Quem tem um carro próprio sabe que são muitas as despesas para manter a caranga rodando. Existem os gastos fixos, como os com IPVA e licenciamento, e os variáveis, como a manutenção do veículo e o pagamento do seguro. Mas para o alívio dos motoristas esse último item parece ter dado uma trégua nos últimos meses.

As seguradoras estão mesmo barateando as apólices dos clientes. Isso porque houve uma queda na demanda pelo serviço (causada pela redução da renda das famílias e pela menor produção de carros novos) e na demanda de coberturas (causada pela diminuição dos sinistros). De acordo com dados da Fenseg (Federação Nacional de Seguros Gerais), o valor arrecadado pelas seguradoras de janeiro a agosto caiu 5,1% em relação a igual período 2019.

“Com a pandemia, houve uma queda na renda e as famílias precisaram reduzir despesas. Aproveitando o fato de que o carro estava ficando na garagem em função da quarentena, essas famílias acabaram ou cancelando o seguro ou deixando de pagar. Ou ainda não fazendo a renovação”, explica Bruno Kelly, professor da ENS (Escola de Negócios e Seguros).

Seguro mais barato

Já quem renovou o seguro nos últimos meses pode ter percebido uma queda significativa no preço em relação à apólice anterior. Fatores como a idade e o perfil de risco influenciam diretamente no valor cobrado pelas seguradoras, mas de acordo com especialistas a queda de preço é um efeito disseminado no mercado.

Um levantamento feito a pedido do 6 Minutos pela Minuto Seguros, maior seguradora digital de veículos, mostrou que os preços das apólices caíram de 10% a 20%, em média, nas grandes capitais brasileiras. Essa redução de custo foi vista, inclusive, nos modelos de carros mais vendidos, que costumam ter um seguro mais salgado em razão da alta sinistralidade.

Queda nos sinistros

Durante a quarentena, o número de acidentes de veículos diminuiu mais de 60% em algumas capitais. Os roubos também diminuíram, chegando a cair pela metade em alguns estados, como São Paulo. Esses dois fatores são as principais causas dos sinistros — como é chamado o processo de acionamento do seguro em razão de batida, roubo ou furto. Os sinistros, por sua vez, são a principal despesa das seguradoras.

Quando a sinistralidade cai, as seguradoras conseguem um fôlego financeiro para diminuir o valor das apólices. Esse alívio foi fundamental para que os preços caíssem, mas ele não explica 100% o fenômeno.

“O mercado de seguros tem o crescimento bastante relacionado à venda de veículos novos. As montadoras oxigenam e realimentam esse setor”, diz Kelly, da ENS.

Menos carros zero

A indústria automotiva ficou parada durante meses, em razão da pandemia e do fechamento das concessionárias. As vendas de veículos novos despencaram e acumulam baixa de 32% nos nove primeiros meses do ano — foram 1,3 milhão de carros vendidos entre janeiro e setembro de 2020, frente a mais de 2 milhões vendidos no mesmo período de 2019.

Embora as vendas estejam se recuperando gradualmente, a queda no número de carros saindo das fábricas, significa uma redução no volume de apólices.

Grana curta

A queda na renda das famílias brasileiras fez com que muitas fossem obrigadas a cortar despesas não-essenciais. Com o carro passando mais tempo parado, a cobertura de seguros deixa de ser uma prioridade e passa a ser encarada como algo secundário. A taxa de renovação dos seguros diminuiu, embora as entidades setoriais não tenham números oficiais sobre isso.

Para tentar reter os clientes, as seguradoras passaram a dar benefícios para quem renova a cobertura do veículo. Em alguns casos, há um desconto de 5% a 10% aplicado para quem continuar cliente.

Outra questão é que, com a grana mais curta, os consumidores estão fazendo downgrades nos seus seguros. Coberturas mais abrangentes estão sendo trocadas por opções mais simples, para tentar baratear o preço da apólice.

“As seguradoras já estão se adaptando à nova realidade, não só buscando novos produtos para oferecer aos clientes, mas também trabalhando com coberturas mais reduzidas, que permitam redução de custo”, afirma o professor da ENS.

Ele conta que os seguros intermitentes, chamados de pay per use, por exemplo, devem se tornar um produto encontrado em mais empresas. Outras modalidades de seguros customizáveis, que têm as coberturas adaptadas às necessidades dos clientes, também devem deixar de ser exceção.

“A realidade em que as pessoas vão usar menos o carro já chegou. O motorista de Uber, por exemplo, que é um perfil de risco que as seguradoras não gostam de absorver, vai se multiplicar. O desemprego deve aumentar significativamente os veículos de aplicativo rodando na rua”, diz Kelly.

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