O Brasil tem 4,6 milhões de endividados de risco, ou seja, aqueles que estão inadimplentes e ao mesmo tempo acumulam alguma outra vulnerabilidade financeira, como comprometimento de mais da metade da renda com dívidas ou estão “pendurados” em modalidades de crédito perigosas, como cheque especial e cartão rotativo ao mesmo tempo.

Um levantamento feito pelo Banco Central mostra que essa situação afeta principalmente as pessoas com mais de 65 anos e renda intermediária, ou seja, entre R$ 2.000 e R$ 10 mil mensais.

Para fazer o estudo, o BC acessou pesquisas internacionais sobre o tema e adaptou os cálculos para a realidade brasileira, descobrindo que 5,4% da população está exposta aos empréstimos de forma imprudente.

Para ser considerado um endividado de risco, é preciso acumular duas ou mais das seguintes características:

  •  inadimplente há mais de 90 dias
  • gasta 50% ou mais da renda para pagamento de dívidas
  • está pendurado de forma simultânea nas seguintes modalidades de crédito: cheque especial, crédito pessoal sem consignação e crédito rotativo
  • renda mensal, após o pagamento das dívidas, abaixo da linha da pobreza (R$ 439)

Essas são as pessoas mais propensas ao chamado efeito bola de neve do crédito, ainda mais quando entram e permanecem muito tempo no cheque especial ou no cartão de crédito rotativo, por exemplo, onde as taxas são muito mais altas.

Renda média, mais velhos

A principal constatação do estudo é que aqueles com renda entre R$ 2.000 e R$ 10 mil têm maior chance de ser endividados de risco: essas pessoas representam 54% do total dos classificados como possuidores de dívidas mais perigosas.

Enquanto isso, quem ganha até R$ 1.000 por mês tem uma participação de cerca de 15% nessa conta.

Segundo o economista especializado no setor financeiro João Augusto Salles, a prevalência desses consumidores no endividamento de risco tem a ver com o fato de que os mais pobres acabam nem conseguindo acesso a crédito nos bancos.

Os mais ricos, por outro lado, possuem recursos suficientes para se organizar e quitar obrigações quando a situação começa a sair do controle.

“Pelo senso comum, deveria ser o contrário. Mas a faixa de renda mais propícia a se enrolar com dívidas e exposição a crédito é essa, da renda média”, afirma o especialista.

Além disso, o BC descobriu que, quanto maior a idade do tomador de crédito, maior o risco de ser um endividado vulnerável a problemas maiores no futuro.

Se o percentual de endividados vulneráveis é de 5,4% para a população em geral, no caso de quem tem mais de 65 anos essa fatia salta para 7,8%, praticamente o dobro dos tomadores com até 34 anos.

Nesse caso, a explicação é que, com o passar dos anos, os propensos a se endividar de forma perigosa acabam se enrolando cada vez mais com seus empréstimos. Estudos mostram que esse público costuma se endividar ao contratar crédito para ajudar familiares em dificuldades financeiras.

Crédito em alta, endividamento também

Ao longo dos últimos 10 anos, o empréstimo a consumidores teve uma alta significativa no Brasil.

Em 2010, o crédito a pessoas físicas representava 19,9% do nosso PIB (Produto Interno Bruto). Esse percentual deu um salto importante, e passou a uma fatia de 27,8% da economia brasileira no ano passado.

Esse financiamento mais farto na economia brasileira, apesar de ser em geral positivo, acabou colocando uma quantidade maior de pessoas em situação financeiramente vulnerável .

“O uso responsável do crédito dinamiza a economia e propicia melhor qualidade de vida aos cidadãos. Por outro lado, seu uso excessivo, sem o devido planejamento ou adequada capacidade de pagamento do tomador, pode acarretar graves consequências para os indivíduos, suas famílias e a sociedade”, lembram os pesquisadores do BC no texto. “No limite, esse processo pode levar o tomador a uma condição de endividamento mais temerária, reduzindo o seu bem-estar”.

 

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