prefixado a 6,5%, por exemplo, e a Selic está hoje a 5,5%, esse um ponto percentual de diferença faz com que esse papel seja mais atraente aos olhos do mercado, fazendo com que ele valha mais.

O mesmo acontece com os papeis atrelados à inflação, que são compostos por juros prefixados e a inflação do período.

“O IMA-B 5 [índice da Anbima que acompanha os títulos atrelados à inflação com prazo superior a cinco anos] está rendendo mais de 30% neste ano, ou seja, mais do que a Bolsa”, observa Hudson Bessa, professor da FGV (Fundação Getúlio Vargas) e há 30 anos especializado na indústria de fundos de investimento.

“Tem um movimento forte de gente ganhando dinheiro com a queda dos juros”, reforça Erick Scott Hood, analista de fundos da Guide Investimentos. “Em paralelo a isso, veio o aumento da posição em Bolsa.”

Qual o impacto, na prática, dessa mudança no portfólio dos multimercados? A tendência é que ao longo do tempo esses fundos irão se tornar um pouco mais arriscados e voláteis.

“Esses multimercados, que sempre tiveram 2%, 3%, 4% de bolsa, agora estão com 5%”, afirma. “A alocação em bolsa está muito maior do que o padrão”, afirma Renato Ometto, gestor dos fundos de ações da Mauá Capital. “A volatilidade dos multimercado vai aumentar ou já aumentou.”

Como está o patrimônio dos fundos multimercados? Esses fundos estão em expansão, assim como os fundos de ações. O crescimento médio do patrimônio líquido foi de 15,47% nos últimos 12 meses, para R$ 1,1 trilhão em agosto, segundo dados da Anbima.

 

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