O Copom (Comitê de Política Monetária do Banco Central) elevou nesta quarta-feira (22) a taxa básica de juros (Selic) em 1 ponto percentual, para 6,25% ao ano. A taxa passará por mais duas revisões ainda neste ano, uma em 27 de outubro e a outra, em 8 de dezembro.

Com as altas da Selic, o BC tenta conter a pressão inflacionária, que não vem dando trégua – o IPCA acumulado em 12 meses cravou 9,68% em agosto. As altas dos preços são causadas por vários fatores que dialogam entre si, como o dólar ainda muito apreciado, os preços dos combustíveis e a crise hídrica, que encarece a energia.

Julio Hegedus, analista da plataforma de análises independentes Ohmresearch, diz que o BC está tentando ser comedido e diluir os aumentos da Selic, contando que a inflação atual seja transitória e o IPCA recue para algo como 4,5% em 2022. “A política monetária funciona por tentativa e erro, acertar a dose exata é muito difícil. O BC tem que ser gradual, sem deixar de ser incisivo quando necessário.”

Para quem investe em renda fixa neste momento, o mais importante não é o retorno nominal dos investimentos, mas sim que haja juro real positivo, ou seja, ganho acima da inflação. A elevação da Selic serve também para favorecer esse resultado. Com o IPCA nos patamares atuais, porém, é preciso escolher bem as aplicações atreladas ao CDI para não sair perdendo.

“Considerando a curva de juros de agora até o final do ano, quando a Selic deve chegar aos 8,25% [após mais dois ajustes de 1 ponto percentual], o investidor só conseguirá ficar no zero a zero, sem perder da inflação, com taxas pós-fixadas entre 135% e 140% do CDI“, calcula Sandra Blanco, economista-chefe da Órama Investimentos.

O que a alta de hoje na taxa Selic muda no panorama da renda fixa? É um passo a mais em uma trajetória de apreciação da taxa de juros, que tem efeito direto no retorno dos investimentos em renda fixa. Mas o investidor só deve ficar confortável em termos de juro real em 2022, se as expectativas do mercado se confirmarem e a pressão inflacionária atual tiver arrefecido.

“Pelo que conhecemos do BC e do teor dos comunicados, nós projetamos a Selic entre 8,25% e 8,5% para 2022, ainda com viés de alta, porque há vetores que não conseguimos medir, como crise hídrica e questões políticas. Com a inflação prevista de 4,5%, um investimento que paga 100% do CDI dará um juro real de 4%, que hoje o investidor só encontra em alguns títulos atrelados à inflação”, diz Sandra.

Podemos prever uma migração maior de investidores da renda variável para a renda fixa? É de se esperar que isso aconteça. Enquanto a renda fixa ganha um CDI cada vez mais alto, a renda variável vive um momento de bastante volatilidade. “Fica até difícil recomendar a compra de ações quando se teme estar às portas de uma crise global”, afirma Hegedus. “Para o investidor mais conservador, a opção da renda fixa é bem mais vantajosa. Ele está se assustando com a volatilidade do mercado.”

Sandra reconhece que as incertezas econômicas são um desafio para a renda variável e que, com a Selic proporcionando ganhos maiores, a relação risco-retorno da renda fixa melhorou muito. Mas acha que, dependendo de qual for o perfil do investidor, pode ser interessante não voltar totalmente para a renda fixa.

“Com esse movimento de realização bastante forte, há várias oportunidades na Bolsa, que nós vemos com bons olhos. A renda variável também é uma forma de aumentar o poder de compra e o patrimônio no médio e longo prazo. Com as distorções de preço da Bolsa dos últimos dias, os perfis moderado e arrojado podem diversificar“, ressalta a economista da Órama.

Como ficam os títulos pós-fixados? Em um contexto de alta do CDI, o título pós-fixado vai ganhar cada vez mais espaço, já que sua rentabilidade tende a se ampliar e não há risco de variação negativa.

Este é o momento dele, em papéis curtos ou longos. O investidor pode combinar diferentes vencimentos”, diz Sandra. “Há bons CDBs de um ano pagando 136% do CDI, de 2 anos a R$ 138% do CDI e de 4 anos a 140% do CDI. No resgate antecipado, a única penalização que pode haver é uma taxa cobrada pela corretora.”

E os títulos prefixados? Das três modalidades de renda fixa, esta é a que apresenta maior risco, já que o investidor trava todo o rendimento do papel em uma taxa que pode ser ou não vantajosa no futuro. Em uma eventual disparada da inflação, quem tiver escolhido o prefixado terá prejuízos, enquanto o portador de um papel indexado ao IPCA verá seus ganhos acompanharem o índice de preços.

Por essa razão, o melhor é optar por esses títulos apenas quando as taxas forem convidativas e a intenção for carregá-los até o vencimento, evitando os riscos da marcação a mercado. Quanto mais longo for o papel, maior será a volatilidade.

Jansen Costa, sócio-fundador da Fatorial Investimentos, observa que o mercado já vinha há um bom tempo oferecendo taxas elevadas nos prefixados, motivadas pelas incertezas que pressionavam os juros futuros. E o timing das melhores oportunidades pode ter passado.

“Na semana passada, o mercado acreditava em uma alta de 1,25% na Selic, e essa expectativa mudou para 1% depois da fala do presidente do BC. Por isso, quem aplicou em prefixado na semana passada, antes dessa mudança de expectativa, está ganhando mais dinheiro do que quem aplicar agora [pois as taxas devem cair]”, explica.

E os títulos de inflação, atrelados ao IPCA? Como entregam ao investidor a variação do índice de preços, mais uma taxa prefixada de juros, eles garantem a manutenção do poder de compra em qualquer cenário de inflação. Por isso, devem fazer parte da formação de uma carteira de renda fixa equilibrada, junto com os pós-fixados.

É possível encontrar no mercado CDBs pagando a variação do IPCA, mais cupom de 3,77% (com vencimento em 1 ano), 5% (2 anos) ou 5,50% ao ano (3 anos). Nos títulos do Tesouro Direto, como o risco de emprestar para o governo é menor que o dos bancos, os juros reais oferecidos são mais baixos. O Tesouro IPCA 2026 (5 anos) está pagando o IPCA mais 4,50% ao ano e o Tesouro IPCA 2035 (14 anos), IPCA mais 4,72% ao ano.

Sandra afirma que os papéis muito longos só fazem sentido em situações em que os objetivos financeiros são de longo prazo, como a aposentadoria. “Quem está no início da carreira, na fase de multiplicação do patrimônio, pode se permitir rodar mais a carteira, fazer mais operações, e por isso deve optar por papéis mais curtos, que são inclusive menos voláteis.”

Quer receber notícias do 6 Minutos direto no seu celular? Estamos no Telegram (t.me/seisminutos) e no WhatsApp (https://6minutos.uol.com.br/whatsapp).