Desta vez não teve surpresa: o ajuste da Selic foi exatamente na direção em que o mercado apostava. O Copom (Comitê de Política Monetária do Banco Central) elevou a taxa básica de juros em 1,5 ponto percentual, para 9,25% ao ano. É mais um passo da autoridade monetária no combate à inflação – o IPCA-15 de 12 meses chegou a 10,73% pela última aferição do IBGE.

E o aperto deve continuar em 2022. Para a próxima reunião, em fevereiro, já está previsto reajuste da mesma magnitude. Entre os fatores elencados pelo BC para respaldar a elevação da Selic estão, além da persistência da inflação no Brasil e em outras economias, as incertezas causadas pela variante ômicron do coronavírus, o risco de novo surto de covid-19 no próximo inverno e o provável prolongamento de políticas fiscais que, ao piorar as contas do país, elevam os prêmios de risco.

“Diante do aumento de suas projeções [de inflação] e do risco de desancoragem das expectativas para prazos mais longos, é apropriado que o ciclo de aperto monetário avance significativamente em território contracionista. O Comitê irá perseverar em sua estratégia até que se consolide não apenas o processo de desinflação como também a ancoragem das expectativas em torno de suas metas”, escreveu a autoridade monetária em seu comunicado.

Ao mesmo tempo, esses reajustes nos juros básicos representam uma boa notícia para quem investe em renda fixa. “A inflação do ano que vem deve ser bem menor do que nesse ano, o que o deve levar o juro real para um patamar positivo”, prevê Rafael Vianna, head da mesa de alocação private e sócio da BRA.

O que essa elevação da Selic para 9,25% muda nos investimentos em renda fixa, na prática? A alta de hoje veio dentro do que já era esperado pelo mercado e, portanto, já estava precificada nos títulos disponíveis nas prateleiras. Vale lembrar, porém, que o impacto de cada nova decisão do Copom não é o mesmo para todos os tipos de títulos de renda fixa.

“A Selic de curto prazo, definida a cada 45 dias pelo Copom, corrige os rendimentos dos títulos pós-fixados. A rentabilidade deles é diretamente impactada a cada decisão do BC”, explica Filipe Villegas, estrategista da Genial Investimentos. “Já em relação outros títulos, o que vai determinar suas taxas são as expectativas do mercado. E elas mudam diariamente, de acordo com diversas variáveis: dólar, taxa de juros no mundo desenvolvido, risco Brasil e a própria Selic de curto prazo.”

O aperto monetário é uma resposta do BC à persistência da inflação. Quando o investidor de renda fixa ficará mais confortável e terá um juro real positivo (superior à inflação)? Ainda não foi desta vez que a taxa Selic conseguiu bater a inflação, mas a alta de hoje encurtou essa distância, e o jogo deve se inverter em 2022. De um lado, a taxa Selic sofrerá mais alguns ajustes para cima e, de outro, a inflação deve dar uma aliviada, já que alguns fatores que exerceram pressão neste ano (crise hídrica, safras de alimentos) têm previsão de melhora.

“Estimamos que a Selic subirá até algo próximo a 12% ao ano. Então, isso dá espaço para um juro real positivo e para os títulos pós-fixados terem retornos mais altos. Porém, essa mesma estratégia é mais arriscada para um investidor que queira carregar um título prefixado até a data de vencimento”, ressalva Villegas.

Como é impossível dizer com segurança até onde irão a inflação e os juros (apesar das perspectivas otimistas), o comprador do prefixado não tem como saber se a taxa na qual ele está se travando, e que hoje parece ter “gordura” de sobra, será vantajosa no longo prazo.

“Se o vencedor das eleições presidenciais for alguém não comprometido com a redução da dívida pública e com a saúde fiscal, a projeção das taxas de juros vai se elevar e esse título prefixado pode acabar dando prejuízo”, completa o especialista da BRA.

Como ficam os títulos pós-fixados? Continuam indo de vento em popa, já que são diretamente beneficiados pela alta do CDI, ao qual seu rendimento é atrelado.

“Os ativos pós-fixados irão capturar a alta da Selic esperada nos próximos meses e, mesmo que os juros venham a cair, ainda assim devem continuar em patamar elevado”, prevê a XP, em relatório.

Os prefixados podem ser uma boa opção de investimento? Há controvérsias. O head da BRA, por exemplo, vê neles uma “excelente oportunidade” de investimento, considerando que as taxas atuais podem vir a murchar. “O mercado espera mais duas elevações da taxa Selic, elas já foram precificadas nos títulos. Então, as taxas dos prefixados já refletem o pico de juros do ano que vem. Não devemos manter os juros de dois dígitos por muito tempo”, justifica.

Já Marília Fontes, sócia da Nord Research, diz que as incertezas do cenário são muitas, o que torna a opção pelos prefixados temerária, especialmente em vencimentos mais longos.

“Não sei se as taxas estão próximas do pico, mas ainda temos muita instabilidade de fundamento. Não sabemos quem será o próximo presidente e qual será a próxima política econômica, e sem saber isso fica difícil se travar em um papel longo. Além disso, temos a possível alta do juro americano em 2022, que também deve influenciar os juros daqui”, argumenta.

Villegas, da Genial, diz que o fator eleições será crucial para selar a sorte dos prefixados. “Se o mercado entender que o próximo presidente não tem compromisso com a agenda fiscal, a taxa Selic pode passar de 12%. Então, pode haver uma certa decepção em termos de retorno para quem comprar prefixados agora”, pondera.

Os títulos atrelados à inflação devem continuar em alta? Como eles entregam ao investidor a variação do índice de preços, mais uma taxa prefixada de juros, eles garantem a manutenção do poder de compra em qualquer cenário de inflação. Isso, é bom frisar, desde que os papéis sejam carregados até o vencimento: havendo resgate antecipado, o que vale são as condições do momento, já que eles sofrem marcação a mercado.

“Eles devem continuar sendo muito procurados, mas porque o investidor tende a agir depois que a inflação já subiu, o que é um grande erro”, afirma Marília. “Os títulos IPCA estão caríssimos, em comparação com os dois outros tipos. Esse tipo de papel, você tem que procurar antes da inflação subir, depois ele fica caro demais.”

A especialista não vê sentido na compra desses títulos agora. “Eu não compraria Tesouro IPCA+ agora, ainda mais os mais longos, que precificam uma inflação implícita de 6,5%, sendo que a meta é de apenas 3%. Para o investidor ganhar em um Tesouro IPCA+ mais que em um Prefixado, ele tem que imaginar que o BC vai se equivocar sequencialmente, nos próximos 10 anos, a respeito da trajetória de inflação, o que eu acho muito difícil.”

Quer receber notícias do 6 Minutos direto no seu celular? Estamos no Telegram (t.me/seisminutos) e no WhatsApp (https://6minutos.uol.com.br/whatsapp).