Maio era para ser um mês bem movimentado, afinal é conhecido como mês das noivas. Mas por conta da pandemia, a bilionária indústria de casamentos no Brasil teve que dar uma pausa. Tudo ficou em suspenso: a ordem é remarcar as festas para o fim do ano ou para 2021. O certo, porém, é que o faturamento do setor deve ficar, no mínimo, 30% menor em 2020.

No Brasil, cerca de 1 milhão de casamentos são feitos todos os anos. Neste período de quarentena, a estimativa é que 300 mil casais deixaram de mudar de estado civil. Pesquisa do Instituto Data Popular e da Abrafesta (Associação Brasileira de Eventos Sociais) indica que o setor de casamentos movimentou, em 2017 (o último dado disponível), R$ 18 bilhões. O levantamento também mostrou que esse mercado que vinha crescendo, desde 2013, em um ritmo de 25% ao ano.

Com os casamentos cancelados em março, abril, maio e também em junho, por causa da pandemia – e sem novos negócios no front – calcula-se no setor uma perda de 30% no faturamento anual, ou seja: R$ 6 bilhões a menos.

Indústria de pequenos negócios

“Todo mundo está sendo afetado. Mas a maior parte das empresas do setor é de pequenos fornecedores: artesãos que fazem lembrancinhas, bem-casados, convites, boleiras, costureiras. Esse pessoal está sofrendo bem mais”, diz Monica Vasconcelos de Freitas, diretora da Goal, empresa que realiza a ExpoNoivas, a maior feira do setor de casamentos no Brasil.

Adão Francisco Antonio, de Carapicuíba, por exemplo, fornece salgadinhos para buffets de casamentos. Chegava a fazer mil coxinhas por dia e faturava o equivalente a R$ 1.300 por mês. “Mas agora estou parado em casa desde março e não consegui o auxílio emergencial do governo”, afirma ele.

“Nosso faturamento foi cortado ao meio”, diz a planejadora de festas Lilian Rocha, dona da Adéquat Eventos, de São Paulo. “Estamos incentivando as noivas a elaborar um plano B, um C e um D também”, afirma. “Trabalhamos com várias datas possíveis para um mesmo evento. Até para 2022 estamos postergando.”

Faltam datas para festejar

A advogada Marcela Marcondes Rodrigues Alves, de São Paulo, casaria no dia 1º de maio, numa festa para 210 convidados. Remarcou para 1º de novembro, um domingo. “Foi uma luta conseguir essa data, porque está todo mundo remarcando”, afirma ela.

O gerente da Casa Santo Antônio, uma tradicional locação para casamentos em São Paulo, confirma que o segundo semestre está bem disputado, principalmente os últimos meses do ano. Mas tudo pode ser renegociado novamente, se a quarentena continuar. Ele também contabiliza perdas. “Vamos ter um faturamento anual de 20% a 30% mais enxuto”, diz Rodrigo Mota, que está remarcando, sem cobrar multa ou taxas, os casamentos para o fim do ano.

Custo com remarcação 

Mas não foi assim que aconteceu com a noiva Thaila Santos, assistente de marketing em São Paulo. A cerimônia dela era para ter acontecido no dia 19 de abril. Em março, o buffet Evento Perfeito não quis remarcar a data. Depois, remarcou para 9 de maio. “Agora, eles dizem que têm fontes afirmando que a pandemia vai acabar e que a festa vai ser feita em julho. Não confio nisso”, diz a noiva, que se queixa de uma ameaça de cobrança de acréscimo de 50% de multa por parte da empresa no caso de cancelamento, o que é ilegal.

Por meio de mensagem eletrônica, o Buffet Evento Perfeito informou que “os cancelamentos estão sendo feitos” e que não está cobrando multa para os casais que não querem mais fazer a festa com a empresa.

Muita gente passa pelo mesmo problema de Thaila. Só no Procon de São Paulo, foram 190 reclamações a respeito de casamentos, em março e abril. No site Reclame Aqui, foram 1.122 queixas sobre o assunto.

O que diz a lei?

No último dia 8 de abril, foi publicada a Medida Provisória 948 que trata sobre o cancelamento de serviços, de reservas e de eventos. Multas não podem ser cobradas. A empresa deve dar aos consumidores alternativas para remarcação dos serviços, ou disponibilizar crédito para uso ou abatimento em outras compras.

E se o casal quiser cancelar o casamento?

Isso pode ser feito. O reembolso, neste caso, será em 12 vezes, atualizado monetariamente pelo Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo Especial (IPCA-E), com a primeira parcela a ser paga a partir de 1º de janeiro de 2021.

Caso o fornecedor já tenha prestado parte do serviço contratado a restituição não será integral. Assessores, decoradores, fornecedores de papelaria, fotógrafos, são alguns dos profissionais que executam serviços antes da data do casamento. Nestes casos os valores dos serviços já prestados serão descontados do valor final do contrato.

Incerteza

Outros profissionais não têm certeza de que esse mercado irá se normalizar. “Ainda é tudo muito incerto, não sabemos como vai ser o cenário pós-pandemia. Mas se no segundo semestre os eventos puderem acontecer, vai ter festa até as segundas-feiras, para acomodar tudo que foi adiado”, diz Monica.

O músico Danillo Gonçalves, da banda Blackhatz, postergou a maioria das datas que tinha para este período de pandemia. Os três integrantes da banda recebiam cachê de R$ 8.000 por festa e faziam de quatro a seis eventos por mês. Mas agora ele faz planos para mudar de profissão. “Prefiro não alimentar esperanças que possam ser frustradas, de que tudo vá voltar ao normal”, afirma.

Ensaio online

Mas há profissionais que conseguiram reelaborar seu modo de trabalho e assim, manter os negócios. Por meio de videochamadas, o fotógrafo de casamentos Caio Gimenez consegue fazer ensaio de noivos sem sair de casa. “O segredo é ter uma boa direção, saber dirigir os fotografados a colocar o celular em determinadas posições”, diz ele. De casa, ele vê as imagens da chamada em seu computador e vai dando “prints” de tela – e assim monta o ensaio. “Além de manter os clientes que já tinha fechado, consegui fechar mais dois novos durante a pandemia”, comemora.

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