A necessidade de abertura de contas para o pagamento do auxílio emergencial fez o número de relacionamentos bancários no Brasil superar, pela primeira vez, a marca de 500 milhões.

De acordo com dados do Banco Central, em 31 de agosto havia 565,3 milhões de contas poupança ou conta corrente ativas no país, um crescimento de 93,9 milhões, ou 20%, na comparação com o período pré-pandemia.

Esse dado é referente ao número de relacionamentos, ou seja, se alguém tem uma conta corrente e uma conta poupança em um mesmo banco, é contabilizado apenas uma vez.

A tendência é que esse número vá aumentando com o tempo, em uma espécie de crescimento vegetativo: pessoas e empresas vão abrindo contas em mais de um banco e muitas vezes esquecem ou não têm interesse em encerrar o relacionamento, o que vai fazendo o número total subir.

Mas esse salto desde que a pandemia começou foi bem além do habitual, e foi impulsionado principalmente pelo auxílio.

Como forma de fazer chegar o auxílio emergencial de R$ 600 aos mais necessitados, somente a Caixa abriu 48 milhões de contas poupança digitais durante a crise.

Apesar de essa bancarização a jato estar relacionada a um movimento pontual, que é a pandemia e a necessidade de ajuda à população de baixa renda, a avaliação da Febraban (Federação Brasileira de Bancos) é que parte desses novos relacionamentos dos brasileiros com o sistema financeiro se manterá após a crise.

“Dezenas de milhões de pessoas que estavam à margem do sistema financeiro agora têm uma conta bancária, podem pagar contas e fazer compras online”, afirmou a entidade. “Seguramente milhões desses novos clientes manterão suas contas e tendem a consolidar seu relacionamento com os bancos”.

Para a Febraban, esse crescimento faz com que mais brasileiros tenham acesso a produtos e serviços com taxas melhores.

“Ao movimentar seus recursos em bancos, as pessoas têm acesso a produtos e serviços que proporcionarão mais conforto, segurança e rentabilidade. Além disso, passam a ter acesso a crédito, disputando recursos a taxas mais em conta e ficam livres da agiotagem”, avaliou a federação.

Alta renda também está abrindo mais contas

Além do auxílio emergencial em si, os dados também estão sendo influenciados por um fenômeno paralelo, este dos brasileiros de renda mais alta.

Nos últimos anos, em um cenário de entrada no mercado de bancos digitais e fintechs (startups do setor financeiro) oferecendo serviços bancários mais baratos, muitos consumidores estão abrindo novas contas em busca de diversificação.

Um sinal disso é um levantamento realizado pelo aplicativo Guiabolso no ano passado, que mostrou que 20% dos brasileiros possui mais de uma conta.

O isolamento social deu um empurrão nesse movimento, passando a abarcar também pessoas de uma faixa etária maior, que antes não estavam muito dispostos a abraçar a digitalização.

“Estamos em um ambiente financeiro bem mais descentralizado”, afirma Rafael Pereira, presidente da ABCD (Associação Brasileira de Crédito Digital). “Se posso ter um financiamento específico com taxa melhor no banco A, porque vou manter todos meus recursos no banco B?”.

Ele compara esse movimento ao unbundling da telefonia (desagregação de pacotes de serviços de telefonia, internet e TV pelas operadoras em ofertas individuais de serviços). “Cada vez mais você pode ter seu crédito imobiliário em um determinado banco e sua aplicação em outro”, exemplifica.

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