Carteiras digitais como PicPay e 99Pay estão oferecendo rendimentos superiores a 200% do CDI aos clientes que deixarem o dinheiro em suas contas. Bancos que oferecem contas com rendimento automático costumam oferecer um retorno de até 110% do CDI.

No caso do PicPay, a rentabilidade é de 210% do CDI para depósitos de até R$ 250 mil – essas condições são válidas até 17 de março. Na conta 99Pay, que está disponível em apenas nove cidades do país, a rentabilidade de 220% do CDI vale para aplicações de até R$ 5.000.

Afinal, quanto essas contas rendem na na prática? O CDI é um marcador com valor próximo da taxa básica de juros (2% ao ano) e usado em transações financeiras entre bancos. De acordo com o coordenador do curso de gestão financeira da FGV (Fundação Getulio Vargas), Ricardo Teixeira, a rentabilidade destas contas fica assim:

  • PicPay, rendendo 210% do CDI: 3,99% ao ano;
  • 99Pay, rendendo 220% do CDI: 4,18% ao ano;
  • Contas que rendem 100% do CDI: 1,9% ao ano;

Se a Selic subir, o valor da rentabilidade das aplicações também sobe. Em todos esses casos o dinheiro pode ser resgatado no mesmo dia, mas a faixa de Imposto de Renda cobrada sobre o lucro é regressiva e varia de 22,5% a 15%, de acordo com o prazo em que o dinheiro for retirado. Na prática, quanto menos tempo o dinheiro ficar na carteira, maior a alíquota de IR.

Essas carteiras rendem mais que a poupança? Sim. De acordo com a regra atual de correção da poupança, ela está rendendo 1,4% ao ano. Enquanto a Selic estiver abaixo de 8,5% ao ano, como agora, a poupança rende 70% da taxa básica. Caso o juro volte a subir e fique acima de 8,5%, aí a remuneração da poupança passa a ser de 0,5% ao mês, mais TR (taxa referencial). Não existe cobrança de IR na poupança, vale lembrar.

Por que as carteiras digitais oferecem rentabilidades mais altas? É uma estratégia para aumentar a base de clientes de suas carteiras. “Com isso, aumentam a possibilidade de oferecer produtos cruzados, que garantam uma rentabilidade maior para a instituição, como é o caso do crédito”, afirma o especialista em investimentos e coordenador da pós-graduação da Fecap (Fundação Escola de Comércio Álvares Penteado), Marcelo Cambria.

Antes, as carteiras digitais funcionavam mais como meio de pagamento, mas o cenário vem mudando. “Hoje, elas funcionam como bancos. Pegam dinheiro de clientes por meio de aplicações e, do outro lado, emprestam recursos a crédito para quem precisa”, afirma Andrade. O PicPay, por exemplo, oferece cartão de crédito sem anuidade para os clientes pré-aprovados.

Vale a pena investir nestas carteiras? É preciso lembrar que o rendimento de 210% do PicPay tem um prazo para acabar: 17 de março. E a conta 99Pay está disponível para pouquíssimas pessoas.

Para planejadora financeira CFP Gisele Andrade, produtos com rendimento automático de mais de 200% do CDI em renda fixa têm embutido um risco de crédito maior do que o CDB ou letra financeira de instituições financeiras tradicionais.

Ricardo Teixeira, da FGV, afirma que o investidor precisa conhecer bem o produto antes de aplicar seu dinheiro. “O importante é sempre saber todas as informações essenciais sobre onde o dinheiro é alocado e qual o risco”, afirma.

Quais as opções do mercado? Instituições financeiras tradicionais dificilmente oferecem ativos com liquidez diária e rentabilidade tão alta quanto as das carteiras digitais, mas, para os especialistas, tendem a ser mais seguros. O mais comum é encontrar CDBs com liquidez diária e rentabilidade de 100% a 110% do CDI.

As contas digitais com rendimento automático são opções parecidas às carteiras digitais, com diferenças na rentabilidade. A NuConta, do Nubank, por exemplo, tem rendimento de 100% do CDI, mas, diferentemente das carteiras digitais, tem garantia do FGC – entidade que garante o retorno de até R$ 250 mil investidos caso a instituição em que a pessoa investe sofra falência, liquidação ou intervenção.

Essas carteiras têm alguma garantia? O PicPay afirma que não existe risco ao aplicar o dinheiro na carteira da empresa, já que possui garantia na forma de títulos públicos federais. “Todo valor que estiver na carteira, incluindo os rendimentos acumulados até o dia em que você decidir usar ou sacar, fica separado do patrimônio do PicPay – ou seja, o dinheiro é seu e você pode usá-lo quando quiser, a qualquer momento”, afirma a empresa.

O head da 99Pay, Maurício Orsolini Filho, diz que, na prática, a carteira não funciona como um investimento. “Trata-se de uma bonificação diária, oferecida pela própria empresa, que é calculada baseada no montante que o usuário tem na carteira”.

O regulamento da 99 diz que a empresa “poderá prorrogar ou encerrar esta ação a qualquer momento durante seu período de vigência, mediante comunicação específica por “push”, e-mail, comunicação no aplicativo ou qualquer outro meio de comunicação oficial da 99”.

 

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