Em 2020, em um cenário de pagamento do auxílio emergencial, renegociação de dívidas e poupança forçada por causa da pandemia, os novos empréstimos do cheque especial tombaram quase 20%, uma queda muito mais pronunciada do que as concessões de crédito para pessoas físicas como um todo, que caíram 1,9%.

A categoria, que representava 20% de todos os empréstimos a pessoas físicas em 2019, viu sua participação reduzida a 16,7% no ano passado, enquanto outras modalidades bem mais baratas, como o crédito pessoal e o crédito consignado, ganharam terreno.

Segundo especialistas consultados pelo 6 Minutos, a tendência é de reversão desse quadro neste ano, com a interrupção do pagamento do auxílio no primeiro trimestre e a redução do valor a partir de abril, quando o benefício volta a ser depositado pelo governo.

Além disso, as renegociações de dívidas começam a vencer, o que também deve elevar a demanda pelo cheque especial. Um termômetro da expectativa dos bancos é a taxa de juros desse tipo de financiamento, que já aumentou para 124,9% ao ano em fevereiro. É um patamar que ainda está abaixo dos 130% registrados há um ano, mas bem acima dos 115% do final de 2020.

Calote em queda

Dados do Banco Central mostram que os bancos emprestaram R$ 310,2 bilhões no cheque especial em 2020, uma queda de 19% na comparação com 2019. Ao mesmo tempo, as concessões de crédito pessoal, por exemplo, que tem uma taxa bem menor (86% ao ano), subiram 10% na mesma comparação.

De acordo com Luiz Rabi, economista da Serasa Experian, esse movimento está diretamente relacionado à queda da inadimplência no ano passado, consequência do pagamento do auxílio emergencial e da forte rodada de renegociação de dívidas promovida pelos bancos.

Para se ter uma ideia, a taxa de calote, que era de 3% no final do ano retrasado, fechou dezembro em 2,1%.

“Normalmente as pessoas usam mais o cheque especial quando estão com a corda no pescoço, como uma forma emergencial de quitar alguma dívida. Mas como a inadimplência caiu entre abril e dezembro, como mostram os dados do BC e da Serasa, muitos consumidores usarem menos linhas emergenciais”, pondera. “Além disso, as pessoas puderam trocar suas dívidas caras por outras mais baratas, o que também amenizou os calotes”.

A economista e coordenadora do programa financeiro do Idec (Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor), Ione Amorim, alerta para outro fenômeno ocorrido no ano passado que também está relacionado à pandemia e que impactou essa entrada no cheque especial: parte da sociedade foi obrigada a poupar por causa das medidas de isolamento.

“Houve um grupo que não foi afetado por demissões ou perda de renda e que que acabou restringindo o consumo de maneira forçada. Esse consumidor acabou tendo uma sobra de caixa, e deixou de entrar no cheque especial”, explica.

Tarifa de uso não influenciou

Rabi, do Serasa Experian, afirma que essa queda forte do cheque especial não está relacionada às mudanças de regras na modalidade –em janeiro de 2020, as instituições financeiras foram autorizadas a passar a cobrar uma espécie de “tarifa de uso” pelo cheque especial, de 0,25% para os empréstimos de mais de R$ 500, ao mesmo tempo em que se estabeleceu um teto de 8% ao mês nos juros desses financiamentos.

“Essa menor utilização do cheque especial não tem muito a ver com o fato de as pessoas terem se assustado com a tarifa de uso. Tanto que o custo do cheque especial foi se reduzindo ao longo de 2020”, aponta.

Apesar de esses juros terem caído, a modalidade ainda é a terceira mais cara entre os diferentes tipos de financiamento oferecido ao consumidor. Portanto, o recomendado é o máximo de cuidado possível ao tomar esse empréstimo.

“É uma linha que as pessoas devem usar por dias apenas, por pouquíssimo tempo. E mesmo assim, com a intenção de cobrir o saldo negativo o mais rápido possível. Se precisar de crédito, o melhor é partir outro tipo de empréstimo”, aconselha. “É o mesmo raciocínio do cartão rotativo”.

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