(Atualizado às 23h)

O tombo que a bolsa de valores brasileira levou nas últimas semanas não foi pequeno. Desde o dia 23 de janeiro, quando o recorde histórico de cotação foi alcançado, o Ibovespa acumula perda de 30,8%. Em números absolutos, o índice saiu de 119.527 pontos para 82.677 pontos ao fim da sexta-feira (dia 13). É o patamar em que estava no início de outubro de 2018, nos dias que antecederam o primeiro turno das eleições presidenciais.

“Quanto tempo vai levar a recuperação tem sido a pergunta de R$ 1 trilhão”, afirma Victor Beyruti, economista-chefe da corretora Guide Investimentos.

Por que está tão difícil saber quando a bolsa vai se recuperar? Ninguém sabe quanto tempo vai durar o ciclo atual de aumento de casos do coronavírus no Brasil e no mundo. O tempo de duração da pandemia é um fator chave para tentar dimensionar os estragos nos resultados financeiros das empresas.

“Já é possível prever que o primeiro trimestre de 2020 será bastante impactado. O segundo trimestre também pode ser afetado, a depender de como será o mês de abril. Pode ser que em abril os casos de coronavírus diminuam, ou pode ser que a gente tenha um mês em que persistam os efeitos negativos em vários países, dificultando a operação da indústria e a circulação de pessoas”, diz Rafael Panonko, economista-chefe da corretora Toro Investimentos.

E por que isso é relevante para a recuperação da bolsa? Uma ação é um pedaço de uma empresa. O valor dessa fração depende essencialmente da capacidade da empresa vender seus produtos e serviços e gerar receitas. Se a empresa gerar menos receitas, por causa do coronavírus, seu valor de mercado também será menor.

É provável que uma regressão dos casos da doença e a volta da normalidade dos negócios devem pavimentar uma recuperação do Ibovespa. Mas, com tantas variáveis imprevisíveis, fica difícil dizer quando isso acontecerá.

“É difícil prever o impacto no lucro das empresas porque não há premissas. Estamos desenhando cenários e vamos esperar para fazer a revisão das expectativas”, diz Beyruti, da Guide. Ele diz que, antes do início da crise, a corretora via a bolsa a 130 mil pontos no final do ano, mas que deve aguardar para divulgar anovas projeções.

Mas já não está melhorando? Os pregões desta semana mostram que a volatilidade tem sido a regra na bolsa. Ou seja, é imprudente fazer previsões. Veja abaixo a variação do Ibovespa no fechamento dos últimos dias:

  • Segunda-feira (09/03): -12,17%
  • Terça-feira (10/03): +7,14%
  • Quarta-feira (11/03): -7,64%
  • Quinta-feira (12/03): -14,78%
  • Sexta-feira (13/03): +13,91%

“Os pregões de alta dão certo ar de melhora, mas é importante dizer que a bolsa pode voltar a cair”, alerta Panonko, da Toro.

Quanto tempo levou para a recuperação de crises passadas? A última grande crise do mercado mundial foi a de 2008, desencadeada por problemas no setor imobiliário americano. Na época, a bolsa brasileira saiu de 73,5 mil pontos, em maio de 2008, para 31,2 mil pontos em novembro do mesmo ano: uma queda de quase 60%.

A bolsa só encostou nos 73 mil pontos novamente em novembro de 2010. Levou dois anos, portanto, para se aproximar do nível anterior. Mas é importante dizer que os economistas têm afirmado que a chamada crise americana guarda muitas diferenças com a de agora, a do coronavírus.

“Diferentemente de 2008, os bancos agora têm as carteiras de crédito muito mais saudáveis e as empresas estão menos endividadas”, lembra Beyruti, da Guide. Isso indica que os bancos terão mais flexibilidade para prolongar as dívidas de empresas que porventura tiverem receitas menores nos próximos meses.

E como nos recuperamos de crises domésticas anteriores? Durante os meses que antecederam o impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff, a bolsa também entrou em um ciclo de baixa. O Ibovespa saiu de 57,3 mil pontos em maio de 2015 para 37,5 mil pontos em janeiro de 2016. Uma desvalorização de 35%.

Conforme o noticiário tratou a saída da então presidente como algo provável, os ânimos do mercado foram mudando. O índice da bolsa voltou aos 53 mil pontos em abril de 2016, às vésperas da aprovação do impeachment na Câmara. Ou seja, nesse caso, a recuperação do patamar antes da queda profunda levou 11 meses.

É importante observar que, em ambos os casos, a bolsa seguiu uma trajetória de alta desde o fundo do poço, mas que no curto prazo não foi possível repor 100% das perdas acumuladas — ficou longe disso, na verdade.

O que eu, investidor, devo fazer? Outra particularidade da crise atual é que os investimentos em renda fixa estão pouco atrativos, o que torna as alternativas à bolsa quase inexistentes.

“Os juros vão ficar baixos por mais um tempo, e é por isso que não há muitos investidores saindo da bolsa agora, apesar do tamanho da queda”, afirma Rodrigo Franchini, sócio da assessoria de investimentos Monte Bravo. O diagnóstico é o de que não tem muito para onde correr em busca de melhores rendimentos.

Nesta outra matéria, nós falamos sobre conceitos que o investidor deve ter em mente antes de decidir se reduz sua exposição à bolsa ou se fica e espera o pior passar.

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